Montagem da coluna de Marcelo Hessel

Créditos da imagem: Omelete/Divulgação

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Dicas do Hessel #024 | A vasta sombra do noir

Confira sete dicas de filmes obrigatórios do gênero

Marcelo Hessel
11.09.2020
13h24

Na semana passada eu fiz no Facebook do Omelete uma Live de introdução ao noir, e a anterior havia sido sobre Chinatown e The Batman. De repente, visitar o noir (e o neonoir) e rever os clássicos do gênero reacendeu meu gosto por esses filmes, por mais fatalistas que eles sempre sejam.

A oferta dos clássicos do noir não é das melhores nos streamings brasileiros, mas como o gênero permite mil interpretações e variações ao longo das décadas é possível traçar uma evolução de estilos e temas. As sete dicas abaixo vão dos marcos obrigatórios - os filmes que definiram o noir nos anos 1940 e 1950 - até exemplares mais recentes que resgatam o expressionismo como a gramática visual por excelência do noir.

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Pacto de Sangue

Foto de Pacto de Sangue
Divulgação

O filme de Billy Wilder junta duas situações básicas do noir - a tentação do crime por dinheiro e por amor - na história de um vendedor de seguros que se deixa envolver por uma mulher fatal que planeja matar o marido milionário. Em parceria com o romancista Raymond Chandler (criador de Philip Marlowe, o detetive particular mais famosos dos noir), Wilder adapta o romance de James M. Cain e lhe dá tons mais freudianos, outro elemento consagrado do gênero. Incontornável para entender a história do noir, Pacto de Sangue é um primor de roteiro, foi indicado a sete Oscars e ajudou a quebrar as barreiras de Hollywood contra esse tipo de filme de violência e morte.

Disponível no Telecine.

A Sombra de uma Dúvida

Foto de A Sombra de uma Dúvida
Divulgação

Alfred Hitchcock já disse que este filme é o seu favorito entre todos que realizou, e A Sombra de uma Dúvida é a obra-prima menos conhecida em comparação com os medalhões do cineasta nos anos 1950 e 1960. Lançado em 1943, um ano antes de Pacto de Sangue, o filme parte do olhar de uma garota que suspeita que seu tio viajante talvez seja um assassino de ricaças. Se a questão da culpa cristã é central na carreira do mestre do suspense, então este filme - cuja estética de sombras opressivas dialoga diretamente com a escola expressionista - é uma grande síntese visual desse tormento.

Disponível no Telecine.

A Marca da Maldade

Foto de A Marca da Maldade
Divulgação

Quando Orson Welles realizou este filme com Charlton Heston, em 1958, o período popular e de organização do noir já estava bem no finzinho, o que contribuiu para que A Marca da Maldade tenha sido recebido com frieza como uma narrativa anacrônica. Ao longo das décadas seguintes, porém, ganhou status de grande obra, não só por causa do elaboradíssimo plano-sequência que abre - com o estrondo de uma explosão a bomba - a história de crime e corrupção policial na fronteira entre o México e os EUA. A Marca da Maldade encerra a era de ouro do noir com um exercício refinado de direção de Welles.

Disponível no Telecine.

Instinto Selvagem

Foto de Instinto Selvagem
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Este filme de 1992 e Showgirls, de 1995, as duas parcerias entre o diretor holandês Paul Verhoeven e o roteirista húngaro Joe Eszterhas, estão entre os filmes mais fortes da década a revisitar mitos e convenções da velha Hollywood; no caso de Showgirls são os musicais e de Instinto Selvagem, o policial noir, filtrados por um olhar europeu, estrangeiro, que potencializa as perversões americanas em chave semipornográfica. Se Welles fez um dos últimos noir de raiz em 1958, Instinto Selvagem é um dos derradeiros filmes americanos de sucesso a abordar frontalmente a questão do sexo e suas dinâmicas de poder, e desde então os EUA são essa fábrica de filmes de fantasia cheios de pudor.  

Disponível na Netflix.

Los Angeles - Cidade Proibida

Foto de Los Angeles - Cidade Proibida
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O romance de James Ellroy que deu origem ao premiado filme de Curtis Hanson saiu em 1990, período de ebulição racial em Los Angeles, poucos meses antes do espancamento de Rodney King e das revoltas na cidade. Talvez por isso seja um noir que não apenas traz consigo uma consciência social (elemento consagrado do gênero desde sua origem) mas faz disso sua própria premissa sobre corrupção e violência policial. Kim Basinger ganhou o Oscar de atriz coadjuvante pelo papel da prostituta Lynn, mas a personagem, objetificada, está longe de ser uma femme fatale com o destino nas próprias mãos. Na comparação, a Sharon Stone de Instinto Selvagem leva uma vantagem que chega a ser desleal.

Disponível no Amazon Prime Video.

Longa Jornada Noite Adentro

Foto de Longa Jornada Noite Adentro
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Assim como A Marca da Maldade, o filme de Bi Gan é conhecido por seus planos-sequências, feitos num 3D que encantou os críticos no circuito de festivais em 2018. Reduzir este policial chinês delirante a esses momentos de virtuose, porém, é fechar os olhos para sua proposta de sonho, em que a cenografia e a fotografia expressionistas (meio Wong Kar-wai, meio Tim Burton) se prestam a uma trama não-linear de memórias assombradas e desejos mal resolvidos - dois elementos que estão na espinha dorsal do noir.

Disponível na Netflix.

O Preço da Verdade

Foto de O Preço da Verdade
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Este suspense subestimado de 2019 é a primeira vez que o cineasta Todd Haynes e o diretor de fotografia Ed Lachman (indicado ao Oscar da categoria por dois filmes de Haynes, Longe do Paraíso e Carol) deixam a película e trabalham com digital. A preocupação com texturas permanece, porém, e O Preço da Verdade é um grande exercício de luz, sombra e cores para dar conta do horror de uma história real sobre a origem do teflon e contaminações em massa nos EUA. Se no noir os personagens principais frequentemente se envolvem numa busca pela verdade que termina esmagada pelas circunstâncias - que o chiaroscuro sempre ressalta bem nos avanços das trevas - então dá pra dizer que O Preço da Verdade é um neonoir também, além de ser um terror ambientalista e um filme opressivo de tribunal.

Disponível no Amazon Prime Video.