Montagem da coluna de Marcelo Hessel

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Dicas do Hessel #018 | O príncipe porradeiro

Conheça o trabalho do ator Scott Adkins

Marcelo Hessel
31.07.2020
11h11

Aos 44 anos, o ator Scott Adkins já colocou seu nome entre os grandes do cinema de artes marciais, não só por ter atuado de igual para igual com ícones como Jean-Claude Van Damme, Jackie Chan e Donnie Yen em mais de 50 filmes, mas principalmente pela versatilidade na atuação e em estilos de luta. Especialista em taekwondo desde que recebeu sua faixa preta aos 19 anos, o britânico já viveu russos, americanos e ingleses nas telas, com a mesma segurança com que aplica os chutes aéreos giratórios que são seu golpe de assinatura.

Adkins e seu sotaque aristocrático são onipresentes nos catálogos de streaming, que herdaram a volumosa produção daqueles filmes de ação que normalmente saíam direto para DVD. É impossível navegar pelos menus e não deparar com o ator, e embora haja muita coisa péssima aí (como O Forasteiro ou Prisão Estelar), algumas pérolas de artes marciais estão ao alcance de um clique. Eu passei a peneira na dúzia de filmes estrelados por Adkins disponíveis hoje no Brasil, e separei os sete melhores para as Dicas do Hessel desta semana.

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Ninja 2: A Vingança

Foto de Ninja 2: A Vingança
Divulgação

Como na maioria desses filmes B serializados, não é essencial assistir ao anterior para entender o que se passa; os diálogos são bem expositivos na maioria das vezes e alguns flashbacks situam o espectador quando é o caso. Ninja 2 é, até hoje, o ápice da parceria entre Adkins e o diretor israelense Isaac Florentine - eles são o DiCaprio e o Scorsese da pancadaria de baixo orçamento. Florentine registra como ninguém, com seus zooms em chicote, a velocidade e o impacto dos chutes, e cenas como o quebra-quebra no bar em Bangcoc estão entre as melhores coisas filmadas no gênero na última década. Junte aí uma reviravolta convincente no final e o grande ator japonês Shun Sugata como vilão e o resultado não fica nada a dever aos clássicos do cinema de ninja.

Disponivel no Amazon Prime Video.

Implacável

Foto de Implacável
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O melhor dos filmes B de ação é que não tem perda de tempo: Cain Burgess (Adkins) pede pra sair da prisão excepcionalmente para visitar a mãe no hospital, ela morre antes que ele chegue, e Cain aproveita a oportunidade para fugir e sujeitar o mundo à sua vingança, tudo em uns 10 minutos. Se Isaac Florentine é o diretor que melhor filma a coreografia de ação com Adkins, Jesse V. Johnson é quem lhe captura melhor a presença de cena e o potencial de destruição (aqui canalizados numa caracterização meio cartunesca do "louco encarcerado" que rende uma das melhores atuações da carreira do subastro). Implacável é o filme londrino de gângster e de cadeia para quem tem saudade do que não viveu nos filmes de Guy Ritchie.

Disponível na Netflix.

Wolf Warrior

Foto de Wolf Warrior
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Esse vale pela curiosidade, porque Wolf Warrior é um blockbuster de ação chinês que instila sem a menor sutileza um discurso chapa-branca de nacionalismo e militarismo nos corações e mentes. Astro de Hong Kong e diretor do filme, Wu Jing vive um sniper recrutado pelas Forças Especiais chinesas que vira alvo de mercenários americanos contratados por um rei do narcotráfico local. Quando interpreta vilões, Adkins não tem a mesma força de seus papéis de mocinho, mas a disputa entre o black ops vivido por Adkins (com tempo de tela suficiente para credenciar o filme para esta lista) e o ultraperseverante Jing rende momentos de ação ótimos, como o tiroteio nas árvores e o duelo enlameado final, debaixo do inclemente sol de 50 graus do verão da região de Nanjing.

Disponível na Netflix.

