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Crítica

Crítica: A Invasora

O terror gore que colocou os franceses Julien Maury e Alexandre Bustillo na mira de Hollywood

Marcelo Hessel
03.02.2010
23h00
Atualizada em
21.09.2014
13h58
Atualizada em 21.09.2014 às 13h58

Ao longo de 2007 e 2008, a Dimension Films - divisão especializada em terror dentro da Weinstein Company - tentou levar para Hollywood os roteiristas e diretores Alexandre Bustillo e Julien Maury. Deu à dupla francesa o novo Hellraiser, depois um Halloween, mas nenhum dos dois projetos emplacou.

Não que Bustillo e Maury sejam talentos isolados. Nos últimos anos floresceu na França, na Bélgica e na Espanha um cinema de terror de veia gore - filmes como Haute Tension, Martyrs, Vinyan e Frontière(s). Outros nomes, como Pascal Laugier, também têm sido convidados a trabalhar nos EUA. Em entrevista ao The Wall Street Journal, em agosto do ano passado, o belga Fabrice Du Wetz disse que "estamos todos recebendo os mesmos roteiros" vindos de Hollywood.

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O que tanto interessa, portanto, neste cinema de gênero europeu a ponto de a Dimension negociar com cineastas de baciada? O primeiro e até agora único filme de Bustillo e Maury, À L'Intérieur, lançado no Brasil direto em DVD com o título A Invasora, dá pistas para entender o fenômeno.

A principal: é o típico filme B com cara de produção barata mas suficiente criatividade para, respectivamente, conquistar o street cred dos fãs do gênero e convencer o espectador médio de que a sangueira é real. Realizado com o equivalente a 3 milhões de dólares, A Invasora visivelmente gasta metade com fluidos falsos e vísceras de plástico. Mais uma quantia para alugar a casa que serve de locação, outro tanto para montar o único cômodo dessa casa recriado em set, o banheiro.

"Aproveite a sua última noite de paz e tranquilidade." Quando o obstetra de Sarah (Alysson Paradis) diz isso para a grávida no dia anterior ao parto dela, você já imagina que será uma madrugada tensa. Sarah sobrevivera, quatro meses antes, a um acidente de carro que tirou a vida de seu marido. O trauma visivelmente não foi superado - é o que basta saber da trama.

Da tradição europeia, Maury e Bustillo conservam o apego por planos longos e menos cortes (conseguir identificar o que acontece em cena não tem preço) e a economia na hora de dar informações sobre os protagonistas. O essencial para entender Sarah é dado em pouco mais de dez minutos. Compreendemos, antes de qualquer coisa, que o trauma existe porque ela ainda não deu um nome para o bebê... Com 15 minutos o filme se fecha na casa da grávida e instala-se o suspense - que vai durar até o final dos 83 minutos, duração da versão sem cortes que a Califórnia Filmes lançou por aqui.

Outro elemento que diferencia A Invasora de todos os enlatados produzidos na Dimension é a confiança no clima, não no susto. O cenário é iluminado como se a eletricidade da casa estivesse a meia carga. Há luz indireta em todo canto, mas parece que as lâmpadas vão fraquejar a qualquer momento. O espectador aguarda pelo impacto, que não vem. Quando o vulto negro da morte surge dentro da casa pela primeira vez, avança devagar e, pior, sem pressa.

Como o pavor se instala sem sustos no filme, dá a entender que pode, talvez, ter algo de ilusório. A Invasora se confunde com thriller de alucinação, daqueles em que nada é o que parece, até os primeiros 30 minutos - o trecho mais promissor. A partir daí, como Maury e Bustillo têm um fetiche por gore a satisfazer, a sugestão de morte dá lugar à carne viva mesmo.

E se o filme ganha em catarse perde por aderir às convenções do terror-de-contagem-de-corpos: coadjuvantes aparecem do nada e o naturalismo começa a ser vencido pela inverossimilhança.

O saldo, contudo, é positivo. Maury e Bustillo dominam o espaço de cena, entendem do que é feita uma atmosfera de sadismo e têm timing ideal para criá-la. O problema é que a transição para Hollywood é problemática justamente nesses quesitos. O filme de terror made in USA anula o espaço de cena em nome da velocidade da ação e confunde criação de expectativa com desenvolvimento frágil, redundante de personagens.

Se a migração da dupla se concretizar - em abril passado eles anunciaram seu primeiro longa em inglês, Livid, mas o lançamento prometido para o fim de 2009 não aconteceu - não será fácil manter-lhes a autenticidade.

Nota do Crítico
Ótimo