Michael C. Hall em Dexter: New Blood

Créditos da imagem: Divulgação

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Dexter: New Blood | Às vezes é melhor deixar a sujeira debaixo do tapete

Dois primeiros episódios não mostram nenhuma evidência de que valia a pena trazer o personagem de volta

Henrique Haddefinir
08.11.2021
11h12
Atualizada em
08.11.2021
16h59
Atualizada em 08.11.2021 às 16h59

Quando Dexter estreou, em 2006, a abertura da série mostrava um homem comum acordando, preparando seu café e saindo para trabalhar. Ele era bonito, educado, inteligente, tinha um bom emprego e morava na ensolarada Miami. O único problema é que ele era, de fato, um psicopata. A premissa adaptada por James Manos Jr. era ótima: o pai do personagem, que era policial, percebeu desde cedo que ele era um assassino potencial e sabendo que seria impossível evitar a psicopatia, ensinou ao filho um código: ele mataria apenas outros assassinos, apenas pessoas que merecessem morrer; e fingiria ter sentimentos pelos outros no decorrer da vida.

Até a temporada número 4, James Manos permaneceu no comando da série, que logo despontou como um dos maiores sucessos da TV. O personagem foi criado para que torcêssemos por ele, mesmo que fosse um psicopata, já que ele não cometeria assassinatos com gente inocente. Mas, era importante manter em perspectiva que ele era um psicopata ou a série não faria sentido. Por isso, ouvíamos seus pensamentos, que serviam como um contraste do que seu rosto demonstrava. O problema, entretanto, começou a aparecer logo depois dessa quarta temporada, quando Dexter (Michael C. Hall) foi se fundindo numa só identidade e terminou aberrativo, dando ao espectador a falsa impressão de que a psicopatia tem “cura”. 

Nas entrevistas que fizemos com James Manos e Michael C. Hall no decorrer dos meses, soubemos que o retorno da série foi discutido algumas vezes e que isso sempre foi motivado pelo desejo de corrigir o abominável último episódio (eles não usaram essas palavras, mas Michael, principalmente, reforçou algumas vezes que queria tentar dar aos fãs o que eles não tiveram). James Manos voltaria ao comando dos roteiros, mas com uma missão indigesta: corrigir o que, na verdade, nunca deveria ter acontecido. Mas, que era errado em tantos níveis que talvez um só revival não fosse suficiente para consertar.

 Do sol para o gelo

A nova temporada adoraria ignorar aquele final, mas não era possível. Então, Manos teve que ceder e colocar o personagem onde o vimos pela última vez. No meio do nada, morando numa floresta, com apenas uma cidadezinha por perto, Dexter tem uma vida pacata com o nome de Jim. Ele tem uma loja de caça e novamente uma ótima reputação. A namorada é policial e Manos não iria perder a oportunidade de agora fazê-lo namorar alguém que se parece com a própria irmã. Deb (Jennifer Carpenter), contudo, está lá, em visões, que agora representam o papel que o pai do protagonista representava antes: ser sua consciência. Tudo é frio e minimalista; moroso.

Não ouvimos mais seus pensamentos nessa estreia, porque agora, é claro, ele age como pensa, não é mais um assassino em atividade. E aí começam os problemas que para a nova temporada são impossíveis de resolver. Dexter “não quer matar”, não quer dar o start e passou anos sem fazer nenhuma vítima. Seu Dark Passenger ficou adormecido, intocado, o que acabou confirmando toda a loucura que os episódios finais lá do passado nos fizeram engolir. Se no revival ele surgisse como um serial killer procurado pela polícia, depois de deixar um rastro de morte (porque, convenhamos, não há mais motivo nenhum para seguir qualquer “código”), haveria alguma esperança para esse retorno. Mas, não... A “psicopatia” de Dexter é um adorno conveniente, não uma realidade.

Então, para proteger seu argumento, o criador da série faz a única coisa possível nesse contexto: substitui o zelo que Dexter tinha por Deb, pelo zelo que agora ele precisará ter por Harrison (Jack Alcott). Seu filho retorna em busca de respostas sobre a própria origem ao mesmo tempo em que já sabemos o que vai acontecer: há um personagem idiota que Dexter pensa em querer matar desde a entrega que faz de uma arma (um personagem que é convenientemente ilustrado como uma pessoa má). Esse personagem mata um cervo que o episódio situa como sendo o último elo de Dexter com a inatividade de sua personalidade sombria; e ele, por raiva, comete o primeiro crime em anos. A partir desse momento passamos a ouvir de novo seus pensamentos, porque o ciclo vai recomeçar.

Porém, o “ciclo” se torna o mesmo de quando a série acabou e Dexter precisa proteger do próprio filho sua verdadeira natureza enquanto também esconde da polícia as pistas que podem levá-lo ao novo crime. E é claro que a série também não vai perder a oportunidade de jogar com a ideia de que Harrison talvez seja como o pai. Fica difícil compreender por que precisamos voltar para assistir exatamente a mesma trama e ver o personagem viver a mesma angústia: “eu mato pessoas ruins, mas eu na verdade amo minha família e preciso protegê-la”. Será que não teria sido melhor manter toda aquela sujeirada debaixo do tapete?

Dexter de sempre está de volta; com plástico, fitas, tortura, mas não trofeus... Não, nada de troféus. Porque por mais idiota que seja essa ideia, New Blood (e tudo que a série original fez dos anos 5 ao 8) quer nos convencer que é possível ser um tipo positivo de monstro, um “monstro evoluído”. A evolução que precisávamos mesmo, pelo menos nos dois episódios iniciais, ninguém viu.

Dexter: New Blood é exibido pelo Paramount+.

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