De Interestelar a Batman: Como A Odisseia representa o passado e futuro de Nolan
De muitas maneiras, A Odisseia é o filme que o diretor passou a vida se preparando para fazer
Créditos da imagem: Universal Pictures
É muito fácil dizer que Christopher Nolan vinha se preparando para adaptar A Odisseia durante toda a sua carreira. A natureza axiomática desse argumento, porém, não o invalida. O poema de Homero é tão fundamental para a história ocidental de narrativas que sua influência se apresenta em diferentes graus em incontáveis obras, e não é diferente com a filmografia do diretor de O Cavaleiro das Trevas e A Origem. Direta ou indiretamente, vemos A Odisseia em vários de seus trabalhos.
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A principal característica da canção de Homero que infecta a carreira de Nolan, claro, é a estrutura cronológica não-linear. De Amnésia a Oppenheimer, Nolan frequentemente salta no tempo quando escreve seus roteiros. Começamos pelo final em A Origem; há diferentes ritmos temporais em cada um dos três capítulos de Dunkirk; Interestelar estica, dobra e perfura a quarta dimensão durante a viagem para outra galáxia. Assim vai. Homero narra a jornada de Odisseu da mesma forma, e é claro que Nolan manteve esse elemento no filme.
Christopher Nolan nos bastidores de A Odisseia.
Mas não para por aí. Podemos falar da amnésia de Odisseu para compará-lo ao personagem de Guy Ritchie em, bom, Amnésia. Podemos usar o caráter assombrado do protagonista do poema como referência para os homens complicados de Nolan, do ladrão de sonhos Cobb vivido Leonardo DiCaprio ao próprio Bruce Wayne de Christian Bale. E o que dizer da ideia de retornar para casa? É o motor de A Origem, Interestelar, Dunkirk e, em parte, de O Cavaleiro das Trevas Ressurge.
Mais do que listar ecos e entender A Odisseia como uma referência no passado de Nolan, porém, vale a pena enxergar o que essa adaptação aponta em relação a seu crescimento como artista, e o que ela representa para seu futuro.
Capaz de pintar os maiores quadros do cinema e executar sequências de ação em níveis poucas vezes vistos em filmes modernos, Nolan nem sempre é o melhor construtor de personagens. Seus grandes designs são protagonizados por homens assombrados – por suas ações, erros e histórico – que tipicamente encontram no seu ofício, justamente a ferramenta que os condenou, o único jeito de voltar para casa. Em seu primeiro filme, Following, foi agir como um stalker que alienou Cobb. Foram os sonhos que separaram o segundo Cobb criado por Nolan de sua família. Foi o espaço que tirou Cooper (Matthew McConaughey em Interestelar) de casa. Foi o Batman que afastou Bruce Wayne da normalidade. Mas é através dessas mesmas coisas que estes homens buscam a Ítaca metafórica que um dia deixaram para trás.
A complexidade com a qual Nolan imagina esses personagens, contudo, é geralmente contradita, se não anulada, pela insistência do cineasta em explicar, tintim por tintim, o que move seus filmes. Para os mecanismos dos filmes – sonhos, tempo invertido, mágica, etc – isso pode ser didático, mas ainda interessante. Para os protagonistas, é um problema maior. Apresentar uma pessoa como tão enigmática mas destrinchar cada um de seus motivos e desejos é uma contradição. Nolan desenha o labirinto, mas pinta setas apontando a saída.
Christopher Nolan nos bastidores de Batman: O Cavaleiro das Trevas.
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Tudo isso, eu acho, começou a mudar em Tenet. Seu (para mim) subestimado filme de ação e espionagem tem seus diálogos expositivos, mas também adota uma atitude representada bem por uma fala marcante: “não tente entender, só sinta.” Para evoluir como cineasta, Nolan tem, aos poucos, abraçado mais e mais essa filosofia. Em Oppenheimer, um filme sobre um cientista totalmente incongruente, ele deu novos passos nessa direção. O físico de Cillian Murphy acredita em ideais de esquerda mas entrega comunistas: quer construir a bomba mas não usá-la, sonha em ver o mundo dos átomos mas é assombrado porque este se manifesta com fogo e enxofre. Oppenheimer é um paradoxo, mas funciona justamente por ser paradoxal. Para citar Tenet novamente, Nolan passou a expressar “fé nas mecânicas do mundo,” ao invés de tentar resolvê-las.
E as mecânicas de A Odisseia são totalmente contraditórias à explicação exagerada. Afinal de contas, essa história é um poema. Uma canção. Qualquer tradução dela oferece mudanças. Qualquer adaptação toma rumos distintos. Contar A Odisseia é mudar A Odisseia, e isso só é possível porque uma canção não é algo minimamente detalhado, mas sim um esqueleto. Um ritmo para se seguir. Homero não foca suas energias na descrição. O que importa é a essência.
Em outras palavras, se Nolan tentasse enxertar justificativas demais – para Odisseu, para os deuses, para Penélope – ao cerne deste conto, ele se perderia. Se ele tentasse resolver Odisseu, um homem que pode ser enxergado como um herói de guerra e como o responsável por massacres e mortes, ele deixaria o personagem menos interessante, e por tabela, limitaria o poder do filme.
Christopher Nolan com Leonardo DiCaprio nos bastidores de A Origem.
Há várias questões neste filme que terminam, se não sem solução, com mais de uma resposta. Os feitos de Odisseu são heróicos ou danosos? A Lei de Zeus mantinha aquela sociedade em pé ou oferecia desculpas para alguns de seus piores atos? Falando nas divindades, são elas forças que buscam abençoar seus adoradores, ou seres mesquinhos e vingativos?
O Nolan de antigamente terminaria o filme de maneira binária. Ou um, ou zero. Uma coisa, ou a outra. É empolgante ver como ele se preocupa menos com isso. Se por um lado é difícil imaginar que tipo de projeto pode ser maior que A Odisseia no futuro de Nolan, por outro, essa evolução sugere que seus melhores trabalhos ainda estão por vir.
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