DVD e Blu-ray

Crítica

Alien Anthology | Crítica

Quadrilogia chega impecável à alta definição, mas tenta organizar um volume de extras que começa a esmaecer

Marcelo Hessel
21.12.2010
01h51
Atualizada em
03.11.2016
00h08
Atualizada em 03.11.2016 às 00h08

A 20th Century Fox sempre soube lucrar com suas caixas da franquia Alien, desde o efêmero tempo do Laserdisc, passando pelo box em formato de Facehugger de VHSs dos três primeiros filmes, pela primeira compilação em DVD (Alien Legacy, em 1999), até as "versões do diretor" dos quatro filmes encomendadas em 2003 para a hoje clássica caixa de DVDs Alien Quadrilogy.

Essa sobreposição de produtos pode incomodar o fã que se vê forçado a comprar todos, mas o fato é que, a cada relançamento, a documentação em torno de Alien cresce consideravelmente. As mesmas pessoas são entrevistadas ao longo dos anos - e não é raro vê-las entrando em contradição, repensando posições ou traindo-se nas entrelinhas. Mais importante: as remasterizações dos filmes não os deixam envelhecer, esteticamente.

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O que nos traz a Alien Anthology, a quadrilogia em seis Blu-rays. É mais uma caixa de Alien, mas o acúmulo de material (o grosso é o mesmo do box de 2003) transforma sua seção de extras numa fonte mais extensa do que o normal de curiosidades sobre a franquia. E o refinamento constante que Ridley Scott dava à imagem e ao som do filme de 1979 nos DVDs alcança com o Blu-ray o seu ápice.

Alien - O Oitavo Passageiro tem a melhor transição de 35mm para digital em alta definição que eu já vi. A imagem não fica lavada; toda a granulação da película está intacta. Ainda assim, o Blu-ray é límpido. Comparando com a conversão de Alien: A Ressurreição (1997), por exemplo, O Oitavo Passageiro parece ter sido filmado mais recentemente, tamanha essa limpidez da imagem.

A alta definição ressalta o aspecto mais importante de qualquer Alien, o trabalho de luz e sombra em corredores estreitos. Ridley Scott e James Cameron são os que mais trabalham com contraluz (Scott com focos menores, e Cameron, no Aliens, o Resgate de 1986, com variedade de cores bem maior), já Jean-Pierre Jeunet, diretor do filme de 1997, iluminou todos os corredores de uma só vez e abriu mão da luz modulada (o que combina com a sua disposição de transformar criatura e personagens em um freak show).

No meio do caminho fica Alien 3 (1992), de David Fincher, o objeto mais estranho da quadrilogia e, por isso mesmo, aquele que ainda dá mais margem a reflexões. O niilismo que marcaria os filmes seguintes do diretor nos anos 90 já estava lá, percebe-se um pulso firme na reconstrução da personalidade de Ripley, mas a reescrita constante do roteiro matou o projeto. Fincher, iniciante, não teve a sorte de Cameron, que era um novato igualmente intransigente e perfeccionista no set, mas levou vantagem sobre o estúdio por ser casado na época com a produtora de Aliens, Gale Anne Hurd.

Olhar as coisas com esse tipo de perspectiva é uma vantagem da caixa. Os making-ofs acabam ganhando uma cara muito particular. No do filme de 1979 a grande questão é determinar as paternidades, quem teve qual ideia primeiro. No do segundo já se percebe um respeito à figura de Cameron, os opositores medem mais as palavras (mesmo porque o filme foi um sucesso) e a produção dos designs do armamento e do maquinário visivelmente se destaca. Já o making-of do terceiro é inestimável, com produtores dando justificativas diferentes para o fracasso, longe do discurso afinado que normalmente se vê. E o documentário do quarto filme coloca os fãs do lado de dentro: profissionais que agradecem a cada minuto a chance de poder trabalhar com a icônica criatura, já no limiar dos efeitos por computação gráfica.

Para tentar organizar tanto material (aparentemente são 65 horas de extras, eu perdi a conta depois da segunda semana), Anthology chega com uma novidade interativa, o modo MU-TH-UR. Emulando o computador de bordo da Nostromo, a nave do primeiro filme, a interface oferece - como aqueles trailers interativos que vez ou outra aparecem nas divulgações de filmes hoje em dia - a chance de contextualizar os extras. Durante a cena do Space Jockey, por exemplo, dá pra visualizar dados na tela sobre a misteriosa criatura fossilizada ou abrir secundariamente um vídeo que o detalha, enquanto o filme em si é pausado.

A iniciativa é bem-vinda, mas se era para organizar o calhamaço de extras não custava nada rever ou mesmo eliminar alguns. Tem coisa que ficou datada, como os depoimentos em 1999 da equipe de efeitos que falam das inovações técnicas de... Godzilla. Uma atualizada mais atenciosa nos making-ofs poderia atrair o público que hoje não entende porque tanto se venera o Alien. Do jeito que está, o volume de material de Anthology serve mais para fãs hardcore, aspirantes a historiadores e a cinéfilos atentos à mudança dos discursos e dos modos de Hollywood desde 1979.

Nota do Crítico
Ótimo