Bingo, de Daniel Rezende

Créditos da imagem: Bingo: O Rei das Manhãs/Divulgação

Filmes

Lista

5 filmes brasileiros para entender o Brasil

Contradições e absurdos da nossa história representadas no cinema

Natália Bridi
07.09.2019
12h29

Brasil is not for beginners” (Brasil não é para iniciantes), diz Bingo, parafraseando Tom Jobim, em uma das falas mais inspiradas do filme de Daniel RezendeBingo - O Rei das Manhãs (2017). Ao contar a história de Arlindo Barreto, ator que deu vida à primeira versão nacional de Bozo, o filme reúne alguns absurdos que compõe a cultura nacional e, a seguir, listamos mais 5 filmes brasileiros que, de alguma forma, comprovam todas as contradições que o país tem a oferecer. Atenção: essa não é uma lista sobre os melhores filmes brasileiros já feitos, a intenção é relacionar obra e contexto (histórico e de público).

Terra em Transe (1967)

Antecedendo a entrada do país nos anos de chumbo da Ditadura Militar, o filme de Glauber Rocha influenciou o movimento da Tropicália com sua mistura de referências e sons para contar a história de Eldorado, um país latino-americano governado pelo déspota Porfirio Díaz. A atuação de Paulo Autran como o ditador (veja) é um dos grandes momentos do cinema brasileiro, incorporando na sua loucura a ilusão de superioridade que domina a política do país desde a chegada da família real.

Macunaíma (1969)

Um dos retratos mais exatos das contradições do Brasil, o Macunaíma do diretor Joaquim Pedro de Andrade adapta o clássico modernista de Mário de Andrade, de 1928. A ideia original era criar um retrato do multiculturalismo do país, misturando as etnias da nação, afastando o texto do estilo português e assumindo o coloquialismo na linguagem literária. No filme, Andrade faz o retrato do “jeitinho brasileiro” com Grande Otelo e Paulo José encarnando os exageros de uma sociedade individualista, hipnotizada pela ascensão social. 

A Dama do Lotação (1978)

Mais preocupada com discursos políticos, a censura da ditadura militar aceitava com poucas restrições a pornochanchada e a sua mistura de pornô e comédia. Era um novo modelo de pão e circo, usando sexo para abafar as restrições ideológicas do país. Estrelado por Sonia Braga, A Dama do Lotação manteve por muitos anos o título de maior público do cinema brasileiro. Mais de 6,5 milhões de pessoas foram conferir a adaptação da história de Nelson Rodrigues sobre a mulher traumatizada no casamento que começa a transar com desconhecidos que encontra na lotação.

Aquarius (2016)

O filme de Kleber Mendonça Filho é exemplo tanto da vocação política e sentimental do cinema brasileiro (leia a crítica), quanto da burocracia do país. Elogiada e premiada em festivais internacionais, a história da última moradora do edifício Aquarius (Sonia Braga) levou ao questionamento sobre a seleção do representante brasileiro ao Oscar.  A escolha do drama Pequeno Segredo (leia a crítica) foi vista como represália política ao protesto de Mendonça em Cannes e levou a mudança da seleção, que agora será feita pela Academia Brasileira de Cinema (ABC).

Os Dez Mandamentos - O Filme (2016)

A versão para os cinemas da novela da Record mostra a força da temática religiosa e da linguagem televisiva com o público brasileiro. Maior público do cinema nacional (11,261 milhões de espectadores), o longa também é exemplo das incongruências religiosas do país e do mercado cinematográfico. O sucesso veio cercado de polêmicas sobre a compra de ingressos (veja aqui) e, apesar de ter o maior público, o longa não tem a maior arrecadação, que pertence a Minha Mãe é Uma Peça 2 (R$ 124 milhões e 9,3 milhões de espectadores).