Grandes jogos te esperam!

Icone Fechar
Filmes
Notícia

Odisseia brasileira: Carlos Saldanha e Amyr Klink contam bastidores de 100 Dias

Histórica viagem de travessia a remo pelo Atlântico desafiou produção e levou oito anos para sair do papel.

Omelete
14 min de leitura
Atualizada em 21.07.2026, ÀS 09H38

100 Dias, novo filme de Carlos Saldanha, vai recontar a histórica travessia do Atlântico realizada por Amyr Klink em 1984 e promete levar às telas de cinema muito mais do que uma jornada de superação física. Ao Omelete, o diretor e o próprio navegador compartilharam os bastidores de uma produção que provou ser uma odisseia tão complexa quanto a própria viagem original.

Omelete Recomenda

Um dos fatos mais curiosos do projeto é o tempo de maturação: foram necessários cerca de oito anos entre jantares iniciais, interrupções pela pandemia da COVID-19 e desenvolvimento do roteiro até a finalização do longa. Uma ironia que a dupla não deixa de notar. "Atravessar o Atlântico foi mil vezes mais fácil, né? Porque o meu projeto eram 100 dias”, brincou Klink, que foi seguido por Carlos Saldanha: “O meu foi de 3.000 dias."

100 dias
Carlos Saldanha, Amyr Klink, Filipe Bragança e Justine Otondo / Divulgação

O processo de transpor o livro de Amyr para o cinema exigiu um equilíbrio minucioso entre o fato real e a ficção cinematográfica. Saldanha, que se apaixonou pela história ainda jovem, contou com o trabalho da roteirista Elena Soarez para focar no arco emocional do protagonista. O diretor destaca que o roteiro original continha muito mais cenas, mas que os cortes foram naturais em prol do ritmo: "A gente tentou pegar o máximo possível das coisas que mais achamos mais importantes para a dramaturgia da história que a gente queria contar".

Para dar vida a Klink, o ator Filipe Bragança precisou de desapego e versatilidade, especialmente após Amyr assistir seu trabalho na cinebiografia sobre Sidney Magal. A mudança drástica do tom expansivo do cantor para o isolamento intimista de um barco no meio do oceano surpreendeu positivamente o próprio biografado, mesmo após uma dúvida inicial. "Quando eu assisti, eu falei: 'Essa história vai dar certo'."

Inverno, Ondas e um Tanque Gigantesco em São Paulo

Se no oceano Amyr enfrentou a solidão e as correntes, nos bastidores o maior desafio técnico atendeu pelo nome de "tanque de filmagem". Construído em uma fábrica abandonada no interior de São Paulo, o complexo de efeitos exigiu soluções inteligentes da produção por limitações orçamentárias e causou bastante drama nos bastidores devido a vazamentos iniciais provocados pela força da máquina de ondas.

A dedicação de Filipe no set em meio ao frio do inverno paulista impressionou o navegador veterano. "Eu não sei se eu sobreviveria a uma outra travessia do Atlântico a remo, mas eu não sei se eu aguentaria os dias que o Filipe passou no tanque. Foram oito horas, inverno, estava frio, só de olhar eu não aguentava. Jato de água na cara, chuva, onda...", confessou Klink.

None
Divulgação

Apesar de retratar um feito único de um brasileiro, Saldanha ressalta o caráter universal de 100 Dias, comparando o potencial de identificação da obra com o sucesso recente de Ainda Estou Aqui. Para o diretor, o cinema internacional está repleto de heróis estrangeiros celebrados pelo público local, e o Brasil precisa se orgulhar de seus próprios feitos. "Temos Amyr Klink, temos uma travessia única no mundo, ninguém mais fez, entendeu? (...) Quero contar para o Brasil, principalmente, mais quero contar para o mundo também. Eles têm que saber que quem conseguiu fazer isso foi um brasileiro e foi o Amyr", conclui Saldanha.

Confira a entrevista completa:

OMELETE: Parabéns pelo painel [na Rio2C, com lançamento do trailer], foi muito divertido estar lá acompanhando vocês. A gente já publicou um trecho que vocês falam sobre o Filipe Bragança interpretar o Sidney Magal, que você [Amyr] ficou na dúvida se ele seria um bom Amyr. Mas eu queria perguntar uma coisa para vocês...

Amyr Klink: De Magal... quando eu vi, eu falei: "Essa história vai dar certo".

Carlos Saldanha: É porque a interpretação dele é muito boa. É, e ele é um camaleão, né? Porque ele tinha acabado de sair de um filme do Magal, ele cantando, aquela coisa apaixonada, aquela cantoria, para ser um filme muito mais intimista, um filme que era ele sozinho no barco. Pois é, e ele agora está fazendo novela, que ele tem que ser um cantor sertanejo também e tal. Então ele faz de tudo, polivalente, né?

