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Entrevista

Un Couteau Dans Le Coeur | Filme sobre cena pornô gay termina em debandada de público e vaias em Cannes

Mesmo rejeitado por parte da crítica, longa pode ganhar a Queer Palm, prêmio LGBTQ

Rodrigo Fonseca
18.05.2018
07h59
Atualizada em
29.06.2018
02h37
Atualizada em 29.06.2018 às 02h37

Muitos dos 21 concorrentes à Palma de Ouro de 2018 desapontaram crítica e público, mas poucas sessões, mesmo a dos longas-metragens mais controversos, tiveram rejeição similar a que Un Couteau Dans Le Coeur recebeu, com direito a debandada e vaias. Chamada de Knife + Heart em inglês, a produção francesa, sobre a cena pornô gay da Paris dos anos 1970, caiu na antipatia do povo por soar sensacionalista e pedante, ao embarcar em uma elocubração filosófica sobre o desejo. Apesar disso e das vaias, o longa-metragem dirigido por Yann Gonzalez se impõe como favorito a uma categoria militante do festival: a Queer Palm, láurea LGBTQ.

Entre os sites e jornais europeus orientados por temáticas LGBT, o trabalho de Yann - explícito, mas ainda assim emotivo - desafia tabus e celebra uma ala da cultura cinematográfica sempre tratada de modo caricata: a seara pornográfica. Na trama, Vanessa Paradis (uma cantora famosa, com sazonal experiência como atriz) vive uma produtora de filmes adultos de meninos com meninos. Ela anda em crise pelo alcoolismo e pelo término de seu romance com a montadora de seus longas (Kate Moran). Em meio aos conflitos internos, ela descobre que um assassino mascarado está matando seus atores e seus amigos. O clima dessa história evoca cults de Brian De Palma (Vestida Para Matar, sobretudo) e de Dario Argento (Suspiria).

Depois de Un Couteau Dans Le Coeur, Cannes foi correr uma maratona em prol da dignidade acompanhando a personagem-título de Ayka, penúltimo dos concorrentes à Palma de 2018, vindo de uma Rússia onde neva sem parar. Sergey Dvortsevoy assina a direção, engenhosa em seus movimentos de câmera, mas estéril em termos poéticos ao acompanhar o calvário da paupérrima jovem Ayka (Samal Yesyamova) para quitar seus débitos e arrumar algum trocado para comer. É uma dramaturgia naturalista, focada na perseverança.

À noite, será projetada a última das produções em concurso: o drama Wild Pear Tree, do turco Nuri Bilge Ceylan, um dos queridinhos da Croisette, que levou Palma em 2014 por Sono de Inverno. As entrevistas agendadas para seu novo trabalho - sobre um aspirante a escritor às voltas com débitos de seu pai - foram todas canceladas. O festival termina neste sábado, com a entrega de prêmios e a projeção do esperado The Man Who Killed Don Quixote, de Terry Gilliam, com Adam Driver.