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30 anos de O Cavaleiro das Trevas | As curiosidades e a importância do Batman de Frank Miller

Do barulho na mídia em 1986 à influência sentida até hoje

Érico Assis
11.03.2016
19h26
Atualizada em
29.06.2018
02h35
Atualizada em 29.06.2018 às 02h35

Em 1985, Frank Miller estava se sentindo velho. Tinha 28 anos, trabalhava nos quadrinhos desde os 21 e nesse curto tempo havia virado a maior estrela do mercado. Depois do sucesso de Daredevil na Marvel, a DC Comics havia contratado-o para fazer o que estivesse a fim. E ele já tinha feito: Ronin, seu primeiro projeto autoral, em que decidiu até o papel de impressão e criou páginas que se desdobravam em pôsteres. Agora, queria fazer alguma coisa com Batman. Como Bruce Wayne se sentiria aos 50, perguntava-se Miller, por sua vez preocupado em chegar aos 30.

Faz exatamente 30 anos que O Cavaleiro das Trevas surgiu no mundo. Com data de março de 1986, a primeira edição da minissérie é um marco. Nem Batman, nem Miller, nem a DC Comics, nem os quadrinhos de super-herói foram os mesmos depois da revolução que The Dark Knight Returns causou. Na galeria abaixo, alguns motivos desse sucesso, curiosidades da produção e por que a HQ merece ser lida e relida.

Batman para adultos

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Adultos já conheciam Batman, três ou quatro gerações acompanhando gibis quando criança. mas Miller precisou derrubar a imagem do Batman pançudo da TV para firmar seu Batman sério, durão, comprometido, sofrido. E velho, talvez sem idade para sair correndo nos telhados de Gotham City. Ele não estava ali só para resolver crimes com sua perspicácia detetivesca. Era um Batman que discutia a moralidade de ser herói, que tinha que justificar a violência na luta contra o crime e por que se vestir de vigilante.

Dane-se a continuidade

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Continuidade é uma das vacas sagradas dos fãs de quadrinhos: o que aconteceu numa história vale para as seguintes e assim por diante (fora uma e outra Crise). Miller não estava nem aí. Seu Batman não tem os 20-30 anos perpétuos dos outros gibis e a HQ ainda se passa nos tempos atuais, ou atuais na época: os anos 80 de Ronald Reagan e da Guerra Fria. O importante era ter uma boa história, sem preocupações com o impacto no cânone.

O formato

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O Cavaleiro das Trevas inaugurou o termo "prestige format": enquanto os gibis da época eram panfletos de 20 e poucas páginas impressos em papel jornal e grampeados (que custavam 75 centavos de dólar), as quatro edições da minissérie em "formato prestigioso" tinham 50 e poucas páginas impressas em papel acetinado de gramatura alta e lombada quadrada (que custavam US$ 2,95, quatro vezes mais). Você tinha que sentir na mão que estava lendo um gibi diferente.

A equipe criativa

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Produzir quadrinhos depende de colaboração, principalmente no caso das HQs de super-herói. Miller, que fez roteiro e lápis de todas as edições, tinha a confiança dos seus dois parceiros: Klaus Janson, no nanquim, e Lynn Varley, nas cores à aquarela. Miller e Janson tinham anos de experiência juntos em Demolidor, série na qual Varley também colaborou (ela era esposa de Miller). Vale lembrar também o apoio dos executivos no editorial da DC, Jenette Kahn e Paul Levitz, que disseram para Miller tocar a violência e os temas adultos mesmo quando outros editores torceram o nariz.

Dezesseis quadros

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Quadrinistas tendem a organizar suas histórias numa grade tradicional: a divisão da página em quadros é mais ou menos constante numa edição. Os quadrinhos americanos tendem para 4, 6, 8 ou 9 quadros por página. Cavaleiro tem um grid de 16 quadros (4 x 4), como você confere na primeiríssima página. Na prática, isso queria dizer mais conteúdo por página, um tempo de leitura mais longo que um gibi normal. Era como se todas as histórias do Batman até então fossem episódios de desenho animado, e agora você estava diante de um longa-metragem de três horas.