OMELETE: Eu queria começar perguntando para vocês sobre a dramatização, né? Há pouco tempo, estreou uma série sobre o Brasil na Copa de 70 e o mais interessante dela é como eles conseguem misturar a dramatização com o fato real. Como é esse lado de criar essa dramatização na história real e se existe algum limite de quanto você pode criar como diretor, especialmente com o biografado tão próximo.

Carlos Saldanha: É um equilíbrio que a gente busca, né? Assim, eu tentei buscar dentro do planejamento do roteiro, da história, o máximo possível de verossimilhança com a história que eu li, o livro que eu me apaixonou quando eu li quando eu era mais jovem. E a gente trabalhou muito com a roteirista, com a Elena Soarez. Ela foi muito boa nesse processo de dividir a história dele como uma timeline, né? Que você consegue criar um arco emocional para ele, né? Então foi um trabalho muito minucioso de não só de escrever, mas como também de pesquisa. E o livro foi uma excelente referência porque o livro é muito didático, o livro é muito fácil de ler. É um livro que você começa a ler e você não quer parar de ler, entendeu? Então eu também na minha cabeça, o meu livro, que o Amyr até assinou, é cheio de anotação, é post-it por tudo o que é canto, assim, é um emaranhado de notas e puxa daqui, puxa dali, porque eu queria estudar muito essa história, né? E depois conversando com ele, a gente descobriu mais histórias que não estão no livro que ajudaram muito na dramaturgia do filme. Então isso foi imprescindível. Então, assim, eu tentei ao máximo não criar muito fora da caixinha, assim, eu criei dentro desse mundo que a gente já construiu, né? Eu tive muito cuidado com sutileza para mim. Eu não queria contar uma coisa que fosse mega só por contar. Tinha que ter uma razão.

OMELETE: Tem alguma memória que você tem do livro ou dessa época que você achava que não podia faltar no filme?

Amyr Klink: Tem várias histórias que não estão no filme, mas eu achei surpreendente foi o grau de perfeccionismo, de pesquisa, em profundidade que o Carlos imprimiu na produção do filme. Trouxeram um recorte extremamente autêntico. Não dá para colocar todas as histórias, não dá. Tem histórias terríveis, engraçadas... E eu acho que a produção fez, o Carlos fez esse recorte com extrema sensibilidade. Então eu achei muito bacana assistir o filme, eu falei: "Nossa, vai ser uma coisa chata, né? O cara sozinho, remando". E foi muito legal. Foi muito bacana.

Carlos Saldanha: É porque a gente fez, na verdade a primeira versão do roteiro tinha muito mais páginas, muito mais sequências, muito mais coisas. E todas que eu adorava, que eu fiz a lista do que dos meus momentos favoritos do livro. Mas na hora que você bota num filme, na hora que você bota na dramaturgia, algumas coisas assim não são necessárias, acaba não ficando, caem naturalmente, né? E às vezes você demora. Então tem muita história legal. Então, assim, eu acho que a gente tentou pegar o máximo possível das coisas que mais achamos mais importantes para a dramaturgia da história que a gente queria contar.

OMELETE: A gente viu no making-of, o material do making-of, vocês filmaram no mar e em estúdio. Qual que é a parte técnica mais difícil assim, não só de fazer, mas também de representar no filme?

Carlos Saldanha: O tanque. A gente... É. Porque o tanque era uma coisa meio inédita para mim, eu nunca tinha trabalhado com um tanque assim. A gente também não tem um tanque desses que você encontra em outros lugares de filmagem, né? A gente teve que construir o tanque, né? Porque não existe. Então foi um trabalho realmente técnico muito intenso de tentar replicar, né, uma coisa que é difícil, é o mar. Então a gente ao mesmo tempo fomos aprendendo, fomos também por questões financeiras também, né, de efeito, que a gente não tem o orçamento não permitia algumas coisas, algumas extravagâncias assim, então a gente foi tentar ser inteligente e econômico dentro da proposta. Mas foi um desafio incrível.

OMELETE: Foi aonde vocês construíram o tanque?

Carlos Saldanha: A gente construiu em São Paulo. É no interior de São Paulo, fora da capital. É uma fábrica da Sherwin-Williams abandonada, gigantesca fábrica. Aí depois teve um aspecto emocionante do filme, que a história é emocionante, mas eu fiquei impressionado porque aos poucos a história foi contagiando todo mundo da produção. Então o tratorista, o cara da limpeza, a menina do café, eles começaram a ler o livro, começaram a fazer camisetas, umas camisetas lindas, Amyr e Paraty.

