Um amor real te espera no Disney+

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O Oscar desse ano será diferente. Não porque vamos entender todas as piadas completamente locais contadas pelo apresentador, ou porque nossos astros favoritos serão poupados dos textos ridículos que têm de encenar antes de entregar cada prêmio. Pela primeira vez, o show será censurado.

A coisa não começou, mas tomou força com o showzinho de Janet Jackson no Superbowl, e, como um coquinho rolando ladeira abaixo, a onda moralista que já vinha cercando a TV engolfou o mais famoso prêmio do cinema.

Não adianta aqui criticar o ardor com que os estadunidenses (é, é assim que eles se chamam, já que americanos até os pingüins da Patagônia são) apontam o dedo para qualquer coisa que lembre sexo. Ewan McGregor foi o último a criticar a compulsão antinudez local, ao comentar o corte de uma cena de Peixe grande em que ele aparece pelado mais uma vez. Essa é uma decisão local, e, se os caras acham que, em meio a um jogo onde dois times se estropiam e cheerleaders seminuas fazem parte do cenário, um seio não deveria ter aparecido, então, que seja.

O problema é que os efeitos foram além do planejado aumento de audiência para o lançamento do novo CD de Janet Jackson. O Peitogate deu força à decisão de transmitir o Oscar com um atraso de cinco segundos, o que permite que a emissora corte parte do que acontece antes que o fato chegue à sua TV. Tudo em nome da família e da decência. Ou será que não?

Para começar, não há por quê segurar a onda para não ofender as crianças. Se os adultos já pegam no sono durante a sucessão de quero-agradecer-papai-mamãe-e-o-jardineiro, é remota a chance de um fedelho deixar o gibi de lado para ver um desfile de vestidos de grife. Também não há motivo para temer, no Oscar, o quesito pornografia. O máximo de nudez que a cerimônia reúne, principalmente quando Cher não está no cardápio, são alguns decotes abissais, devidamente apoiados por metros de fita dupla-face no exterior e quantidades ainda mais abrangentes de silicone no interior.

O que, então, a emissora quer cortar com seus cinco segundos de poder? Obviamente, o texto, começando com as sete palavras malditas da TV do país lá de cima do mapa, f..., sh... e suas companheiras, todas facilmente encontradas na torcida que estava no estádio em que Jackson resolveu se mostrar; e daí em diante, qualquer coisa que a emissora decida que possa ser ofensivo ou que ela suponha que o governo considere intolerável. E é aí que a coisa pode abater a audiência a tiros, e virar um grande imbróglio.

Para começar, a graça do programa ao vivo - e seria bom que nossos cantores amantes do play back fossem avisados disso - é o inesperado (além de saber quem canta e quem tem a voz construída no estúdio). Uma boa comédia no cinema é um ótimo programa, mas ver o elenco de Xandu Quaresma perder a compostura e cair na risada no teatro foi memorável. E com o Oscar não é diferente. É bem mais fácil lembrar que um homem atravessou o palco pelado em 1974 do que o nome do vencedor do troféu de Melhor Filme que David Niven estava apresentando (O poderoso chefão II). Ou que Vanessa Redgrave atraiu uma revolta diante do teatro ao criticar os sionistas em 1978 do que o vencedor de melhor ator do ano (John Voight).

É claro que a TV precisa de controle, preferencialmente autocontrole, que não mostre corpos assassinados às seis da tarde e comerciais de sexo explícito no desenho animado das dez da manhã. No entanto, se Michael Moore quer meter a lenha no presidente do país dele num show de prêmios às duas da matina, eu garanto que, na minha casa, não vai ter nenhuma criança vendo. E eu quero ver a cena toda, principalmente os atores que não aplaudiram.

Há, ainda, dois detalhes interessantes. Se alguém nesse ano eleitoral fizer um discurso a la Moore, e a Academia aqui respira aliviada porque Viggo Mortensen não foi indicado a nada, cinco segundos serão insuficientes para extirpar a ofensa da festa. Se o atraso for estendido, todo mundo vai notar o corte, e aí as palavras do fulano vão ganhar ainda mais força, num belo tiro pela culatra, mesmo que o dito cujo não tenha razão nem nas vírgulas. Além disso, se a censura for só local, a imagem transmitida ao resto do mundo vai contar com o discurso excomungado, criando um ótimo mercado para a gravação limpa na Internet. Exatamente o que a Academia vem combatendo. Tiro pela culatra de novo.

Há, também, a possibilidade do revoltoso ser criativo como Stella McCartney, que subiu ao palco com o pai, durante a entrada dele no Hall da Fama do Rock em 1999, com uma aplaudidíssima camiseta que dizia about fucking time. Até que o censor corresse com seus pixels, o recado teria chegado ao público.

Ou seja, o delay não vai defender as criancinhas, não vai impedir que Bush leve mais uma pela fuça, nem vai proteger senhoras pudicas dos vestidos mais escandalosos. O máximo que pode fazer é criar um desastre.

Melhor deixar o botão vermelho para os filmes de espionagem. Vai por mim.

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