"Boi Neon mostra a violência e o prazer habitando no mesmo corpo", explica o diretor Gabriel Mascaro
Longa estreia nesta quinta no Brasil depois de fazer carreira em festivais internacionais
Sob holofotes mundiais desde que ganhou o Prêmio do Júri na mostra Horizontes, do Festival de Veneza, seguido do troféu Redentor de melhor filme no Festival do Rio, a produção pernambucana Boi Neon, de Gabriel Mascaro, entra em cartaz nesta quinta-feira em todo o país inaugurando o ciclo de estreias nacionais autorais de 2016 com as especiarias do desejo e da invenção. Fragrâncias eróticas perfumam este longa-metragem centrado no universo das vaquejadas do Nordeste, com foco na tribo de amigos de um dos vaqueiros, Iremar (Juliano Cazarré), um costureiro de mão cheia cujo sonho é se firmar como estilista. Nesta quinta, no Rio, no Espaço Itaú Arteplex, em Botafogo, a partir das 20h, o cineasta conversa sobre as filmagens ao lado do realizador Walter Salles e da professora da UFRJ e documentarista Consuelo Lins, sendo acompanhado por Cazarré e pela atriz Maeve Jinkings, um dos destaques deste ensaio sobre o querer em suas mais variadas formas. Realizador de prestígio internacional graças a filmes como Ventos de Agosto e Doméstica, Mascaro explica, na entrevista a seguir, de que maneira subverteu padrões de comportamento sexual ao olhar um ambiente majoritariamente masculino.
De que maneira o sexo se põe ainda como uma determinante de brasilidade no Nordeste que você retrata em Boi Neon?
GABRIEL MASCARO - Acho que o filme não se escreve sob o regime da determinância, mas da exceção. Criar uma aparente normalização da exceção é o deslocamento político que o filme provoca. Mas essa aparente normalização da exceção não é ingênua e sim, ambígua.
Como é que a identidade de gêneros se materializa no cinema do teu estado? Que homens e mulheres frequentam tuas histórias?
MASCARO - É difícil falar em nome de uma geografia, de uma ideia de "cinema pernambucano" como algo estanque. Pessoalmente, eu me interesso por personagens que habitam na aparente estranheza da vida. E entrar neste cotidiano e descobrir o movimento do ritual ordinário dessas vidas me interessa muito como pesquisa. A região Nordeste cresceu economicamente de forma muito veloz. Ela é cosmopolita. Então o filme se alicerça num cenário contemporâneo de prosperidade econômica regendo novos signos, desenhando novas relações humanas, afetos e desejos. É um filme sobre a transformação da paisagem humana.
De que maneira Boi Neon dialoga com a tradição estética do Recife nas telas?
MASCARO - Não saberia dizer. Num mundo contaminado pela partilha cultural é difícil falar, em 2016, de uma tradição pernambucana ou recifense. Talvez possamos falar de uma tradição de filmes diferentes e especiais que estão surgindo dentro de um contexto regional e político no Brasil, e que, felizmente, estão conseguindo dialogar com outras filmografias, festivais, encontrando seu próprio circuito num mercado cada vez mais fechado para o risco.
O sexo perdeu o lugar nas nossas telas. Teu filme injetou tesão na representação do desejo. Qual é o maior desafio em se encarar a carnalidade?
MASCARO - Tento iluminar este tema de forma que o filme possa revelar novos contornos, novos relevos, novas erupções, mostrando tanto a violência quanto o prazer habitando no mesmo corpo. A câmera perscruta os espaços em seus lentos movimentos em busca dos personagens de forma a encontrar o lugar do corpo, mais do que o lugar do rosto. Aproximar a câmera neste filme era um gesto de esvaziamento. Os planos gerais neste filme devolvem aos personagens a ideia de força, de presença, de resistência. Os personagens do filme são seres simples, humildes, estranhos e diferentes, mas não querem fugir, e sim sonhar com novos devires naquele mesmo espaço.
Que rumos planetários Boi Neon toma agora e que projetos você acalenta para os dias que seguem?
MASCARO - Muito felizmente o filme foi vendido para entrar em cartaz em 15 países, teve participação em festivais em cerca de 25 países e temos mais 30 festivais internacionais agendados para 2016. Nos Estados Unidos, ele estreia no dia 8 de abril. O Boi Neon vai ficar vai ficar ainda solto em 2016 com muita alegria.
Que projetos você planeja rodar nos próximos meses?
MASCARO - Estou preparando duas pesquisas, uma sobre evangélicos no Brasil e outra sobre idosos. Vamos ver se vai sair do papel.
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