Ad Astra | O público vai se frustrar se esperar 2001, diz o diretor

Créditos da imagem: Ad Astra/Twentieth Century Fox/Divulgação

Filmes

Entrevista

Ad Astra | O público vai se frustrar se esperar 2001, diz o diretor

James Gray fala sobre a recepção à sua ficção científica espacial

Marcelo Hessel
30.09.2019
16h37

A estreia de Ad Astra e as discussões em torno do novo filme do diretor James Gray estão levantando comparações com outros filmes de ficção científica espacial - dos mais místicos, como 2001 - Uma Odisseia no Espaço, aos mais aventurescos, como Gravidade. Ao Omelete, Gray comentou as comparações.

Tenho a impressão de que os fãs de viagens espaciais costumam se dividir entre os que gostam de 2001 e os que preferem Solaris. Você se considera time Stanley Kubrick ou time Andrei Tarkovski?

Hm, acho que ambos, eu gosto de ambos. Minha ficção científica preferida é 2001, mas eu me considero um grande admirador de Tarkovski. Há muita humanidade no filme [Solaris], o que eu adoro, mas gosto de 2001 pelos fluxos de lógica e pela ciência por trás de tudo. Então é difícil superar isso. Eu entendo essa pergunta porque existe um certo humanismo em Solaris, mas em termos de habilidades narrativas é duro superar Kubrick.

Eu pergunto isso porque Ad Astra parte dessa comparação com 2001 mas no fim você recusa as soluções místicas e transcendentais e talvez pegue até o caminho contrário. Você acha que as pessoas podem se frustrar por conta dessa expectativa criada na comparação com Kubrick?

Sim, claro. É claro que elas vão se frustrar. Mas eu não posso fazer um filme com base no que as pessoas esperam ou querem. Só posso fazer um filme com o que eu acho que preciso contar para as pessoas. Se eu seguir as expectativas do público eu posso até ser mais bem sucedido comercialmente ou o que seja. Mas a obra seria prejudicada porque ela seria toda sobre atender o desejo do público. Francamente eu acredito que é o seu trabalho e também o trabalho do departamento de marketing [do estúdio] enquadrar o filme para que as pessoas possam entender de que tipo é a ambição do filme. Não em relação a entregar a trama, mas enquadrar a obra para que as pessoas entendam o que vão assistir. E se elas entenderem isso, elas não vão sair decepcionadas. Agora, se vierem esperando outro tipo de filme, não há nada que eu possa fazer por elas, porque o filme não é outro. Aquele filme já foi feito, chama-se 2001, e é ótimo. Por que fazê-lo de novo?

Acho que Ad Astra é o primeiro filme que você faz onde não dá para espalhar fotos e retratos de família pelas salas de estar. A cenografia no espaço exige coisas diferentes, e eu gostaria que você comentasse um pouco sobre os desafios de pensar a decoração de set neste filme.

Essa pergunta é ótima, em relação à cenografia, porque você não quer que o filme apresente uma visão distópica do futuro. E você também não quer que seja uma utopia, porque o nosso futuro provavelmente vai ser um pouco das duas coisas. Então nós tentamos conceber como seriam os estágios diferentes dessa jornada. No primeiro estágio, a viagem comercial à Lua, nós tentamos usar como barômetro as viagens aéreas comerciais como elas existem no mundo hoje. À medida que entramos mais nas viagens pelo espaço, tentamos pensar o design de produção focado no lado prático dos equipamentos. Então os aparatos seriam mais próximos de um nível militar. No espaço, as distâncias não mudam, a ausência de aerodinâmica não muda, o foco é em materiais e máquinas que não quebrem ou fiquem redundantes. Então tentamos usar a ciência o máximo que pudemos, com a menor atenção possível para a questão estética nisso.

O longa acompanha o engenheiro espacial Roy McBride (Brad Pitt) que, 20 anos depois de seu pai (Tommy Lee Jones) ir em uma missão sem volta para Netuno, resolve fazer uma viagem pelo espaço para procurá-lo e entender por que sua missão falhou. Donald Sutherland e Liv Tyler também integram o elenco, e a produção é do brasileiro Rodrigo Teixeira (A Bruxa, Me Chame pelo Seu Nome).

Ad Astra está em cartaz nos cinemas.