Filmes

Entrevista

As Aventuras do Pequeno Colombo | "O alto astral de José Wilker contagiava o ambiente", diz diretor

Longa animado marca o último trabalho do ator, que morreu em 2014

Rodrigo Fonseca
04.07.2017
10h18
Atualizada em
04.07.2017
12h00
Atualizada em 04.07.2017 às 12h00

Último trabalho do aclamado ator José Wilker (1946-2014), aqui no posto de dublador, o desenho As Aventuras do Pequeno Colombo fez sua primeira exibição pública no Anima Mundi, em 2015, e foi angariando prêmios em sua excursão por festivais, mas só agora encontrou espaço em circuito, estreando nesta quinta (6). Agraciado com o prêmio de melhor diretor no Cine PE 2016, o cineasta Rodrigo Gava narra aqui história do jovem navegador Cristóvão Colombo, que, ao lado dos amigos Leonardo Da Vinci e Mona Lisa, embarca em um navio negreiro rumo a uma ilha onde estaria um tesouro que salvaria seu pai da falência. A jornada deles é um convite a uma série de perigos, mas também de encontros comoventes. No meio do caminho, os heróis mirins cruzam com o Conde de Saint-Germain, papel de Wilker, e com a sereia Mabe, dublada pela atriz Isabelle Drummond. No vídeo abaixo, exclusivo do Omelete, os atores falam sobre a experiência da dublagem:

Na entrevista a seguir, Gava fala sobre o processo de animação no país:

Omelete: Qual é o maior desafio técnico e tecnológico hoje no Brasil para um projeto de longa de animação?

Rodrigo Gava: Um projeto de longa-metragem de animação não possui um único desafio técnico e sim diversos em todas as fases de produção. Desde encontrar um bom distribuidor disposto a apostar em uma técnica que historicamente não tem bons resultados em bilheteria, até encontrar bons profissionais com competência e experiencia para fazer parte da equipe. Nos últimos anos evoluímos muito. A animação teve uma acensão meteórica. De repente começamos a ter longas premiados em annecy e até indicação para o Oscar. Porém, ainda temos um mercado muito pequeno comparado ao nosso potencial. Com isso, temos poucas escolas de animação. Para piorar, com a crise econômica e politica atual, vemos os melhores animadores que temos no Brasil indo para outros países como Estados Unidos, Canada e Inglaterra.

Omelete: E quando se trata de um filme de animação mais comercial?

Gava: Aí, a questão da distribuição é um dos maiores desafios. Se não tivermos um investimento mais sério em “marketing” e distribuição, nunca teremos um case de sucesso nas bilheterias. Sem esse case, os investidores ficam muito receosos em investir, já que o risco se torna grande. Sem investimento, não conseguimos produzir um filme com capacidade de competir com os filmes americanos. E assim seguimos sem um case de sucesso e ficaremos eternamente nesse ciclo. No nosso caso, graças a esforços do Marco Altberg e principalmente da Silvia Rabello, conseguimos uma parceria com a Paris / Downtown logo no início do projeto, o que facilitou a entrada de outros players importantes como BNDES, FSA, Globo Filmes, Rio Filme entre outros. Em relação a desafio tecnológico, acredito que hoje temos no Brasil toda a tecnologia necessária para competir de igual para igual com os filmes estrangeiros. A diferença novamente vai ser financeira. Para poder ser competitivo, precisamos de equipamentos mais caros e mais tempo de produção, que influencia diretamente no orçamento do projeto.

Omelete: O que o Nautilus representa como elemento fantástico na trama?

Gava: O filme é uma grande aventura fantástica que temperamos com personagens e fatos históricos. Acho que esse é o grande barato do filme,  poder brincar com os fatos históricos em uma divertida ficção. Nela, Nautilus representa a ultima barreira a ser cruzada antes da invasão dos europeus ao continente americano. 
Ele, na verdade, é uma proteção da cultura indígena. Dessa forma,tanto Nautilus como todo o povo das águas tem forte influencia da cultura maia na arte das vestimentas e arquitetura. No início do projeto, ele não era mau e dependendo do ponto de vista, ele estaria certo em destruir os humanos que tentassem cruzar o atlântico, mas tivemos que torna-lo mais malvado e monstruoso para poder ter um vilão mais temível e tornar a aventura mais perigosa e emocionante.


Omelete: 
Seu filme é guardião da memória do derradeiro trabalho de José Wilker e agora também do Stil, grande animador brasileiro, que foi seu roteirista, e morreu no fim de junho. O que você guarda de memórias de ambos?

Gava: Do Wilker, lembro-me vividamente das gravações em estúdio. Seu alto astral contagiava todo o ambiente. Sua desenvoltura como dublador/artista de voz mostrava toda sua bagagem. As falas nunca precisavam ser refeitas. Foi muito bom poder ter trabalhado com ele nesse filme. Em relação ao Stil, uma das pessoas mas fantásticas e doces que conheci. Além de sua ternura, era um gênio. Sempre comento que se ele tivesse nascido nos EUA, seria uma daquelas pessoas que sempre seriam lembradas no Oscar e seria uma referência de criatividade para todos os roteiristas. Éramos muito amigos e trabalhamos juntos muito tempo em diversos projetos de longas, curtas e séries de TV.  Fico muito feliz do Stil ter visto esse filme no cinema quando passou no Anima Mundi. Era um grande sonho dele. O que me conforta é que, segundo suas próprias palavras, ele "fazia viagens astrais" e já sabia onde reencarnaria. Então nesse momento Stil já renasceu em algum lugar da Europa. Vindo do Stil, não duvido nada.
Além desses dois gênios, também tivemos a perda de um animador, Thiago Menescal, logo após a conclusão do filme. Um jovem muito habilidoso que não era famoso como os outros dois citados, mas era igualmente talentoso, só que na arte da animação. O céu estará em festa no lançamento desse filme.