Lili Gladstone e Leonardo DiCaprio em Killers of the Flower Moon (Reprodução)

Créditos da imagem: Lili Gladstone e Leonardo DiCaprio em Killers of the Flower Moon (Reprodução)

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Killers of the Flower Moon | Aos 80, Martin Scorsese faz um faroeste de 2023

Com Leonardo DiCaprio e Robert De Niro em grande forma, filme coloca indígenas no centro da história

Omelete
4 min de leitura
21.05.2023, às 14H11

Martin Scorsese, Robert De Niro e até Leonardo DiCaprio não precisam provar mais nada para ninguém. Mas que alegria ver que o primeiro projeto reunindo um dos grandes cineastas em atividade e seus dois atores favoritos vai ser incluído na lista dos melhores trabalhos de cada um deles. Killers of the FlowerMoon foi exibido na noite do sábado (20), fora de competição, no 76º Festival de Cannes. A empolgação era evidente na única sessão de imprensa, que gerou uma fila duas horas antes do horário marcado para a exibição. A Apple TV+, que produziu o longa-metragem com orçamento estimado em US$ 200 milhões, e a Paramount, que distribui o filme nos cinemas, têm uma obra que com certeza vai chegar ao Oscar e outras premiações. 

O diretor, que está com 80 anos de idade, cresceu assistindo a westerns, mas nunca tinha feito um. Enxergou a oportunidade perfeita quando DiCaprio comprou os direitos do livro-reportagem de David Grann. Scorsese poderia ter filmado à maneira dos grandes mestres do gênero, autores de obras-primas que muitas vezes têm uma visão datada sobre a expansão para o Oeste – ou seja, indígenas eram os vilões, e os brancos, os mocinhos, ou os salvadores da pátria. 

E, durante algum tempo, o roteiro de Killers teve um agente do FBI branco como protagonista. Scorsese e DiCaprio perceberam que era preciso mudar e fizeram um faroeste mostrando o contrário, que os indígenas são as vítimas. Deram a eles o protagonismo que lhes foi negado pela história contada pelos homens brancos e pelo mito construído pelo cinema do Velho Oeste e da fundação dos Estados Unidos. 

O filme começa com um ritual: o povo Osage, que foi forçado a deixar suas terras ancestrais e realocado em Oklahoma, um lugar considerado estéril, enterra um cachimbo sagrado e, com ele, sua cultura e língua. “Agora, nossas crianças aprenderão com os brancos”, diz o líder espiritual. No processo de cavar a terra, eles descobrem petróleo. Os Osage tornam-se o povo com maior renda per capita dos Estados Unidos. As próximas gerações vão estudar em universidades e comprar os primeiros automóveis. 

Além do apagamento da cultura, da língua e do sangue, há um apagamento literal acometendo o povo Osage, vítima de uma estranha epidemia de mortes misteriosas e assassinatos nunca investigados. Porque os brancos não vão aceitar esse protagonismo indígena facilmente – e o filme relaciona os Osage com a carnificina em que pessoas pretas afluentes foram dizimadas, inclusive com uso de aviões, em Tulsa, no mesmo Estado de Oklahoma. Não há coincidências aqui. O longa-metragem, ao contrário dos faroestes de antigamente, mostra que os Estados Unidos têm suas fundações firmes no supremacismo branco, na ganância, na violência que dizimou indígenas e negros. 

São brancos sem nada de especial, como Ernest Burkhart (Leonardo DiCaprio), um veterano da Primeira Guerra Mundial que chega à cidade de Fairfax para recomeçar a vida sob as asas de seu tio, o carismático e poderoso William Hale (Robert De Niro). A maioria dos indígenas precisa de guardiões – brancos, lógico – para administrar seu dinheiro e seus bens. Fora isso, muitas das mulheres Osage com títulos de terra casam-se com homens brancos. E quase nunca é por amor, quase sempre é só cilada. A relação de Ernest e Mollie Burhart (Lily Gladstone, excelente) é um pouco mais complexa, porém. Ela não é boba. Ele é burro e ignorante, facilmente manipulável – o que não o isenta de nada.

DiCaprio está em um de seus melhores papéis, se não o melhor. Ernest é um sujeito ambíguo, que se deixa manipular sem questionamentos. De Niro volta a ser o grande De Niro, escondendo a disposição real de seu personagem sob uma fachada de puro carisma. E Lily Gladstone, que trabalhou com Kelly Reichardt em Certas Mulheres (2016) e First Cow – A Primeira Vaca da América (2020), agarra sua chance de brilhar aqui.

Scorsese sempre se mostrou interessado em discutir a violência, a neurose e a ganância desmedida que são centrais no entendimento de seu país. Killers of the Flower Moon é seu faroeste, mas, sendo uma obra de Martin Scorsese, também é um filme de gângster. Há quem vá apontar que os indígenas não são os reais protagonistas, e sim Ernest e William. E é verdade. Mas a história dos Osage está contada respeitosamente, seus mitos estão na tela. Sendo um cineasta branco, que sempre falou sobre os “bad guys”, Scorsese faz o que sempre fez, deixando bem claro quem são os vilões dessa história. 

E que maravilha é ver um cineasta de 80 anos de idade sem medo de repensar os conceitos que recebeu em sua infância e juventude da sociedade e do cinema que tanto ama. É uma lição e tanto para quem se recusa a fazer o mesmo.

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