O Imbatível 3: Redenção

Foto de O Imbatível 3: Redenção
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Falando dos papéis de Adkins como vilão, nenhum é maior do que o do detento Boyka, "o lutador mais completo do mundo". Quando fez o vilão em Undisputed 2 em 2006 (o primeiro filme de Adkins com Florentine), o inglês roubou a cena de tal maneira que as duas continuações seguintes transformariam Boyka em protagonista - e herói. Undisputed 3 é a melhor delas; Florentine transforma o torneio de lutas na prisão em um kumitê à moda antiga, com direito a brasileiro capoeirista e americano boxeador falastrão. Se Undisputed 2 é o longa que abriu as portas do estrelato dos DVDs para Adkins, então seu voo solo como Boyka mostraria se ele tem capacidade ou não de carregar um filme nas costas. O resultado em O Imbatível 3, pontuado com ótimas lutas (e um homoerotismo de leve, meio Rocky & Apollo), mostra que sim.

Disponível no Amazon Prime Video.

Tripla Ameaça

Foto de Tripla Ameaça
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Basicamente Os Mercenários com o elenco "B" (ou elenco "A", se considerarmos que Stallone e companhia veterana já foram substituídos há tempos como astros do nicho da ação). Jesse V. Johnson reúne um dream team com os maiores nomes do eixo EUA-Reino Unido-Sudeste da Ásia: Adkins, Michael Jai White, Iko Uwais e Tony Jaa, acompanhados de Michael Bisping e Tiger Hu Chen. O roteiro é esperto o bastante para engatar reviravoltas e jogos duplos que possam promover duelos variados. Johnson brilha na concepção das "arenas", especialmente o palacete espaçoso das lutas finais, com suas sombras que engrandecem as brigas. A torcida para testemunhar Adkins Vs. Jaa era grande e talvez o filme decepcione um pouco sob o peso dessa expectativa, mas ainda assim é um encontro lindo de ver.

Disponível no Telecine.

O Cobrador de Dívidas

Foto de O Cobrador de Dívidas
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Não tem nada a ver com a porradaria, mas é muito interessante ver como esses filmes de baixo orçamento enxergam e capturam as cidades onde são rodados. Seja em Los Angeles ou em Bangcoc, é comum termos um registro desglamourizado que evita as paisagens mais turísticas (onde talvez seja mais caro gravar) e vai atrás das ruas genéricas, dos edifícios mais triviais mesmo. Isso às vezes se apresenta como uma oportunidade de fazer o turismo "da vida como ela é" (em Tolerância Zero, por exemplo, descobrimos que Bangcoc não é só canais, neons e barracas de comida e pode ser uma metrópole cheia de cinza como qualquer outra). Em O Cobrador de Dívidas, Adkins e Louis Mandylor fazem os coletores do título e vão de Beverly Hills à Downtown de Los Angeles trocando piadas, resmungos e provocações, e o resultado é um filme impregnado de um espírito angelino bem autêntico.

Disponível na Netflix.

Soldado Universal 4: Juízo Final

Foto de Soldado Universal 4: Juízo Final
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A obra-prima, pra fechar. (Mais uma vez, não é tão importante assim conhecer os filmes anteriores, mesmo porque Dolph Lundgren e Jean-Claude Van Damme fazem aqui papéis já bem diferentes, e envoltos em mistério novo.) Esta estreia de Adkins na franquia não é exatamente um veículo para as acrobacias do ator. Ao diretor John Hyams interessa menos o espetáculo das coreografias (com exceção da cena da loja esportiva, já clássica) e mais o impacto emocional, físico e mental que a violência exerce sobre os homens, e não é por acaso que a trama pegue emprestados elementos de Apocalypse Now: a guerra tem seus custos e o trauma pode ser em si uma espiral de loucura muito própria. Soldado Universal 4 é um dos filmes mais brutais e diretos feitos nos EUA neste século, e seu acúmulo de imagens-fantasmas em cenários delirados o torna também um dos mais assombrados.

Disponível no Globoplay.