Amyr Klink: E eu acabei ficando amigo de uns caras de produção, cenográfica e não sei o quê. E aí eles contaram: "É, você está vendo funcionando aqui agora, mas você não sabe o drama que isso foi porque eles fizeram um tanque não sei quantos milhões de litros de água e não deu certo, vazou. Vazou toda a água, perdeu não sei quanto tempo, teve que descobrir um jeito porque o movimento da máquina de fabricar onda era muito violento". Então o pessoal técnico sofreu pra caramba. E eu acabei de falar agora para o Carlos, né, eu não sei se eu sobreviveria a uma outra travessia do Atlântico a remo, mas eu não sei se eu aguentaria os dias que o Filipe passou no tanque. Foram oito horas, inverno, estava frio, só de olhar eu não aguentava. Jato de água na cara, chuva, onda... No interior de São Paulo mais frio ainda, né? E remando, né?

OMELETE: Há pouco mais de um ano a gente teve Ainda Estou Aqui que fez um sucesso no mundo inteiro porque é uma história de uma família, a história de uma mãe cuidando daqueles filhos. Então essa história vocês tentam trazer esse lado universal da superação ou da travessia não só como física, mas também mental que todo mundo, o mundo inteiro pode entender ela e não só o pessoal aqui no Brasil? As pessoas te conhecem, as pessoas já viram você no Jornal Nacional, no Fantástico.

Amyr Klink: Eu acho que eu não sou muito conhecido no Brasil. Mas, por exemplo, no ninho dos maiores navegadores do planeta, que é a Bretanha, na França, todo mundo me conhece. E eu acho que o Carlos conseguiu isso, ele conseguiu dar essa universalidade. Tanto é que conversei com a Philippine, com a Philippine, né? E ela adorou a história, né? Uma francesa que é a cara da minha mãe, fala com um sotaque muito parecido e que quis fazer parte da história, né? Então achei que ele conseguiu dar essa universalidade para uma obra de dramaturgia aplicada ao cinema.

Carlos Saldanha: E é uma história que eu acho que o que mais interessante para mim é o fato de que é uma história universal. Porque é uma história assim, calhou de ser de um brasileiro, calhou de ser de uma aventura no Atlântico que poderia ser qualquer outra pessoa, como tiveram outras pessoas que tentaram cruzar, né? Um francês, um inglês, sei lá da onde veio. Mas foi o brasileiro que conseguiu. Então é uma história brasileira, mas é uma história universal. É uma história... A gente vê tanto filmes de talvez heróis ou pessoas de outros países e todo mundo aqui vai no cinema, pô, que legal a história daquele cara, você se emociona, aplaude e tal. Cara, temos Amyr Klink, temos uma travessia única no mundo, ninguém mais fez, entendeu? Quando me botou essa história na minha mão, eu falei: "Eu quero contar essa história". Quero contar para o Brasil, principalmente, mas quero contar para o mundo também. Eles têm que saber que quem conseguiu fazer isso foi um brasileiro e foi o Amyr.

Amyr Klink: Teve um tuga que saiu de Luderitz e errou o Brasil. A costa é tão pequena, né? O Brasil é tão pequenininho. A costa é pequena, né? E aí o time que ele consegue mostrar um nível de emoção muito grande no filme porque a primeira dificuldade era me afastar da África, a segunda era não subir para o sistema do Atlântico Norte, era a partir de uma certa latitude descer para a Bahia. Seria muito mais fácil ir para o Rio Grande do Norte, Pernambuco, mas eu tinha escolhido um ponto na Bahia. Teve dois moleques da Letônia que atravessaram a remo, saíram de Luderitz também e: "Ah, o Amyr fez uma curva em direção à Bahia para a espera. Se a gente for reto para o Rio de Janeiro, a gente vai economizar mil milhas, 1.852 quilômetros". Eles vieram, deu tudo certo até dois terços. No terço final tudo ficou contra. Eles acharam que iam fazer em 72 dias, levaram 150 dias, quase morreram. E agora nesse momento está acontecendo um fato muito engraçado, tem um brasileiro que não mora no Brasil, mora na Nova Zelândia, o Rafael Correa, um cara super jovem. Ele não gosta de mídia, redes sociais, é todo discretinho. Ele ficou apaixonado pelo livro, faz palestras na Nova Zelândia sobre o meu livro. Ele fez um barquinho não igual, mas é inspirado no meu, muito bonito, muito elegante, um barquinho holandês também. E neste momento ele está hoje, ele está a 800 milhas de Santa Helena. Eu falei: "Desgraçado, o cara tem 20 e poucos anos, né? 40 anos depois. Na época não tinha GPS, AIS, Starlink, não tinha nada disso". Pô, o cara vai pulverizar o tempo que eu fiz. E hoje eu fiz o cálculo da posição dele, ele está 20 dias para trás de onde eu estava. Ainda está... Tem que remar muito, haja braço, né? Falei: "Rafael, tem que acelerar aí".

