Filmes

Entrevista

Aos Teus Olhos | Filme de Carolina Jabor aborda a brutalidade dos linchamentos virtuais

Baseado em peça espanhola, longa com Daniel de Oliveira ganhou prêmio de júri popular no Festival do Rio

Rodrigo Fonseca
15.04.2018
14h39
Atualizada em
18.04.2018
00h06
Atualizada em 18.04.2018 às 00h06

Conto moral, com corpo de drama e tensão de thriller, Aos Teus Olhos chegou às telas este fim de semana após colecionar prêmios em festivais no Brasil e no exterior, expondo a cultura do ódio. A direção é de Carolina Jabor (Boa Sorte) que filma atenta à intolerância nas rédeas das redes sociais ao discutir um caso de intolerância ligado à pedofilia.

Premiado com os troféus de Melhor Roteiro, Ator (para Daniel de Oliveira), Ator Coadjuvante (Marco Ricca) e Júri Popular na Première Brasil do Festival do Rio 2017, o filme faz uma radiografia da violência nas redes sociais. Daniel vive Rubens, professor de natação acusado de ter beijado um aluno de sete anos na boca. O pai do menino (Ricca) cobra justiça, o que gera uma bola de neve, incialmente via Whatsapp. A trama é baseada na peça espanhola O Princípio de Arquimedes, de Josep Maria Miró. Na entrevista a seguir, Carolina explica as opções estéticas que tomou.

Omelete: Que fascínio você tem pela ideia de heróis alquebrados, como é a Judite de Boa Sorte (seu longa-metragem anterior) e o Rubens, de Aos Teus Olhos, figuras passivas diante de uma mesma doença: a punição moral por seus excessos? Os excessos de Judite eram assumidos. Os de Rubens, não. Mas o que os aproximaria? 

Carolina Jabor: "Uma das coisas que mais me interessa na ficção, cada vez mais, é tratar das relações humanas e tentar aprofundar a complexidade do ser humano. E cada um tem sua trajetória, suas dores e sua própria moral."

Omelete: O que a experiência do filme te mostrou sobre o lugar do ódio nas redes sociais? Que temores você - como artista, como internauta e como mãe - enxerga nesse culto à trollagem e ao linchamento público? 

Jabor: "Acho que são muito violentos e na maior parte das vezes, ignorantes, desinformados. Como artista acho que esses haters querem diminuir seu trabalho e minar sua força de criação, Como mãe, em um caso como o do filme, podem atrapalhar encontrarmos a verdade."

Omelete: A crítica brasileira tem elogiado, de maneira unânime, a narrativa do teu filme pela habilidade de mesclar drama e suspense em igual medida. Como foi o trabalho de edição para chegar nesse equilíbrio fino?

Jabor: "A edição do Sergio Mekler é realmente muito sofisticada. O roteiro já veio preparando esta construção. Depois, durante as filmagens os planos foram se impondo, misturando um olhar mais psicológico, mais claustrofóbico quando se tratava dos personagens, mais contemplativo, mais aberto, para falar da solidão, do não dito e, quando entramos na trama, nos ataques virtuais, esse olhar ganha um comportamento mais nervoso, mais tenso. Quando entramos na edição esse princípio seguiu e somando a isso tudo um novo olhar mais fragmentado, sem cortes obvios, passagens de cena previsíveis. Cortando tudo mais seco. Sem carinho. E além disso, Sérgio, junto com o Thiago Nassif, fizeram a trilha do filme que ajuda a dar o tom, o som e os silêncios dessa narrativa."