Arte de "Revolution of the Daleks"

Créditos da imagem: BBC/Divulgação

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Doctor Who ensaia correção de curso em especial de final de ano sem graça

Após temporada que dividiu o público, episódio usou retornos e despedidas para tentar disfarçar roteiro apressado

Nicolaos Garófalo
05.01.2021
19h12
Atualizada em
05.01.2021
19h48
Atualizada em 05.01.2021 às 19h48

Talvez a ferramenta narrativa mais polêmica usada em grandes franquias, as mudanças retroativas de cânone, mais conhecidas como retcons, costumam dividir crítica e público praticamente ao meio. Em sua 12ª temporada, transmitida em 2020, Doctor Who fez barulho ao mudar a história de sua protagonista, adicionando um número indefinido de encarnações às 14 já conhecidas pelo público. A decisão foi extremamente criticada pelos fãs de longa data da série britânica e, a julgar pelo especial de ano novo de 2021, a equipe da produção estava prestando atenção a cada comentário feito nas redes.

Embora dê continuidade ao gancho deixado no final da temporada passada, com a 13ª Doutora (Jodie Whittaker) presa em uma cadeia espacial, “Revolution of The Daleks” abandona rapidamente qualquer vestígio da trama do ano anterior. Logo no começo do episódio, a Senhora do Tempo é resgatada pelo Capitão Jack Harkness (John Barrowman), que a salva sem qualquer problema do presídio, até então apresentado como inescapável. Na Terra, Yas (Mandip Gil), Ryan (Tosin Cole) e Graham (Bradley Walsh) se acostumam com a vida sem a Doutora, investigando qualquer acontecimento fora do normal que possa ter origem alienígena.

Diferentemente do prometido pelo chocante final do ano anterior, o especial de Doctor Who não entregou nenhum grande desafio para os protagonistas. Da risível fuga da prisão às resoluções simplistas para todos os desafios encontrados, o roteiro de Chris Chibnall foca demais em uma correção de curso forçada e esquece de dar qualquer profundidade à trama. Perdido em tom e ritmo, o episódio ainda desperdiça os clássicos daleks, vistos pela última vez no réveillon de 2020. Os vilões, aliás, são derrotados rápido demais e nunca realmente justificam a “revolução” do título.

Mesmo o retorno do Capitão Jack, um dos personagens mais queridos da longa história de Doctor Who, passa batido por causa do trabalho atrapalhado de Chibnall. Embora o charmoso agente temporal continue sendo um poço de carisma, as falas exageradamente expositivas do personagem rapidamente se tornam cansativas. Sua química com a Doutora, algo que fãs estavam curiosos para ver desde que Barrowman fez uma rápida ponta no ano anterior, também deixou a desejar. Embora já tenha mostrado uma sintonia ímpar tanto com os doutores de Christopher Eccleston e David Tennant quanto com suas outras companions, sua atuação parece não ter se encaixado com a de Whittaker, e as cenas divididas pelos dois são mais cansativas que divertidas.

Além de daleks, Jack e até mesmo o cartunesco Robertson (Chris Noth), Chibnall apelou ainda para despedidas para disfarçar seu roteiro apressado e mal acabado. Ao longo do episódio, o showrunner deixa pistas óbvias para a saída de Ryan, que, agora reaproximado do pai e dos amigos, decide deixar a TARDIS, acompanhado de Graham. Forçando uma espécie de encerramento de ciclo, o roteirista encerra o especial com uma referência ao primeiro episódio sob seu comando, da 11ª temporada, que poderia até ser emocionante, se não fosse tão mal executada.

Num esforço visível para agradar um grupo ácido de fãs, Chris Chibnall e sua equipe abriram mão de qualquer rastro da criatividade e ousadia apresentada em 2020. Por mais que tenha elementos que fizeram Doctor Who ser amado ao redor do mundo, “Revolution of The Daleks” não traz nenhuma novidade para a série e dificilmente será lembrado com carinho pelo público.

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