Crimes of the Future

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David Cronenberg volta a Cannes com body horror suave de Crimes of the Future

Estrelado por Viggo Mortensen e Kristen Stewart, longa do diretor canadense disputa a Palma de Ouro em Cannes

Omelete
3 min de leitura
Mariane Morisawa
24.05.2022, às 09H44
ATUALIZADA EM 24.05.2022, ÀS 11H15
ATUALIZADA EM 24.05.2022, ÀS 11H15

Fazia oito anos que David Cronenberg não estreava um filme. O último, Mapas para as Estrelas, com Robert Pattinson, participou da competição em Cannes em 2014, rendendo o prêmio de melhor atriz para Julianne MooreO novo trabalho do canadense, Crimes of the Future (Crimes do Futuro, na tradução livre), exibido na noite da segunda (23) na disputa pela Palma de Ouro, é um retorno a seus trabalhos mais antigos, como A Mosca (1986) e Crash – Estranhos Prazeres (1996), que discutem o corpo e a interação dos humanos com a tecnologia. A expectativa, portanto, era enorme, pois o diretor de 79 anos, que acabou de criar NFT com as pedras retiradas de seus rins e desfilou no tapete vermelho com óculos futuristas, prometia fazer muita gente virar o rosto em cenas de peles, carnes, vísceras. 

Cronenberg repete a parceria com Viggo Mortensen, com quem trabalhou em Marcas da Violência (2005), Senhores do Crime (2007) e Um Método Perigoso (2011). O ator interpreta Saul Tenser, um artista que mostra as mudanças que acontecem em seu corpo – ele tende a desenvolver órgãos novos, que são retirados por sua parceira Caprice (Léa Seydoux) em performances ao vivo. 

Estamos em um futuro inespecífico, pós-apocalíptico, em que os sobreviventes enfrentam mudanças corporais espontâneas, que aceitam ou não. Tenser e Caprice veem as novas adições como tumores que precisam ser removidos. Há um grupo liderado por Lang Dotrice (Scott Speedman) que quer as mudanças adotadas com orgulho. 

Os artistas ainda topam com uma dupla de burocratas, Wippet (Don McKellar) e Timlin (Kristen Stewart), que fazem o registro de obras de arte corporais e são fãs da dupla. Enquanto isso, o Detetive Cope (Welket Bungué, do filme Joaquim, de Marcelo Gomes) tenta manter a ordem nesse novo mundo em que a dor e as infecções deixaram de existir. 

As lâminas que entram no corpo de Tenser nas performances ou de Caprice na vida particular do duo são obviamente paralelos ao ato sexual. É a estranha Timlin, uma personagem eternamente nervosa, quem pergunta, sem pudores: A cirurgia é o novo sexo?

O elenco é a âncora necessária para aproximar a trama de dilemas que já enfrentamos ou podemos enfrentar em breve, por mais malucos que pareçam. Mortensen é um ator discreto e de muita amplitude, e Stewart demonstra de novo que todos os memes dando a entender que não é boa atriz são no mínimo injustos. 

Crimes of the Future discute os limites do corpo humano, nossa relação cada vez mais próxima com a tecnologia, a criação de novas formas de fazer sexo, a aceitação do que é diferente, o papel da arte. São muitos temas. É um filme cerebral, como costuma ser a obra do diretor, com sacadas espertas que provocam a vontade de soltar um “rá”. 

Cronenberg tem muito domínio na criação da atmosfera, no estabelecimento do universo, começando com uma cena forte envolvendo uma mãe e seu filho, capaz de digerir plástico. Mas Crimes of the Future deixa a impressão de que poderia ser uma primeira parte de uma série de filmes, ou pelo menos de uma dupla de longas. Trata-se de um Cronenberg suave, perto do que ele já mostrou no passado. Há cenas de nudez – feminina, só – e de cortes, sangue e vísceras, mas a forma como foram filmadas é clínica. A promessa de que o longa provocaria desmaios e saídas das salas não se confirmou, pelo menos não muito explicitamente. 

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