Auggie Smith e o Pacificador na série da HBO Max

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Pacificador | Sem aviso, HBO Max corrige erro e redubla fala racista

Racismo de Auggie Smith havia sido suavizado na dublagem da série

Paulo Pacheco
27.01.2022, às 10H14

Em Pacificador, série da HBO Max, o pai do protagonista, assumidamente racista, voltou a ser racista na dublagem. Sem alarde, a plataforma de streaming refez falas preconceituosas de August “Auggie” Smith (Robert Patrick) que haviam sido suavizadas na versão brasileira, irritando os fãs da produção derivada de Esquadrão Suicida.

Na série de James Gunn, Auggie é um supremacista que odeia negros, gays e judeus, entre outras parcelas da população que não sejam homens brancos. Seu extremismo se revela logo na primeira aparição [Atenção: a partir daqui, o texto contém spoilers de Pacificador], quando aparece na TV da sala do personagem um apresentador de telejornal divulgando ideias conservadoras de extrema-direita.

O apelido de Auggie na cadeia é Dragão Branco, codinome usado por vilões racistas nos quadrinhos da DC Comics. Ao voltar para a prisão, é ovacionado por detentos extremistas que erguem o braço direito, com a mão aberta, e gritam ”Heil!”, gesto semelhante ao do nazismo.

Toda a carga preconceituosa do pai do Pacificador foi escancarada nos três primeiros episódios da série, disponível aos assinantes da HBO Max desde 13 de janeiro. Por isso, o público reclamou da dublagem, que omitiu falas racistas e homofóbicas do personagem sem motivo aparente.

No primeiro episódio, na cena em que Pacificador (John Cena) pedia um dos elmos construídos por August Smith, o pai respondia, no idioma original: “Se tem a possibilidade de você fazer bom uso disso para se livrar de uns comunistas, pretos, papistas, judeus ou coisa assim, é melhor do que deixar eles parados”.

A dublagem, entretanto, excluiu a palavra “pretos”, que evidenciaria o racismo de Auggie, e a trocou por “trapaceiros”. Além disso, substituiu “papistas” por “católicos”: “Se tem a possibilidade de você fazer bom uso disso para se livrar de uns comunistas, trapaceiros, católicos, judeus, é melhor do que deixar eles parados”.

O Omelete assistiu à cena dublada e, na sequência, entrou em contato com os responsáveis pela versão brasileira, realizada pela Alcateia Audiovisual, estúdio localizado no Rio de Janeiro. No entanto, nenhum profissional ligado diretamente à dublagem da série concordou em esclarecer o processo de tradução e adaptação de Pacificador.

Dias depois a reportagem voltou a assistir aos primeiros episódios e, surpreendentemente, deparou-se com uma alteração. Desta vez, Auggie diz em português a tradução exata de sua fala em inglês: “Se tem a possibilidade de você fazer bom uso disso para se livrar de uns comunistas, pretos, papistas, judeus ou coisa assim, é melhor do que deixar eles parados”.

Esta foi a única fala refeita pela equipe de dublagem e coincide com o lançamento do quarto episódio, em que o racismo de Auggie e seus parceiros de cadeia ficam mais evidentes. Não seria possível simplesmente suprimir uma palavra preconceituosa da dublagem se todo o restante da série expõe o extremismo do pai do Pacificador.

O Omelete apurou que a tradução e a adaptação tiveram o aval da plataforma de streaming, como ocorre em todas as produções enviadas para dublagem. Nenhum trabalho de versão brasileira vai ao ar sem autorização da empresa contratante. Ou seja, a suavização do racismo de Auggie foi acordada entre Alcateia Audiovisual e HBO Max.

Outros diálogos problemáticos não foram refeitos e minimizam o preconceito de August Smith contra homossexuais, por exemplo. Também no primeiro episódio, o pai do Pacificador chama o filho de “nancy boy”, xingamento homofóbico que significa “veadinho”: “Como foi que a porra do meu esperma virou um veadinho como você?”.

Na versão em português, a ofensa foi excluída: “Como foi que a porra do meu esperma se transformou em um fracote que nem você?”.

Procurada pelo Omelete, a HBO Max não se manifestou até a conclusão desta reportagem.

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