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Superprodução brasileira, Antártida é um bom suspense que tropeça em mosaico social

Força do elenco sustenta até mesmo quando o texto não ajuda

Omelete
3 min de leitura
16.08.2026, às 06H00.
Superprodução brasileira, Antártida é um bom suspense que tropeça em mosaico social

Antes de qualquer coisa, Antártida precisa ser reconhecido pelo que consegue fazer tecnicamente. A superprodução dos Estúdios Globo comandada por Bruno Safadi transforma um estúdio de produção virtual no Rio de Janeiro em um continente gelado convincente, e a estação da Marinha brasileira funciona de fato como um lugar inóspito na tela. Isso fica mais evidente quando o gerador que mantém o aquecimento da base quebra, e o filme consegue transmitir o desespero físico do frio extremo sem depender só de figurino ou de diálogos para isso. É um acerto que justifica o investimento: a tecnologia está a serviço da história, não o contrário.

O suspense em torno do ataque sofrido por Inês (Marina Ruy Barbosa) também é bem construído. O roteiro de Claudia Jouvin sabe dosar a desconfiança entre os moradores da base, e o filme mantém o espectador em dúvida por tempo suficiente para que o mistério funcione como mistério. O problema aparece quando Antártida tenta ser mais do que um whodunit eficiente. Ao empilhar camadas de crítica social dentro da mesma estrutura investigativa, o filme perde o fôlego que havia conquistado no primeiro ato.

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O elenco segura boa parte dessa ambição. Andrea Beltrão convence como a subcomandante Elisabeth, equilibrando autoridade e vulnerabilidade sem forçar a mão, e Leandra Leal entrega uma das atuações mais consistentes do filme, mesmo lidando com um dos arcos mais difíceis da trama. É uma pena que o texto nem sempre esteja à altura do elenco. Há frases de efeito demais e diálogos que soam batidos em momentos que pediam mais sutileza, como se o filme não confiasse no que já estava sendo dito pela imagem e pela atuação.

É nos detalhes que Antártida mostra que sabe lidar com nuances, mesmo quando a estrutura geral do roteiro tropeça. O filme constrói com cuidado a sororidade entre as mulheres da base, isoladas dentro de um ambiente já duplamente hostil, o frio extremo e o machismo estrutural das Forças Armadas. Um dos melhores momentos nesse sentido é discreto: a troca de olhares entre Andrea e Leandra durante o exame em Inês para tentar reconstituir o que aconteceu, um instante que comunica cumplicidade e apreensão sem precisar de uma linha de diálogo. Outra cena de força semelhante é a da festa, quando Inês dança bêbada sob o olhar de todos os homens da base. A câmera a transforma em presa observada por predadores, e o filme usa essa imagem para deixar claro seu argumento mais afiado: dentro dessa sociedade, qualquer homem pode ser um agressor em potencial.

Como retrato social do Brasil, Antártida acerta ao não se limitar ao machismo mais óbvio. O filme também pincela os efeitos de uma masculinidade tóxica que agride tanto mulheres quanto homens, seja na violência doméstica escondida dentro da base, seja na humilhação hierárquica sofrida por quem está mais abaixo na cadeia de comando. É um mosaico ambicioso, e que tem potencial de gerar discussões relevantes sobre estrutura de poder dentro de instituições brasileiras.

O problema é que esse mosaico nunca encontra o encaixe perfeito. Alguns temas parecem jogados na trama sem o desenvolvimento necessário para pagar o que prometem, entram e saem de cena sem o peso dramático que mereceriam. É provável que isso tenha relação direta com a origem do projeto: Antártida nasceu para ser série, foi condensado em um único longa-metragem, e essa condensação cobra seu preço. O filme tenta abraçar assuntos demais em pouco menos de duas horas, e alguns deles ficam pelo caminho.

No fim, Antártida entrega um suspense competente, tecnicamente impressionante e bem interpretado, mas que se atrapalha exatamente quando tenta ser mais ambicioso do que sua própria estrutura permite. Fica a sensação de um filme que teria se beneficiado do fôlego narrativo do formato que abandonou.

Antártida

南極物語

Ver ficha completa Lauch Icon
PG Drama, Aventura
Duração: 143 min
Direção: Koreyoshi Kurahara
Roteiro: Tatsuo Nogami, Susumu Saji, Toshirō Ishidō, Koreyoshi Kurahara
Elenco: Ken Takakura, Eiji Okada, Masako Natsume, Keiko Oginome, Takeshi Kusaka, Shigeru Kōyama, So Yamamura, Jun Etoh, Koichi Sato
Data de lançamento: 23 de julho de 1983

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