Alguma Coisa Assim revive três tempos diferentes na noite de São Paulo

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Entrevista

Alguma Coisa Assim revive três tempos diferentes na noite de São Paulo

Premiado no Festival do Rio, o longa de Mariana Bastos e Esmir Filho nasceu de um curta premiado em Cannes

Rodrigo Fonseca
24.07.2018
19h06

Cannes foi o ponto de partida para o filme Alguma Coisa Assim, que estreia quinta-feira (26). Uma experiência rara no cinema nacional, o longa-metragem de Mariana Bastos e Esmir Filho é comparado recorrentemente a Boyhood (2013). Assim como no cult de Richard Linklater,  acompanha-se mais de uma década na vida dos protagonistas, narrada pela ótica de diretores que amadureceram sua estética durante o processo. Desenvolvido a partir de um curta-metragem homônimo, que saiu da Croisette premiado em 2006, o longa acompanha três momentos essenciais da vida dos personagens Mari (Caroline Abras) e Caio (André Antunes).

Esmir e Mariana reuniram-se em 2013 com o objetivo de dar sequência à história de Caio e Mari, captando o reencontro dos personagens, vividos pelos mesmos atores, em São Paulo e, posteriormente, num novo momento, em Berlim, em 2016. O resultado dos três encontros, ao longo de uma década, é este longa, premiado com o troféu Redentor de Melhor Montagem no Festival do Rio de 2017. Alguma Coisa Assim faz um mergulho na transformação da relação entre os dois ao longo dos tempos e propõe uma reflexão sobre temas atuais, como sexualidade, rótulos, aborto e novas formas de família. A seguir, os cineastas comentam o experimento que realizaram:

Omelete: Que São Paulo está retratada neste longa e o quanto da própria memória pessoal de vocês está no projeto?
Mariana Bastos: É uma São Paulo boêmia e cheia de vida, que proporciona abertura a experiências e à diversidade, uma São Paulo em constante transformação através dos tempos. Muito da nossa memória pessoal está atrelada ao projeto, já que o universo dos personagens reflete um pouco da nossa juventude, de nossas descobertas e estilo de vida. Apesar do conflito entre os personagens ser ficcional, buscamos retratar um contexto muito familiar e íntimo da gente, de muitos jovens dessa geração.

Esmir Filho: Sinto uma São Paulo que a cada dia se transforma, muitas vezes sem que eu perceba. A Rua Augusta é símbolo da boêmia noturna dos anos 2000. Já foi inferninho de neon, depois apagada pela Lei da Cidade Limpa, foi alvo da especulação imobiliária. Mas continua ali, terra de todos e terra de ninguém, com novos bares, novas baladas. Uma ladeira do caos, viva, aberta para qualquer expressão, seja artística, cultural ou sexual. A Rua Augusta somos nós com 30 anos.

Como foi idealizado o processo de montagem do filme com a Caroline Leone?
Mariana Bastos: Costumo dizer que o processo de montagem começou já no roteiro, em que precisávamos entender o que do material dos curtas já filmados gostaríamos de usar no longa. Foi uma pré-montagem na fase de roteiro, com outra montadora que estava no início do processo, a Sabrina Wilkens. Para que as cenas novas fossem criadas, era preciso conhecer a fundo esse material antigo, entender o que precisava ser costurado e o que faltava ainda ser contado, já que nunca foi a intenção primeira do projeto, em 2006, ser um longa-metragem. Fizemos uma pré-montagem entre cenas escritas e filmadas em 2006 e 2013. Cenas que, depois da filmagem de 2016, ganharam uma segunda fase de recriação com o olhar da Caroline. Ela também é diretora e propôs uma série de mudanças significativas no que tinha sido estruturado antes. É importante ter alguém que esteja disposto a pensar "fora da caixinha", que embaralhe o material de novo e traga uma nova maneira de apresentar a história. Foi o que ela fez, é uma característica interessante da Carol. No início, dá um certo pânico, mas, em um trabalho conjunto com a direção, acaba que se encontram soluções decorrentes de ideias novas e antigas.

O que o curta-metragem original, de 2006, ainda diz PARA vocês e SOBRE vocês?
Esmir Filho:  O curta foi o início de tudo. Lembro de escrever de uma tacada só, um ano depois de sair da faculdade. Queria falar sobre a descoberta da sexualidade e sobre sentimentos escondidos através de uma relação particular, fora do padrão e sem rótulo. Acho muito importante todos os movimentos de gênero e sexualidade que estão cada vez mais fortes, afirmando representatividade e buscando direitos que devem ser de todos. Dentro disso, acho importante também retratar a complexidade dos indivíduos em particular, levantar perguntas, chacoalhar um pouco a multidão e fazer perceber que somos corpos desejantes e que repressão é retrocesso.

Qual é a dimensão plástica da saudade quando se pensa nela como cinema? Qual é o limite entre arquivo e saudade neste filme?
Mariana Bastos: Acho que saudade é muito mais presença do que ausência de algo. E que, dependendo de em quem ela mora, pode ter uma característica diferente se transformada em cinema... No nosso caso esse sentimento se fez tão evidente que serviu de motor para contar uma nova história através de imagens, momentos, lugares, personagens. O nosso encontro de 2006 - e a saudade que tínhamos dele - fez com que o transformássemos num novo projeto em 2016, registrando uma juventude e um contexto de que fizemos parte e que filmamos para nunca esquecer.

Esmir Filho:  A saudade tem grão. A saudade vibra cores de neon e sorrisos espontâneos. A saudade é uma equipe que desce em fila única no meio da faixa de mão dupla da Rua Augusta, para não ser atropelada pelos carros. A saudade é uma música que dançamos a noite inteira. A saudade é um jogo da velha, um olho extremamente maquiado, uma pergunta no ar, um último respiro antes de dormir.