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Cartas de Iwo Jima

Clint Eastwood ilumina a guerra sob a ótica dos japoneses

Marcelo Hessel
15.02.2007
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h22
Atualizada em 21.09.2014 às 13h22

Ainda que tenha sido dirigido três vezes por um dos maiores estetas do cinema, Sergio Leone, como diretor Clint Eastwood não tem muitos arroubos de estilo. Sua economia visual é célebre, e não só no jeito de filmar, sempre com o mínimo de takes e o máximo de rapidez. Em seus últimos três filmes, porém, Clint parece ter se apaixonado pelos efeitos de luz.

Desde Menina de Ouro, com aquele ginásio envolto em sombras, o cineasta encontrou na contraluz e no chiaroscuro uma forma de intensificar o drama de seus personagens. O recurso alcançou momento baixo em A Conquista da Honra, quando se banalizou nas cenas em que o filho do sobrevivente da Guerra entrevista outros veteranos no meio da penumbra, trucagem hiperdramática. A iluminação de cena segundo Clint Eastwood agora encontra sua reabilitação e seu auge com Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima, 2006).

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O pôster de A Conquista da Honra mostra os soldados entrando na trincheira com a luz às suas costas. O cartaz de Cartas de Iwo Jima é parecido, com o sol ao fundo, mas ao longo do filme sucede o contrário - é o exterior que se torna negro, o interior nós vislumbramos em tons de alto contraste. São as cavernas que os japoneses cavam no interior da ilha, ponto estratégico na disputa entre Aliados e Eixo na Segunda Guerra, para se proteger do ataque dos estadunidenses. É difícil mensurar, mas uns 70% do filme se passam dentro dos buracos mal iluminados.

Clint tem em John Ford outra inspiração declarada - Cartas de Iwo Jima paga tributo, especialmente, a Rastros de Ódio. A cena que abre o faroeste de 1956 é inesquecível, a porta da aconchegante casa dos Edwards se escancarando para a brutalidade do deserto. São dois mundos inconciliáveis: o interior e o exterior. Passar de um para outro implica transformação. Os mais de 20 mil japoneses entranhados na ilha vivem conflito semelhante. Dentro das cavernas, guardam ainda alguma humanidade. Fora delas, alvos fáceis, são apenas o que são: gente mal equipada morrendo num combate que não lhes diz respeito.

Falar que Clint "humaniza o inimigo", ao escolher filmar o episódio histórico do ponto de vista dos japoneses, é reduzir a questão ao óbvio. Mais do que isso, Cartas de Iwo Jima é quase uma recusa do filme de guerra como espetáculo - ao retratar os subterrâneos, geográficos e mentais, o diretor mostra que guerras não são feitas só de heróicos sobreviventes, mas também de medos. Rendição misturada com instinto de sobrevivência misturado com esperança. Tudo isso pode ser encontrado nos buracos de Iwo Jima, signo invertido do mito da caverna de Platão - o clarão das bombas e dos sinalizadores, lá fora, só nos ajuda a ver melhor o interior.

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