Emmy “surpresa” coroa talento absurdo, mas subestimado, de Julianne Nicholson

Créditos da imagem: Julianne Nicholson em Mare of Eastown (Reprodução)

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Emmy “surpresa” coroa talento absurdo, mas subestimado, de Julianne Nicholson

Superando favorita Kathryn Hahn, de WandaVision, atriz de Mare of Easttown prova que chegou sua hora

Caio Coletti
21.09.2021
10h57
Atualizada em
21.09.2021
17h08
Atualizada em 21.09.2021 às 17h08

Sou das antigas”, disse Julianne Nicholson ao subir no palco do Emmy 2021 e mostrar o seu papelzinho dobrado com o discurso pré-preparado. A americana de Medford, no Massachusetts, deixou o texto pronto por uma abundância de cautela - chegando à noite do Emmy, sua performance em Mare of Easttown não era a favorita para vencer a categoria de melhor atriz coadjuvante em minissérie ou telefilme, especialmente diante da Agatha Harkness de Kathryn Hahn em WandaVision. Bom, ainda bem que “deu zebra”.

Nicholson está na ativa desde o final dos anos 1990, mas a primeira vez que eu a vi em cena para valer foi em Masters of Sex, drama de época que abordava a vida e o affair entre os pioneiros sexólogos William Masters (Michael Sheen) e Virginia Johnson (Lizzy Caplan). Em meio a um elenco brilhante, Nicholson roubou as duas primeiras temporadas da série para si como a Dra. Lillian DePaul, obstetra que trabalha com Virginia e a ajuda a formar a consciência social e política que marcaria o restante da carreira dela.

Lillian era uma personagem cheia de demônios, da aceitação de sua sexualidade ao machismo enfrentado em sua área, passando pelo diagnóstico de câncer que a tirou precocemente da narrativa. Foi Nicholson, no entanto, que a fez reverberar pelo restante de Masters (parcialmente disponível para streaming no Brasil pelo Globoplay), construindo uma mulher de quieta fragilidade, enterrada por baixo de uma dureza construída da forma mais difícil - através de experiências que a ensinaram a ser dura. 

Julianne Nicholson e Lizzy Caplan em Masters of Sex (Reprodução)

Não é tão diferente da Lori de Mare of Easttown, né? Embora Kate Winslet esteja espetacular até os últimos segundos como a protagonista, impossível negar que o finale da minissérie, “Sacrament”, é todo de Nicholson. Ela expressa o exaspero, o desamparo e a fúria de uma mulher que vê a família ruir após um período de tensão insuportável em que tentou mantê-la de pé contra todas as probabilidades - e é uma performance à flor da pele, que não tem medo da lágrima, da careta, da caricatura, porque sabe que construiu uma base sólida na qual projetar essa catarse.

Esse é o modus operandi da atriz também em outros projetos, como a minissérie The Outsider (disponível na HBO Max), adaptação de Stephen King em que Nicholson vive outra mãe de família alvejada pelo luto. E ela tampouco é novata em (quase) ofuscar colegas de elenco mais famosas, visto que passou perto de “engolir” Meryl Streep e Julia Roberts ao entregar a performance mais humana e sutil de Álbum de Família.

Em seu discurso no Emmy, Nicholson escancarou esse apreço por interpretar mulheres cujas dores existem, borbulham, e eventualmente explodem, abaixo da superfície do que a sociedade julga ser “importante” no dia a dia: “Eu devo isso aqui a todas as mulheres - na Philadelphia, no Cabo, no Texas, ou em qualquer outro lugar - que estão se esforçando, e às vezes percebem que ser feliz é difícil, que a vida é um pouco demais para suportar… Mas elas nunca param, nunca perdem a esperança, e nunca desistem”.

Julianne Nicholson, Meryl Streep e Margo Martindale em cena de Álbum de Família (Reprodução)

Outros projetos que valem a pena conferir da já extensa filmografia da americana incluem: Tully (2000), seu primeiro grande papel, que lhe rendeu indicação ao Independent Spirit Awards; Kinsey (2004), biografia do famoso sexólogo americano; Monos (2019), produção colombiana inspirada no clássico O Senhor das Moscas; e séries como The Red Road, Eyewitness e Boardwalk Empire.

O futuro de Nicholson, enquanto isso, também se mostra promissor. O projeto mais imediato na agenda é Blonde, filme biográfico de Marilyn Monroe na Netflix, em que a atriz vai interpretar Gladys, a mãe da lendária estrela de cinema (a ser vivida por Ana de Armas). Gladys foi uma mulher complicada, que convivia com a esquizofrenia e passou boa parte de sua vida em hospitais psiquiátricos, tendo pouco contato com a filha depois de sua primeira infância - o trauma de uma criação instável foi crucial para a construção da psique de Marilyn. 

É um papel decisivo e complexo, que (com a campanha certa) tem cheiro de Oscar. É, talvez seja melhor Julianne Nicholson preparar mais alguns discursos - a sua era de merecido reconhecimento parece estar só começando.

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