Montagem da coluna de Marcelo Hessel

Créditos da imagem: Omelete/Divulgação

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Dicas do Hessel #020 | Do cachorro louco

No mês de agosto, confira dicas de filmes que giram em torno do tema

Marcelo Hessel
14.08.2020
14h48

Dizem que as condições climáticas no Brasil nesta época tendem a induzir cadelas ao cio, o que justificaria o tal "mês do cachorro louco", epíteto infame que associa agosto ao desgosto e ao mau agouro. Questões de folhinha à parte, o cinema nem sempre trata os cães como os melhores amigos do homem, e dentro dos filmes de horror com animais tem todo um subgênero dedicado aos cachorros com raiva, possuídos e treinados para a violência.

Na seleção desta semana, as Dicas do Hessel pinçam sete sugestões nos streamings que giram em torno do tema - alguns deles são pensados, inclusive, para chamar atenção para o combate ao descaso e aos maus-tratos com animais - ou exploram os mistérios antropomórficos dos laços estreitos entre os cães e os humanos.

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Cão Branco

Foto de Cão Branco
Divulgação

O último trabalho americano do cineasta Samuel Fuller, de 1982, é um dos maiores filmes já feitos sobre racismo. O roteiro escrito por Fuller com Curtis Hanson adapta um romance sobre um treinador negro de cães que se dedica a curar um pastor branco que havia sido domesticado por um racista a avançar raivosamente sobre afroamericanos. A trama se presta, metaforicamente, a analisar se o preconceito racial é uma mazela incurável, e Fuller coloca seu estilo sempre vigoroso a serviço de um suspense absolutamente tensionado (Cão Branco tem algumas das câmeras lentas mais angustiantes já filmadas).

Disponível no Amazon Prime Video.

Alvo Triplo

Foto de Alvo Triplo
Divulgação

Adrien Brody, John Malkovich e Rory Culkin fazem três assaltantes que, durante uma fuga, escondidos num galpão abandonado, precisam sobreviver a um pitbull de rinhas. O filme perde força quando insiste no estudo de personagens (depois do terceiro ou quarto solilóquio as metáforas com o mundo canino já começam a se repetir), mas a variedade de situações de ação numa única locação é bastante criativa. O diretor Paul Solet dedica o filme à sua falecida cadela Molly, e nos créditos finais também aparece a mensagem de que parte da renda do filme seria revertida para o combate às rinhas.

Disponível na Netflix.

Diamantino

Foto de Diamantino
Divulgação

Cachorros inimigos podem ser também produto de mentes iluminadas. Mais precisamente, "cachorros felpudos" (ler com sotaque açoriano), que o craque da bola Diamantino imagina sempre no lugar dos rivais quando está encantando o planeta com seus dribles. A comédia portuguesa obviamente parodia a imagem de Cristiano Ronaldo, embora não o cite nominalmente, para falar da alienação europeia com as urgentes questões imigratórias dos refugiados no continente. O ator Carloto Cotta faz um sósia perfeito de Ronaldo, com sua cara de quem vive alegremente numa realidade paralela, feita das regras que o próprio Diamantino define.

Disponível no Telecine.

Deus Branco

Foto de Deus Branco
Divulgação

O filme do húngaro Kornél Mundruczó remete ao de Fuller no seu título - e a premissa também é aproximada, pois também trata de animais condicionados ao ódio contra as pessoas - mas é muito mais gráfico nas cenas violentas. A experiência de assisti-lo pode ser bem desagradável, independente da sensibilidade do espectador, e Mundruczó usa esse acúmulo de ofensas para construir um crescendo que resulta num clímax de impacto. Todo o lance de Deus Branco é existir em função desse clímax, em que os cães se rebelam contra todo tipo de abandono e agressão. No Festival de Cannes, anualmente, é dado um troféu para os melhores cachorros do cinema, e em 2014 o prêmio merecidamente foi para o elenco canino supertreinado deste filme.

Disponível no Globoplay.

Cujo

Foto de Cujo
Divulgação

De Conta Comigo a Cemitério Maldito, os filmes inspirados na obra de Stephen King frequentemente recorrem a animais como símbolos de incerteza e perigo, e a peça central nessa colcha animal - inclusive pelo seu tamanho mais que avantajado - é o são bernardo que protagoniza Cujo. O diretor Lewis Teague não tem pudor na hora de filmar o terror, e as cenas em que Cujo cerca o veículo de mãe e filho estão entre os momentos mais apavorantes da vasta galeria de pesadelos escritos por King e impressos em película. O que mais enerva em Cujo, porém, é a forma como se discute família nuclear e adultério, e como diminui-se a autonomia feminina nas dinâmicas de casal. King voltaria a situações parecidas depois em outro romance, Gerald's Game (que depois virou o ótimo filme Jogo Perigoso, disponível na Netflix), o que meio que "corrige" Cujo de um ponto de vista feminista.

Disponível na Netflix.

Um Lobisomem Americano em Londres

Foto de Um Lobisomem Americano em Londres
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Um dos melhores filmes de lobisomem da história é também uma grande declaração de amor ao cinema de gênero em geral e ao horror em particular - não só pelas piadas de metalinguagem com os filmes de monstros dos anos 1930 mas também por abraçar o cinema como epicentro cultural de mudanças de comportamento ao longo do século 20. O supervisor de efeitos Rick Baker ficou famoso pela maquiagem da transformação do lobisomem, vencedora do Oscar, que oferece uma tradução visual arrebatadora da experiência que é chegar à puberdade e - cercado de sexo na TV e no cinema - ceder aos instintos mais animalescos do desejo.

Disponível no Amazon Prime Video.

Dogman

Foto de Dogman
Divulgação

Desde que realizou Gomorra, o diretor italiano Matteo Garrone ganha mais moral do Festival de Cannes do que de fato merece. Não é diferente com Dogman, mais uma história de crime e paúra em Nápoles, mas desta vez o mundo cão é quase literal: o protagonista, dono de um pet shop, se vê refém de uma relação abusiva com o brutamontes do bairro, praticamente seu "dono". Garrone pesa a mão como sempre, mas o microuniverso do conjunto habitacional tem seu interesse, pelo menos plástico, quase de fábula. É um filme, ademais, que poupa os cachorros da miséria (com exceção de uma cena engraçada envolvendo um congelador) e serve bem para fechar esta lista: quando os homens sentem na pele também os abusos pelos quais passam os animais.

Disponível na Netflix.