Filmes

Entrevista

Festival de Sundance | "Em momentos de crise, os mais pobres são mais afetados", diz diretor de Benzinho

Longa também vai para o Festival de Roterdã

Rodrigo Fonseca
18.01.2018
16h55
Atualizada em
31.01.2019
14h34
Atualizada em 31.01.2019 às 14h34

Reduto do cinema independente, o Festival de Sundance vai começar à moda brasileira este ano: nesta quinta (18), o filme carioca (com algum DNA uruguaio) Benzinho, de Gustavo Pizzi, será uma das atrações iniciais do evento. Adriana Esteves, Otávio Muller e César Troncoso estão na trama centrada em conflitos familiares. Até o dia 28, data de seu encerramento, o festival leva ainda a Park City, em Utah, outro longa nacional: Ferrugem, de Aly Muritiba.

YouTube/Reprodução

Filmado entre Araruama e Petrópolis com um orçamento de R$ 3,9 milhões, Benzinho sai de Sundance diretamente para a Holanda, para integrar o Festival de Roterdã, que está agendado de 24 de janeiro a 4 de fevereiro. Escrito pelo cineasta em parceria com sua ex-mulher, a atriz Karine Telles, a produção, que conta com gêmeos da dupla no elenco, entrou na mostra Voices do evento holandês. Já no festival indie dos EUA, eles disputam a World Cinema Competition.

Elaborado em corpodução com o Uruguai, Benzinho segue as inquietações afetivas de Irene (Karine Teles), que mora com o marido Klaus (Otávio Müller) e seus quatro filhos. Ela está terminando os estudos enquanto se desdobra para complementar a renda da casa e ajudar a irmã Sônia (Adriana Esteves). Mas quando seu primogênito Fernando (Konstantinos Sarris) é convidado para jogar handebol na Alemanha, ela terá poucos dias para superar a ansiedade e ganhar forças antes de soltar seu filho no mundo.

Ns entrevista a seguir, Pizzi, que foi premiado no Brasil e no exterior por Riscado (2010), fala de suas personagens e do exercício estético de filmar em família.

Omelete: Seu primeiro longa de ficção, Riscado, era sobre resistência e sobre perseverança, na ótica de uma atriz. Como esses dois elementos se aplicam a Benzinho?

Guatavo Pizzi:  Em Benzinho, nós temos uma familia de classe média baixa, que luta diariamente pra ter uma vida digna, apesar de todas as difiiculdades. Irene acabou de se formar no supletivo, é uma vendedora autonoma, mas busca um emprego com carteira assinada. Seu marido Klaus tem um pequeno negócio que está falindo. Eles têm 4 filhos, a casa deles está literalmente caindo eles precisam se mudar para a casa que, há anos, estão tentado terminar, no mesmo terreno da casa que moram atualmente. São pessoas, assim como a Bianca de Riscado, com nehuma assistência do Estado, desamparados de uma estrutura familiar que possa dar alguma ajuda financeira. Precisam ser muito fortes para continuar seguindo suas vidas a cada dia.
Em momentos de crises do sistema capitalista, as pessoas mais pobres são sempre as mais afetadas. As oportunidades não são iguais para todos, mas mesmo assim a grande maioria dá um jeito de seguir com suas vidas de maneira digna. Em ambos os filme, apesar de tudo, tem esperaça e alegria.

Omelete: O que aflige as mães do filme?

Guatavo Pizzi:  As mães do flme têm problemas semelhantes e distintos ao mesmo tempo. Irene passa por um desses momentos na vida onde tudo acontece ao mesmo tempo. Está se formando tardiamente no supletivo do segundo grau, está buscando um trabalho novo, precisa vender seus lençóis aos mais diversos clientes de porta em porta, tem que cuidar da casa, ajudar nas angústia do marido... e no meio disso, seu filho mais velho anuncia que tem uma grande oportunidade de ir embora de casa... aos 16 anos. E pra Alemanha. Pra ela é algo como Marte. É um lugar muito distante que ela provavelmente nuca vai conhecer. E seu filho mais velho vai começar uma nova vida.  Sônia, personagem de Adriana esteves, é irmã de Irene, sofre com um relacionamento abusivo, levando ainda mais uma questão para Irene resover. Sônia está decidida a abandonar esse relacionamento, e busca abrigo na casa da irmã, já que Alan se recusa a sair da casa dela. As duas são o tempo todo um suporte muito grande para a outra.

Omelete: Qual e como é o RJ que está em Benzinho? O quanto a paisagem urbana influi nos personagens?

Gustavo Pizzi:  Rodamos em Petrópolis e araruama. A família tem uma casa de praia em araruama, mas precisará vender pra conseguir terminar a obra da casa nova. Mas vemos no filme uma petropolis das pessoas de lá, o dia a dia distante dos pontos turísticos. Araruama faz um contraponto a isso.

Omelete: Como foi a experiência de filmar em família, com seus filhos? O que esse trabalho te ensinou sobre direção de atores

Gustavo Pizzi:  Foi difícil tomar a decisão de que eles fariam o filme. Foi um processo amadurecido por algum tempo. Mas entendemos que seria o melhor pra eles e para o filme. E hoje entendemos que de fato foi a melhor coisa a ser feita. Foi um momento especial a oportunidade de te-los no set. contribuiram muito pra todo o flme de uma maneira linda.
Dirigir atores é sempre um desafio. Acredito que cada ator deve ter uma aproximação diferente. O jeito de falar com cada ator deve ser especial para cada um sempre. E com as criancas não foi diferente. Claro que com os pequenos não dava o roteiro, mas conversava muito sobre toda a situaçao, sobre os personagens, sobre a familia. Faziamos improvisaçoes nos ensaios e conversavamos muito. Apendi muito com as crianças todas do filme.