Cartola
Documentário registra com poesia a vida do compositor
Poucas vezes se viu, na história da música brasileira, figura tão fascinante quanto Angenor de Oliveira, o Cartola. Endeusado por qualquer um que conheça um pouquinho que seja do riscado, o sambista ganha agora um documentário à altura de seu nome, resultado de anos de trabalho da dupla Lírio Ferreira e Hilton Lacerda.
A veneração ao homem não é gratuita. Dono de uma vida cheia de altos e baixos, Cartola é o estereótipo daquela simplicidade quase inocente da vida no morro carioca, que não existe mais. Carregado de um lirismo que não aprendeu na escola (que não freqüentou), compôs uma série das grandes pérolas do velho samba de violão, viu sua estrela brilhar tarde demais e, ainda assim, não trocava seu conhaque com cerveja por badalação nenhuma.
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A história do artista Cartola, nascido em 1908, começa nas décadas de 1920 e 30. É aí que funda a Mangueira, escola de samba com quem teve uma relação de amor e ódio, e começa a vender suas composições para baluartes da música da época - como Francisco Alves e Mário Reis - se torna amigo de Villa Lobos e Noel Rosa e é gravado por Carmen Miranda.
Sua fase mais reconhecida hoje vem do final dos anos 50 quando, depois de uma época de ostracismo, em que chegou a ser dado como morto, é encontrado por Stanislaw Ponte Preta (persona de Sérgio Porto, dos jornalistas mais influentes de então) trabalhando como lavador de carros. É então que, já casado com Dona Zica, vira personagem valioso do meio artístico, fazendo seus primeiros shows solo. Seus únicos quatro discos foram registrados entre 74 e 79, pouco antes de sua morte, em 1980.
O grande mérito de Cartola
, mais do que ser um retrato fiel do compositor carioca, é se mostrar um filme tão extraordinário quanto seu personagem. A dupla não se limita a contar a história de Angenor, ponto a ponto, como um documentário comum: prefere construir um mosaico poético sobre ele, fazendo paralelos sutis à história cultural e política da época.Daí que, a partir das cenas iniciais sobre o enterro de Cartola, ilustram sua vida com imagens do cinema nacional (referenciando, por exemplo, Júlio Bressane e Aviso aos navegantes, chanchada com Oscarito) e trechos ficcionais. A montagem é um dos grandes destaques do documentário, ao lado da sensacional pesquisa de arquivo, que resgata imagens raras do músico (em programas de auditório, cantando ao lado de Chico Buarque, material jornalístico ou em momentos pessoais, ao lado do pai). Os musicais e depoimentos recuperados também são preciosos, como as imagens de Madame Satã, Donga, Pixinguinha e Elza Soares.
A carga lírica acaba por comprometer um pouco da necessidade factual do documentário, com alguns aspectos da vida de Cartola analisados superficialmente ou ignorados pelo recorte final - a origem do apelido, seus programas de rádio, os conflitos que resultaram no seu afastamento da Mangueira ou os anos em que passou longe de tudo (resumidos pela tela enegrecida, embalada pela voz de Elizeth Cardoso). Defeitos que poderiam ser resolvidos com alguns minutos a mais de filme.
Mas nada disso tira o brilho da produção. Cartola não é (e nem se propõe a ser) um retrato definitivo sobre o sambista mais querido do Brasil. Já se basta em prestar uma bela homenagem a Angenor, à beira da marca dos seus 100 anos de nascimento. E se gerar uma curiosidade maior sobre o homem e sua obra, já cumpriu muito bem sua missão.
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