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Crítica

Crítica: Adrenalina 2 - Alta Voltagem

Chev Chelios ganha vida extra e Neveldine e Taylor aprofundam sua relação de ironia com os games

Marcelo Hessel
20.01.2010
00h00
Atualizada em
21.09.2014
13h57
Atualizada em 21.09.2014 às 13h57

É a lógica dos videogames que rege os filmes dirigidos pela dupla Mark Neveldine e Brian Taylor. Em Adrenalina 2 - Alta Voltagem, mais até do que em Gamer.

Em um, Gerard Butler está literalmente dentro de um jogo, mas antes disso ele tem uma consciência - existe fora da máquina, a questiona e luta para sair de lá. Já no outro, Jason Statham não sabe que está, estruturalmente, preso a uma típica narrativa de game. Chev Chelios não existiria sem ela, nem o próprio filme.

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A começar pela premissa. Foi nada menos do que uma vida extra que Chelios ganhou quando, no final do primeiro filme, caiu de um helicóptero de cara no asfalto. Isso só para ver, no início de Adrenalina 2, o seu coração (esse símbolo da saúde de um personagem nos videogames dos anos 80) roubado pela máfia chinesa.

Do local da cirurgia, Chelios já sai metralhando capangas que aparecem do nada, mal sabe-se de que gangue são. Como num bom e velho jogo de briga de rua, estilo plataforma, não há o que contextualizar: mocinho e bandidos nunca se viram mas se reconhecem na hora, mesmo à distância.

As relacões continuam. Antes o herói precisava de doses de adrenalina para permanecer vivo, agora são descargas de eletricidade. De qualquer forma, essas sobrevidas têm na trama uma mesma função, similar à dos save points nos games: demarcar os trechos mais pesados de ação com que a trama se desenrola.

A recarga não é, exatamente, um respiro na narrativa. Repare como as pausas para tomar fôlego quase sempre se ocupam de coadjuvantes (a namorada, o enfermeiro na terapia) ou de saltos temporais (Chelios moleque). Já o protagonista, no presente, não pode parar nunca, o jogo tem que continuar.

Daria pra traçar outros paralelos entre as duas mídias, mas aí já entramos no terreno dos spoilers. Digamos, apenas, que os "chefes de fase" se enfileiram no filme seguindo a cartilha clássica. De resto, sobram referências: Mortal Kombat, visual granulado oitentista nos créditos iniciais, Chev jovem se dizendo viciado em videogame etc.

Se a opção por traduzir em dramaturgia um universo de games fecha as possíveis saídas do cinema da dupla (precisava, por exemplo, colocar Chelios imitando o Tony Hawk?), eles sabem como abrir espaços. Especificamente, derrubando a quarta parede - o obstáculo, saído da teoria teatral, primo da suspensão de descrença, que separa virtualmente a platéia do palco.

Tourette de corpo inteiro

Neveldine e Taylor burlam a quarta parede via ironia e metalinguagem. A começar com o âncora de telejornal que diz ser "bullshit" essa história de um cara cair de um helicóptero e não morrer. É brilhante o momento, logo no início do filme, em que a trilha sonora começa a se instalar, e do nada Chelios assobia o tema musical. Se ninguém vai levar Adrenalina 2 a sério mesmo, porque não abraçar logo a farsa, não é verdade?

Como equilíbrio não é o forte da dupla, e o fôlego do filme vai mesmo acabando com o tempo (a harmonia rítmica de corte e sonoplastia do começo não aguenta até o final, infelizmente), a interação com o público transita no sofisticado (o assobio no começo), passando pelo absurdo (casal transa na posição do carrinho de mão e depois aparece um cara com um carrinho de mão de fato) até desembocar no infantil (o dedo do meio à la Mark Millar no final).

Quando a ironia farsesca engasga, sempre há a metalinguagem. E aí é jogar para a torcida: fazer de David Carradine um chinês para zoar o mestre do kung fu, ressuscitar o astro oitentista Corey Haim, meter a música de blaxploitation quando a negrona sai à rua, brincar até de tokusatsu (aliás, numa cena que volta a jogar com ideias de videogames, já que na usina de força lutam os personagens projetados, como avatares).

É possível dizer que o cinema da dupla é juvenil demais, sem noção demais, full body tourette. Qualquer roteirista que faz um trocadilho de "cantonês" com o intraduzível "cuntonese" está mesmo operando no limite. Só não dá pra falar que Neveldine e Taylor não refletem sobre o que fazem. Qualquer um que tire sarro da mania que os filmes de ação, à la Michael Bay, têm de trocar de cenário sem se preocupar com a geografia do lugar (a cena impagável dos "9 segundos depois" na transição do parque à rua) sabe muito como funcionam os clichês do gênero, do cinema, dos games - e como ridicularizá-los.

Assista a clipes do filme

Nota do Crítico
Bom