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Chega de Saudade

Laís Bodanzky retorna com filme-coral pra dançar

Érico Borgo
20.03.2008
00h00
Atualizada em
10.11.2016
12h04
Atualizada em 10.11.2016 às 12h04

Laís Bodanzky demorou sete anos desde O Bicho de Sete Cabeças para lançar seu segundo longa-metragem. Mas a espera foi plenamente justificada. A cineasta não decepciona em seu segundo trabalho e entrega um dos melhores filmes nacionais recentes.

A história é ambientada durante uma única noite de baile, num clube de dança em São Paulo. A trama começa ainda com a luz do sol, quando o salão começa sua preparação para abrir as portas, e termina ao final do baile, quando o último freqüentador desce a escada e o luminoso se apaga. Nesse universo encapsulado entre paredes repletas de folhetos e fotografias desbotadas, acompanhamos grupos de personagens que circulam pela pista.

Bel (Maria Flor) namora o DJ da noite, Marquinhos (Paulo Vilhena). Ao acompanhá-lo ao trabalho acaba encantada pela atmosfera do baile - e especialmente por um de seus frequentadores (Stepan Nercessian), o que gera certo desconforto com a companhia dele, Marici (Cássia Kiss). Enquanto isso, Álvaro (Leonardo Villar), com seu pé quebrado, não consegue lidar com a frustração de não poder dançar mais e desconta seu mau-humor em Alice (Tonia Carrero, de volta ao cinema depois de 17 anos). Sem falar na carente Elza (Betty Faria), cheia de intenções e frustrações, entre outros tipos. No palco, Elza Soares e Marku Ribas cuidam da trilha sonora.

A premissa e a execução lembram bastante os filmes-coral de Robert Altman (1925-2006), com vários personagens que dividem um só ambiente. Bodansky e o roteirista Luiz Bolognesi usam esse microcosmo para tratar de envelhecimento físico, mas não mental - de amores, de decepções e descobertas. Todas as histórias são cativantes, mas é especialmente memorável a protagonizada por Nercessian e Flor. O ator, aliás, faz seu melhor trabalho como o malandro lobo do baile, em busca de um melancólico lampejo de juventude perdida. A cena final dele, na kombi, Paçoca Amor em punho, já é uma das minhas preferidas do ano.

Narrativa à parte, sem a câmera do diretor de fotografia Walter Carvalho, Chega de Saudade não seria possível - ou tão interessante. Ora ela transita pelo salão lotado, feito um garçom com uma porção de tremoço e uma garrafa de cerveja na bandeja, ora baila junto com os dançarinos em uma coreografia elegante, a poucos centímetros do assoalho. Carvalho é o verdadeiro pé-de-valsa ali e simplesmente não dá para recusar essa dança. Deixe que ele o guie pela mão até o centro do salão e bom filme.

Lembre-se apenas de calçar sapatos confortáveis.

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