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40 anos de Grease | Como um filme datado permanece tão relevante

O filme pode ter questões polêmicas, mas o seu simples relato da adolescência permanece

Julia Sabbaga
16.06.2018
10h00

Existem poucos filmes que conseguem sobreviver à passagem do tempo. Longas clássicos podem se tornar filmes de época, virar registros de uma sociedade ou simplesmente serem ultrapassados, e isto é muito comum quando se fala em filmes de adolescência. Avanços tecnológicos ou frequentes mudanças no entendimento da sociedade fazem com que histórias que uma vez representaram um grupo rapidamente se tornem obsoletas. Mas 2018 está aqui e ainda celebramos os 40 anos de Grease: Nos Tempos da Brilhantina, um musical, de adolescente, que traz um retrato um tanto característico da juventude de 1958.

Paramount Pictures/Divulgação

Até hoje, Grease é introduzido em escolas, discutido em aulas, e ultrapassou o status de clássico de musicais para a lista de essenciais na filmografia de qualquer fã do cinema. Mas como uma história escrita em 1971, adaptada em 78, sobre a juventude dos anos 50, pode continuar tão relevante até hoje?

A comédia romântica musical tem uma premissa simples; garoto e garota – no caso Danny (John Travolta) e Sandy (Olivia Newton John) - vivem um romance de férias e descobrem, no volta às aulas, que estão na mesma escola. Reunidos novamente, o casal lida com a popularidade de Danny e o seu medo de se assumir romântico e apaixonado pela doce Sandy, destruindo sua reputação de garanhão para os amigos. A história é mais do que comum e de imediato, familiar, tanto que High School Musical basicamente repetiu a fórmula em seu primeiro filme, 28 anos depois.

Recheado de conotações sexuais – assim como diversos filmes adolescentes da época – Grease revela uma piada escondida ou uma insinuação nova, a cada vez que é assistido. E hoje, o filme traz diversas polêmicas causadas simplesmente pela época, e o que era considerado normal em 78. Para quem lembra o arco de Sandy, não é difícil imaginar que hoje o filme seria rechaçado no mínimo pela sua conclusão; a mulher mudando de personalidade para se encaixar no modo de vida do homem. Ou pelo menos em primeira análise, esta é a imagem que Grease deixa.

Mais do que isso, a cena em que Sandy e Danny vão ao encontro no drive-in hoje faria grande parte do público se virar contra o protagonista. Os avanços de Danny vão muito além do aceitável, e ele se força tanto em cima da garota que ela o abandona no carro e deixa pra trás a aliança do relacionamento. Como se não bastasse, uma das mais clássicas canções do musical, “Summer Nights”, traz uma frase absurda: “ela tentou resistir?” (“did she put up a fight?”).

Mas 2018 está aqui, discussões de consentimento, feminismo e igualdade de gêneros nunca estiveram tão em alta, e Grease permanece o clássico, ainda adorado apesar da passagem de tempo. Existem alguns fatores que podem explicar isso.

Em primeiro lugar, está sua simplicidade. Grease parte de uma ideia tão simples que dificilmente não será relacionável; as pressões da imagem e os status dos grupos de escola sempre serão temas da cultura pop. De séries como Stranger Things e 13 Reasons Why, a filmes como A Mentira e As Vantagens de Ser Invísivel, exemplos de que os estereótipos tradicionais do colegial não são simplesmente isso não faltam. Desde 1978, a ideia dos populares, os perigosos e os nerds permanecem por aqui. Por isso, por mais que os acontecimentos do filme soem absurdos agora, eles não são lá muito distantes da realidade.

Mas escondidos no meio do arco de Sandy e Danny, existem alguns elementos de Grease que fizeram-no um filme maior. A adorada “vilã” Rizzo (Stockard Channing), que parece ter muito mais camadas do que a protagonista, é uma mulher sexualmente expressiva e independente, que passa por um arco sério de gravidez e tem uma das canções mais relevantes do musical: “There Are Worse Things I Could Do” é uma letra de auto-afirmação feminina cujo significado permanece até hoje.

Além disso, existem muitos admiradores do filme que analisam a jornada de Sandy de modo completamente diferente. A mudança da protagonista pode ter sido muito bem uma escolha consciente da transição que ela mesma estava passando. Tomando Grease como uma representação dos anos de libertação sexual da juventude, o fim dos anos 50, a mudança de Sandy pode ter sido algo natural; a ideia da “doce Sandy” era o que a sociedade gostaria que ela fosse, e a “sexy Sandy” seria sua versão mais genuína. Ainda mais, poucos se lembram que Danny tentou se encaixar nos moldes da vida Sandy ao mesmo tempo, e apareceu na cena final pronto para encarar sua gangue de amigos com uma jaqueta do grupo de esportistas da escola. Antes que Sandy aparecesse toda mudada, Danny já tinha confrontado o seu grupo com: “vocês não podem seguir um líder para o resto da vida”. Assim, quando Sandy e Danny saem voando em um carro na cena final, o casal de Grease poderia representar uma juventude pronta para se aceitar do jeito que é, despida das obrigações de seus papeis.  

Provavelmente mais do que tudo isso, Grease permanece inesquecível simplesmente por seu fator musical. A trilha sonora do filme se baseia em rockabilly e o rock tradicional dos anos 50 e 60, e traz um sentimento, desde 78 até hoje, de nostalgia imediata. O rock n’ roll continua por aqui, e o embalo do filme inteiro em faixas incríveis – desde a faixa dos créditos, “Grease”, “Summer Nights” ou a famosa “You’re The One That I Want” são canções imediatamente empolgantes, que vão demorar muito para perder o status de clássicos.

Não é à toa que High School Musical trouxe a premissa de Grease de volta. O tempo e as discussões podem (e devem) evoluir e mudar, mas existem motivos pelos quais clássicos representativos como Grease permanecem entre os maiores sucessos do cinema (Grease é até hoje o segundo musical mais bem-sucedido na bilheteria, atrás apenas do remake de A Bela e a Fera). Ele existe além de seus significados superficiais, e traz um retrato justo, apesar de simples, da geração que representa. Por isso, quarenta anos depois, continua aqui.

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