Como a Disney pede desculpas às princesas em WiFi Ralph

Créditos da imagem: WiFi Ralph/Walt Disney/Reprodução

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Como a Disney pede desculpas às princesas em WiFi Ralph

Personagens voltam aos cinemas sem depender dos músculos de um príncipe encantado

Mariana Canhisares
09.01.2019
14h07

Belas, frágeis e impecáveis. Vítimas de uma situação que, sem a ajuda de um homem, nunca se resolveria. Por muitos anos, esse foi o retrato que a Disney fez das princesas nas suas animações. Na década de 1930, quando lançou Branca de Neve e os Sete Anões, a representação não parecia um problema. Mas, agora, é anacrônico pensar em uma personagem feminina - ou uma mulher de carne e osso - que seja tão dependente dos músculos de um príncipe encantado para salvá-la das mazelas do mundo.

O estúdio sabe disso e, talvez por isso, tenha decidido fazer um mea culpa no seu último lançamento, WiFi Ralph - Quebrando a Internet. Reunindo desde as Belas até as irmãs Elsa e Anna de Frozen, a Disney riu das suas simplificações e virou o jogo criando alguns dos melhores momentos da sequência.

As princesas não são mais tão indefesas quanto antes e isto está claro desde o primeiro momento em que as vemos de volta. Diante da chegada inesperada de Vanellope, cada uma tenta proteger a si mesma e suas amigas como pode. Enquanto Mulan e Merida têm armas de verdade, as demais adaptam elementos icônicos dos seus filmes. Ariel ameaça a pequena com um garfo, Bela com um livro e Jasmine com a lâmpada mágica. Porém, talvez, a mais intimidadora seja Cinderela que não pensa duas vezes em quebrar seu sapatinho de cristal, símbolo da delicadeza da personagem, para enfrentar a desconhecida. Assista:

É verdade que essa prontidão para encarar uma situação adversa não é uma novidade dentro da história do estúdio. Mulan enfrentou os hunos - e as normas sociais - e salvou a China. Esmeralda, de O Corcunda de Notre Dame, foi corajosa e se opôs às injustiças de Claude Frollo para defender Quasimodo. Moana, certa de que tinha a resposta para preservar sua ilha, foi sozinha mar afora salvar as pessoas e a terra que ama. Ao longo dos anos, a Disney foi fazendo pequenas alterações na trajetória de suas heroínas para se adequar aos novos tempos. No entanto, muitos estigmas ainda sobrevivem. O humor da cena não deixa dúvidas: essa “agressividade” vinda das princesas surpreende porque este não é um comportamento, nem um tipo de força esperado das mulheres.

A cena fica ainda mais brilhante quando elas começam a definir o que caracteriza uma princesa. Elementos divertidos, como magia e animais falantes, ficam em segundo plano em uma lista que conta com envenenamento, maldição, sequestro e escravidão. "Vocês estão bem? Devo chamar a polícia?", responde Vanellope, assustada, colocando em perspectiva todos os maus-tratos passados pelas meninas. Elas só chegam em um consenso quando Rapunzel pergunta: “as pessoas presumem que todos os seus problemas foram resolvidos porque um homem grande e forte apareceu?”. A resposta positiva confirma, Vanellope é uma princesa.

O discurso brincalhão vira ação quando WiFi Ralph coloca as próprias personagens para provar o quanto esse estereótipo está datado. [Cuidado com o spoiler] Com Ralph correndo risco de morrer, as princesas se juntam para salvá-lo, cada uma usando a sua habilidade especial. Toda a cena é muito divertida, relembrando momentos dos filmes e realmente resgatando o ex-vilão graças a um vestido, uma maçã envenenada e um beijo do Sapo [fim do spoiler]. Deste modo, deixa-se claro, de uma vez por todas, que as princesas são sim capazes de salvar o dia, assim como Ralph, um homem grande e forte, também pode precisar de ajuda e não há nada de errado nisso.

Aos poucos, a Disney vai se mostrando mais aberta ao desenvolvimento de protagonistas com vulnerabilidades, mas não simplesmente “frágeis” - Moana e Frozen são bons exemplos dessa evolução - e vai superando a ideia de que é preciso distinguir o que é de menino do que é de menina. Nesse processo de desconstrução gradual, Capitã Marvel é certamente o próximo passo. Levar aos cinemas uma heroína descrita como “a mais forte de todas”, sobretudo em um universo dominado por homens musculosos e imponentes, realmente pode quebrar novos paradigmas.