O quão ruim é o novo filme de Doom?

Créditos da imagem: Doom: Annihilation/Universal 1440 Entertainment/Reprodução

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O quão ruim é o novo filme de Doom?

Annihilation ainda não é a redenção das adaptações do game para a tela

Arthur Eloi
02.10.2019
15h46

Videogames têm uma relação bastante complicada com o cinema. Os jogos se inspiram muito na linguagem e técnica das telonas mas, quando chega a hora de devolver inspirações, os resultados costumam variar entre decepcionantes e catastróficos. Doom sabe bem disso. A franquia da id Software é um fenômeno de vendas e da cultura pop, porém sua única representação nos cinemas é Doom: A Porta do Inferno (2005), que o próprio Dwayne ‘The Rock’ Johnson - que estrelou o longa ao lado de Karl Urban (The Boys) - classifica como “uma bomba” representativa da maldição dos games nas telas.

Mesmo assim, isso não impediu a Universal 1440 Entertainment, braço de home video da Universal Pictures, de produzir um novo filme inspirado nos jogos. Chamado de Doom: Annihilation, o projeto é uma produção de baixo orçamento que chega apenas em mídia digital e Blu-ray. O que pode dar errado, certo?

A trama acompanha uma equipe de fuzileiros espaciais que são mandados a base de pesquisa em Phobos, uma das luas de Marte, como forma de punição pelos crimes cometidos pela militar Joan Dark (Amy Manson). Chegando lá, eles descobrem que o local sofreu ataque de criaturas demoníacas após um experimento dar errado. O filme suga Aliens, O Resgate (1986) por completo, o que dificilmente é uma surpresa. O clássico de James Cameron não só ditou as regras do sci-fi militarista ao lado de Tropas Estelares, como também é assumidamente inspiração ao jogo de 1993 - os criadores combinaram as armas e ideias do longa com a violência de Evil Dead e uma invasão infernal saída de uma partida de RPG de mesa para criar a estética de Doom.

Infelizmente, Aliens foi copiado e parodiado à exaustão, e Annihilation não é diferente. O longa se contenta em apenas seguir a mesma estrutura sem novidade alguma, tendo até mesmo uma figura que se assemelha à Ripley. Em certo ponto essa “inspiração” é reconhecida em uma piadinha feita pelo soldado Winslow (Clayton Adams), mas essa autoconsciência da própria preguiça não é usada para mais nada além de referências do tipo. O mais próximo que chega de criar algo original vêm do fato de que quer muito adaptar o estilo de Doom (2016) e o vindouro Doom Eternal (2019). Mas como a Universal não tem os direitos dos games da Bethesda, a produção traz modernidade aos visuais, mas segue a trama, atmosfera e inimigos de Doom 3 (2004).

É ruim-ruim ou tão-ruim-que-fica-bom?

Ainda que Doom: A Porta do Inferno tenha lá uma porrada de problemas, o filme ganhou alguns entusiastas por ser daqueles que a própria absurdez cria uma experiência divertida - seja nas frases de efeito do personagem de The Rock, ou então na ótima cena em primeira pessoa. Já Annihilation não tem nada do tipo, e é conduzido de forma bastante séria e segura pela maior parte. O maior exemplo disso é a ausência de inimigos, já que apenas os cientistas zumbificados e os Imps - ambos inimigos básicos dos jogos - dão as caras aqui. Mesmo Doom 3 já tinha uma boa leva de demônios para enfrentar, portanto a falta de mais criaturas aqui pesa bastante.

Uma das coisas que o diretor Tony Giglio traz ao novo longa é uma maior variedade de cenários, mas isso só fica evidente nos 10 minutos finais, quando o inferno finalmente é apresentado. Curiosamente esta é a melhor parte, trazendo Dark armada com a clássica BFG-9000 para tirar sangue dos monstros. Se o filme tivesse o mesmo tom aventuresco desses últimos momentos, a experiência toda poderia ser bem mais agradável e original. Algo que merece destaque, por outro lado, são os efeitos especiais. Enquanto não são nada incríveis, eles mais se assemelham a uma série de TV do que necessariamente um filme de baixo orçamento para home video, como os filmes da The Asylum (Sharknado).

Assim como seu antecessor, Doom: Annihilation falha em emplacar a saga da id Software fora dos jogos - e cometendo o mesmo erro de tentar fazer algo sério demais quando o que funcionaria é criar algo divertido em cima de um universo tão conturbado e disfuncional quanto o dos games. A Porta do Inferno não tinha isso como objetivo, mas entregou boa galhofa por acidente. Abraçar essa noção do exagero de Doom é a lição ensinada pelo ótimo reboot da franquia nos videogames. Quando questionado pelo NoClip sobre o tom divertido e focado em ação ao invés de narrativa e tensão, o diretor-criativo Hugo Martin explica decisão: “nós sabemos que tudo isso é absurdo, vocês sabem que é um absurdo. Será que podemos só nos entender e partir para a diversão?”.