OMELETE: Aproveitando que vocês estavam falando, como é que começou a história desse filme entre vocês dois, assim? Sabe, quem te apresentou o livro? Você já conhecia o livro? E depois como é que foi a relação para criar essa história lá no início, assim, do projeto?

Carlos Saldanha: É, não, eu entrei mais ou menos no meio do projeto, mais ou menos assim, porque os acho que o Amyr e a Marina, a esposa do Amyr, eles já estavam querendo há muito tempo contar essa história, né? Então eles estavam muito empenhados em trabalhar. O Amyr conhece mais essa história... Mas eu entrei... Conta você primeiro como você começou.

Amyr Klink: É, eu casei com a Marina e ela se apaixonou pela história do livro. E ela é uma produtora de eventos, hoje ela é uma fotógrafa pelágica, fotografa o mundo inteiro. E ela falou: "Poxa, a gente tinha que fazer um filme". A gente conheceu o Breno Silveira, da Conspiração. O Breno se encantou pela ideia e aí o primeiro roteiro ele não gostou, o segundo roteiro era um roteiro de dois caras, né, um casal que brigou e ninguém gostou do roteiro e não sei o quê. De repente morre a mulher do Breno e o Breno fica viúvo. Aí ele arruma uma namorada e aí a namorada vai fazer o roteiro. Eu falei: "Não, quando começa a pôr a cunhada, a namorada, minha vizinha, não sei o quê, esse negócio não vai andar". E aí o Breno, uma lástima, faleceu. E aí a gente conheceu a Paula Cosenza. E aí a Paula começou com o projeto, aí a produtora fechou, né? Aí a gente montou a Ventre Studio com o João Moreira Salles. E a gente levou o projeto para essa nova produtora que a gente estava montando.

Carlos Saldanha: É, eu entrei antes do COVID, estava 2019, 18 eu tive um jantar com o Amyr pela primeira vez. A Paula já tinha trazido o projeto para mini. A gente teve um jantar com a Marina, o Amyr, a gente conversou muito sobre essa história. Aí a gente se empenhou muito em fazer o filme, aí teve o COVID, deu uma parada, mas depois juntou com a Ventre e aí que a gente começou a realmente... Trouxe a Elena Soarez para escrever o roteiro, a gente já tinha trabalhado com ela, eu gosto muito do trabalho dela. Então a gente começou a dissecar essa história. Dois anos depois a gente estava com o roteiro.

Amyr Klink: E aí a Cosenza contatou o Carlos, que já conhecia a história, mas se interessou por aquela ideia de transformar ela numa obra de cinema, né, de dramaturgia. Aí entra o outro problema que eu perguntei hoje no almoço: muito bem, tem a intenção, a vontade, tem o talento, a experiência — ele está baseado hoje nos Estados Unidos, fazendo filmes espetaculares. Toda a equipe de produção, fiquei sabendo com os amigos que mexem com documentários: "Pô, Amyr, tem um timinho..." — não gosto da expressão — "tem um timinho top que está envolvido". Mas aí tem: e de onde vem o dinheiro? Tem que ter o talento também para transformar isso num projeto de financiamento, de sustentabilidade econômica. E nisso acho que ela foi muito bem sucedida, todo mundo que se envolveu. E aí o negócio começou a andar. Mas mesmo com tudo favorável, dentro dos trilhos, indo para finalmente acontecer, levou quase oito anos.

OMELETE: Caramba, oito anos.

Carlos Saldanha: Só de produção a gente estava falando isso, está completando dois anos desde que a gente começou a filmar. Dois anos atrás... E dois anos antes a gente estava trabalhando no roteiro. Quatro anos antes a gente estava começando o projeto.

Amyr Klink: Falei: atravessar o Atlântico foi mil vezes mais fácil, né? Porque o meu projeto eram 100 dias.

Carlos Saldanha: O meu foi de 3.000 dias.

Comentários (0)

Os comentários são moderados e caso viole nossos Termos e Condições de uso, o comentário será excluído. A persistência na violação acarretará em um banimento da sua conta.

Escrever comentário


Ao continuar navegando, declaro que estou ciente e concordo com a nossa Política de Privacidade bem como manifesto o consentimento quanto ao fornecimento e tratamento dos dados e cookies para as finalidades ali constantes.