Filmes

Entrevista

A Voz do Silêncio | "A solidão é protagonista desse filme", diz o diretor

Longa é sucesso de público e crítica na Argentina

Rodrigo Fonseca
02.07.2018, às 15H45

Rodado como coprodução entre Brasil e Argentina, tendo Marieta Severo à frente do elenco, A Voz do Silêncio, de André Ristum, estreou nos cinemas de Buenos Aires antes de sua chegada ao circuito nacional - prevista para o segundo semestre -, mas, por lá, sua carreira comercial vem surpreendendo exibidores: é um sucesso e público e crítica. Segundo o jornal La Nación, o filme - aclamado em sua passagem pelo Festival de Málaga, na Espanha - é “um retrato pleno de emoções e poesia das relações humanas”.

Na trama, um grupo de solitários profissionais traduzem os conflitos cotidianos de uma grande metrópole em meio a um eclipse lunar. Marieta Severo é um dos eixos centrais do longa, na pele de uma mãe com relações tortuosas com seus dois filhos, vividos por Stephanie de Jongh e Arlindo Lopes. Nascido em Londres, em 1971, e criado na Itália, Ristum vive radicado em São Paulo desde 1996, logo após ter sido um dos assistentes de direção do mito italiano Bernado Bertolucci em Beleza Roubada, e de ter trabalhado com Sylvester Stallone em Daylight. Com A Voz do Silêncio, ele alcança agora, lá fora, um prestígio que muito realizador brasileiro veterano sua a camisa para vislumbrar. Inspirado em experiências reais de vida do diretor, o longa-metragem executa uma cartografia do vazio afetivo.

Omelete: Qual é o lugar da solidão no seu cinema e neste filme?

André Ristum:  A solidão sempre esteve presente nos meus filmes, vezes mais, vezes menos, mas sempre presente. Acho que tem a ver com a minha percepção do ser humano que é na minha visão, fundamentalmente, um ser muito solitário. Com o aumento e desenvolvimento de novas tecnologias, nos últimos anos, tenho a impressão que existe hoje uma falsa sensação de estarmos juntos e compartilhando a vida de todos, mas no fundo a solidão aumenta, as pessoas ficam ali focadas em seus mundos, preocupadas apenas com o que acontece em seu pequeno universo. Talvez por essa sensação, a solidão nesse filme se tornou protagonista. É sem dúvida um dos temas mais presentes na vida de todas as pessoas retratadas e, na minha avaliação, uma questão cada vez mais séria na sociedade de hoje.

Omelete: Que papéis Marieta Severo, Stephanie de Jongh e Arlindo Lopes fazem no filme?

André Ristum:  Marieta é mãe dos irmãos interpretados por Arlindo (Alex) e Stephanie de Jongh (Raquel). O personagem da Marieta (Maria Claudia) vive uma vida muito solitária, isolada do mundo. Ela não sai de casa e tem contato apenas com sua filha, que é o elo com o mundo exterior. Essa condição não a ajuda a lidar com suas patologias, que se agravam com o passar do tempo nessa vida de solidão. Alex é um filho idealizado, que por alguma razão misteriosa, que se descobre ao longo da trama, não tem mais contatos com a mãe e a irmã, embora a mãe o considere seu filho predileto. Já Raquel cuida da mãe apesar desta não tratar ela muito bem e luta pra sobreviver e ter algum tipo de realização profissional. Mas todos estão muito sós.

Omelete: Que personagens integram o teu tango?

André Ristum: Além deste núcleo familiar temos o personagem do ator argentino Ricardo Merkin (Nestor), um avô radialista, viúvo, pai do personagem da atriz argentina Marina Glezer (Julieta), uma corretora imobiliária, e avô do personagem do menino Enzo Barone, chamado Rodrigo. Nestor vive uma vida solitária, entre o trabalho no rádio e em um bar que frequenta à noite. Ali ele aprecia os shows de Raquel como pole dance e cantora. Mas tem pouco ou nenhum contato com a filha e o neto. Julieta luta para ter sucesso como corretora, apesar da crise imobiliária na cidade. Seu filho Rodrigo é seu grande amor. Além destes dois núcleos familiares temos outros personagens que orbitam entre esses dois grupos: Carlo (Nicola Siri) dono de uma temakeria, dependente de drogas e gerente abusivo de seu restaurante; Odilon (Claudio Jaborandy), porteiro no prédio de Nestor e sushiman na temakeria de Carlo, tenta se formar na faculdade entre esses dois empregos; Luis Gustavo (Marat Descartes), um oficial de Justiça corrupto e infiel, que se aproveita de sua posição para ter algum tipo de vantagem; e sua esposa Graziela (Tassia Cabañas), uma obstinada bailarina clássica. Além deles, temos as participações especiais de Augusto Madeira, como um bispo evangélico, e Milhem Cortaz, como um médico oncologista. O meu tango é formado por esses dançarinos.

Omelete: Qual é o lugar do melodrama no cinema nacional hoje e no tipo de filme que você busca fazer?

André Ristum:  Acho que o melodrama, por um certo período, foi considerado um gênero menor dentro do cinema nacional, talvez por ter sido muito associado às novelas. Mas, na minha visão, ele passou a ter uma nova vida nos últimos anos, a partir de produções que trazem um novo olhar sobre esse gênero narrativo, trazendo histórias familiares, íntimas e pessoais, como se dava no neorrealismo italiano com, por exemplo, os filmes de Visconti ou De Sica. Eu, por ter crescido assistindo a esse tipo de cinema na minha infância e adolescência na Itália, não tinha muito como escapar desse tipo de referência. Ele está entranhado nas minhas células, embora considere que hoje o gênero ganhou uma nova roupagem. No cinema que busco, ele se mescla a uma narrativa mais naturalista, tentando encontrar um equilíbrio entre os dois.

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