Sandra Hüller: A Terra do Meu Pai mostra importância de ir contra o fascismo
Atriz alemã entrega performance aclamada em filme “biográfico” de Thomas Mann
Créditos da imagem: Sandra Hüller em A Terra do Meu Pai (Reprodução)
Um dos elementos que mais atraiu Sandra Hüller para o projeto de A Terra do Meu Pai foi como o filme mostra "pessoas corajosas de verdade" no contexto do pós-Segunda Guerra Mundal.
O longa de Paweł Pawlikowski (Ida) é inspirado em uma história real, acompanhando o escritor Thomas Mann (Hanns Zischler) e sua filha, Erika (Hüller), durante uma viagem arriscada entre a então dividida Alemanha - capitalista ao Oeste, e comunista ao Leste.
A seguir, confira trechos da coletiva de imprensa de Hüller sobre A Terra do Meu Pai, acompanhada pelo Omelete.
REPÓRTER: Eu gostaria de começar com uma pergunta bem ampla: por que uma história do pós-Segunda Guerra importa para nós hoje? O que ela diz sobre o nosso mundo?
HÜLLER: Sinto que, como a guerra e também o mundo do pós-guerra afetam nossa vida hoje, muitos conflitos no mundo estão relacionados a isso, ou têm suas origens nisso, ou foram alimentados por isso... É claro que é importante falar sobre isso hoje, para talvez encontrar outra maneira de lidar com as feridas que foram causadas, com as consequências, e encontrar outra forma de lidar com a dor, eu diria.
REPÓRTER: Quais foram os seus primeiros pensamentos, as suas primeiras ideias, quando terminou de ler o roteiro? O que você sentiu?
HÜLLER: Eu gostei, em primeiro lugar, do formato condensado em que ele se apresenta. Gostei de não usar palavras demais para descrever uma situação. Adorei o fato de haver uma corrente subterrânea acontecendo, algo que você não consegue capturar totalmente, mas todos sabiam o que era, embora não encontrássemos necessariamente palavras para isso. Adorei ser mais sobre a relação entre as pessoas e entre as pessoas e seu país ou sua origem do que uma cinebiografia. Achei uma forma muito incomum de tratar figuras históricas. O tom era excepcionalmente cristalino e claro, o humor, a maneira de mostrar pessoas corajosas de verdade... Isso foi algo que achei muito inspirador e quis fazer parte.
REPÓRTER: Há uma fala interessante no filme, tirada de um discurso de Mann: "Nós, alemães, podemos ser modelos, mas não cidadãos". Como essa fala ressoa para você? Vocês a discutiram no set?
HÜLLER: Como é uma fala dele, é responsabilidade dele falar sobre isso. Mas, em geral, acho que qualquer um pode ser um modelo. As pessoas só precisam agir com responsabilidade, então não importa de onde você vem ou qual é a sua história, você sempre pode decidir ser uma luz para os outros.
REPÓRTER: Erika é contida e séria. Você se sente confortável, ou prefere, esse tipo de personagem?
HÜLLER: Normalmente não tenho desejos para personagens, tento estar aberta às coisas que chegam até mim, e então posso decidir se tenho coragem de tentar interpretá-las. Não prefiro esse tipo de personagem; mas, neste caso, era necessário agir dessa forma. Ela teve fases muito diferentes ao longo da vida — esta é apenas uma pequena etapa. Ela foi piloto de carros de corrida, jornalista, ativista política, comediante... Ela fez muitas coisas que não eram nada contidas. Senti que toda a sua vida anterior, a abundância da vida que ela viveu, está definitivamente guardada dentro de seu corpo, e tenho a impressão de que podemos sentir isso mesmo que ela precise ser muito disciplinada naquele momento de sua vida.
REPÓRTER: Apesar de ser contida, Erika também carrega um peso, e quando se assiste ao filme pensa-se nisso o tempo todo. Como você entende as emoções da personagem? Como desenvolveu a representação dela?
HÜLLER: Acho que você colocou da maneira certa. Ela tem uma responsabilidade muito grande de fazer essa jornada funcionar, de apoiar o pai na decisão que ele tomou e, ao mesmo tempo, acaba de perder a pessoa mais querida de sua vida [o irmão, Klaus]. O filme é sobre esse conflito, e como as pessoas lidam com ele, como colocam o destino do mundo acima de seu próprio destino privado, o quão difícil isso é, e que às vezes é preciso fazer isso, mesmo que pareça inútil. Mas acho que a tentativa de fazer justiça ao país de onde vêm e tentar reunificá-lo é uma coisa linda de se fazer.
REPÓRTER: O filme retrata um mundo polarizado, no qual é virtualmente impossível não tomar um lado. Você acha que isso se conecta com a Alemanha e o mundo de hoje?
HÜLLER: É sempre possível se recusar a tudo, acho que essa é a liberdade que todos nós temos. Você não precisa fazer nada se não quiser, pelo menos é assim que imagino o mundo. Mas com os acontecimentos no meu país, para mim, pessoalmente, é muito importante me posicionar contra o fascismo de forma muito clara, contínua e incansável, até que o tenhamos derrotado.
*A Terra do Meu Pai já está em cartaz nos cinemas brasileiros.
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