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Filmes
Entrevista

"Boi Neon mostra a violência e o prazer habitando no mesmo corpo", explica o diretor Gabriel Mascaro

Longa estreia nesta quinta no Brasil depois de fazer carreira em festivais internacionais

RF
14.01.2016, às 17H50.
Atualizada em 08.11.2016, ÀS 00H07

Sob holofotes mundiais desde que ganhou o Prêmio do Júri na mostra Horizontes, do Festival de Veneza, seguido do troféu Redentor de melhor filme no Festival do Rio, a produção pernambucana Boi Neon, de Gabriel Mascaro, entra em cartaz nesta quinta-feira em todo o país inaugurando o ciclo de estreias nacionais autorais de 2016 com as especiarias do desejo e da invenção. Fragrâncias eróticas perfumam este longa-metragem centrado no universo das vaquejadas do Nordeste, com foco na tribo de amigos de um dos vaqueiros, Iremar (Juliano Cazarré), um costureiro de mão cheia cujo sonho é se firmar como estilista. Nesta quinta, no Rio, no Espaço Itaú Arteplex, em Botafogo, a partir das 20h, o cineasta conversa sobre as filmagens ao lado do realizador Walter Salles e da professora da UFRJ e documentarista Consuelo Lins, sendo acompanhado por Cazarré e pela atriz Maeve Jinkings, um dos destaques deste ensaio sobre o querer em suas mais variadas formas. Realizador de prestígio internacional graças a filmes como Ventos de Agosto Doméstica, Mascaro explica, na entrevista a seguir, de que maneira subverteu padrões de comportamento sexual ao olhar um ambiente majoritariamente masculino.

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De que maneira o sexo se põe ainda como uma determinante de brasilidade no Nordeste que você retrata em Boi Neon?
GABRIEL MASCARO - Acho que o filme não se escreve sob o regime da determinância, mas da exceção. Criar uma aparente normalização da exceção é o deslocamento político que o filme provoca.  Mas essa aparente normalização da exceção não é ingênua e sim, ambígua. 

Como é que a identidade de gêneros se materializa no cinema do teu estado? Que homens e mulheres frequentam tuas histórias?
MASCAROÉ difícil falar em nome de uma geografia, de uma ideia de "cinema pernambucano" como algo estanque. Pessoalmente, eu me interesso por personagens que habitam na aparente estranheza da vida. E entrar neste cotidiano e descobrir o movimento do ritual ordinário dessas vidas me interessa muito como pesquisa. A região Nordeste cresceu economicamente de forma muito veloz. Ela é cosmopolita. Então o filme se alicerça num cenário contemporâneo de prosperidade econômica regendo novos signos, desenhando novas relações humanas, afetos e desejos.  É um filme sobre a transformação da paisagem humana.

De que maneira Boi Neon dialoga com a tradição estética do Recife nas telas? 
MASCARO Não saberia dizer. Num mundo contaminado pela partilha cultural é difícil falar, em 2016, de uma tradição pernambucana ou recifense. Talvez possamos falar de uma tradição de filmes diferentes e especiais que estão surgindo dentro de um contexto regional e político no Brasil, e que, felizmente, estão conseguindo dialogar com outras filmografias, festivais, encontrando seu próprio circuito num mercado cada vez mais fechado para o risco.

O sexo perdeu o lugar nas nossas telas. Teu filme injetou tesão na representação do desejo. Qual é o maior desafio em se encarar a carnalidade?
MASCARO Tento iluminar este tema de forma que o filme possa revelar novos contornos, novos relevos, novas erupções, mostrando tanto a violência quanto o prazer habitando no mesmo corpo. A câmera perscruta os espaços em seus lentos movimentos em busca dos personagens de forma a encontrar o lugar do corpo, mais do que o lugar do rosto. Aproximar a câmera neste filme era um gesto de esvaziamento. Os planos gerais neste filme devolvem aos personagens a ideia de força, de presença, de resistência. Os personagens do filme são seres simples, humildes, estranhos e diferentes, mas não querem fugir, e sim sonhar com novos devires naquele mesmo espaço.

Que rumos planetários Boi Neon toma agora e que projetos você acalenta para os dias que seguem?
MASCAROMuito felizmente o filme foi vendido para entrar em cartaz em 15 países, teve participação em festivais em cerca de 25 países e temos mais 30 festivais internacionais agendados para 2016. Nos Estados Unidos, ele estreia no dia 8 de abril. O Boi Neon vai ficar vai ficar ainda solto em 2016 com muita alegria. 

Que projetos você planeja rodar nos próximos meses?
MASCAROEstou preparando duas pesquisas, uma sobre evangélicos no Brasil e outra sobre idosos. Vamos ver se vai sair do papel.

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