A mídia e o barulho

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Em 1986, resenhas de quadrinhos ou entrevistas com autores de HQ eram coisas de revista especializada. Cavaleiro das Trevas e Miller, porém, foram destaque em jornais e revistas de grande circulação nos EUA. E o mais incrível: antes da série sair. A Rolling Stone publicou uma famosa entrevista com Miller na edição de janeiro de 1986, quando tudo o que se sabia da minissérie era o burburinho. E o barulho, a partir daí, só aumentou.

Carrie Kelley

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As brincadeiras sobre Batman e seu menino prodígio vêm desde, pelo menos, os anos 1950, quando o psiquiatra Fredric Wertham disse que eles representavam "o sonho realizado de um casal homossexual". Foi John Byrne, outro quadrinista estrela na época, quem deu a ideia a Miller: por que não uma menina Robin? A relação entre os dois - pai/filha, mentor/aprendiz, sargento/soldada - é um dos pontos altos da série.

Como se chama?

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The Dark Knight Returns (A Volta do Cavaleiro das Trevas) não era o nome da minissérie; era o nome do primeiro capítulo no original. Cada edição tinha um título diferente: The Dark Knight Triumphant (Cavaleiro das Trevas Triunfante), Hunt The Dark Knight (Caçada ao Cavaleiro das Trevas), The Dark Knight Falls (A Queda do Cavaleiro das Trevas). Foi só nas coletâneas que se decidiu que a minissére como um todo chamava-se The Dark Knight Returns.

Clint

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Uma das maiores influências de Miller para compor o Bruce Wayne de Cavaleiro? Clint Eastwood. Especificamente o Clint de Impacto Fulminante, quarto filme da série Dirty Harry, no qual o policial que resolve qualquer desaforo com sua Magnum 357 quando volta à ativa depois de um período fora das ruas. Coincidência ou não, já se cotou o velho Clint para interpretar o Bruce Wayne idoso em projetos de adaptação de Cavaleiro para o cinema.

1986

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O ano de lançamento de Cavaleiro das Trevas é determinante nos quadrinhos dos EUA. Watchmen começou a sair antes de Cavaleiro acabar. Maus ganhou seu primeiro volume no segundo semestre. Alan Moore deu adeus ao antigo Superman em "O Que Aconteceu com o Homem do Amanhã?" e John Byrne reformulou o herói em Man of Steel. Naquele ano, Miller ainda estrearia Elektra: Assassina e o arco "A Queda de Murdock" em Demolidor, ambas na Marvel. Todas estas HQs são figurinha fácil em listas de melhores de todos os tempos.

No Brasil

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Cavaleiro das Trevas perdeu as capas originais no Brasil porque a Editora Abril não as considerava apropriadas para o público-alvo infantil. O sucesso da minissérie - que aqui também estampou os grandes jornais - fez a Abril mudar de ideia e até abrir um editorial só para quadrinhos adultos. Cavaleiro também mexeu com o mercado editorial brasileiro. Desde então, já foi lançada por aqui em pelo menos cinco formatos.

As continuações

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É curioso que a DC não tenha criado logo uma linha inteira de séries em volta do universo de O Cavaleiro das Trevas. O trato, pelo menos informal, é que só se volte àquele universo quando Frank Miller estiver a fim. Cavaleiro das Trevas 2 - com Miller e Lynn Varley - saiu entre 2001 e 2002 e deixou a maioria dos fãs insatisfeitos. Cavaleiro das Trevas 3 começou em novembro nos EUA e ainda está rolando. Agora Miller é só colaborador no roteiro, com Brian Azzarello, e os desenhos são de Andy Kubert.

Tudo que veio depois

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Não existe HQ do Batman pós-Cavaleiro que não sinta alguma influência da minissérie de 1986. Nem Bat-filme, nem Bat-desenho animado, nem Bat-videogame. Nem Bat-leitores. Historiadores dos quadrinhos dizem que há uma fase "Trevas" nos EUA em geral, com heróis mais violentos, mais sisudos, talvez mais complexos. Obviamente, nem todas essas HQs são tão boas quanto Cavaleiro. A obra de Miller, Janson e Varley é daquelas que se recomenda a quem quer começar a entender a variedade dos quadrinhos. Se você ainda não leu, leia agora.

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