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Cowboys & Aliens | Entrevista exclusiva com o diretor Jon Favreau

Cineasta discute o momento do cinema em Hollywood, o western, criaturas e mais!

Érico Borgo
04.09.2011
22h00
Atualizada em
29.06.2018
02h35
Atualizada em 29.06.2018 às 02h35

A atmosfera para a entrevista com o diretor Jon Favreau era perfeita. Uma mesinha no meio de um gramado em um resort afastado em Missoula, no estado de Montana, EUA. Com as montanhas ao fundo, os pinheiros ao redor e os espaços amplos, o clima de faroeste era extremamente propício para conversarmos sobre Cowboys & Aliens. O novo filme do diretor de Homem de Ferro funde o gênero mais estadunidense que existe com a ficção científica de invasão extraterrestre, outra das especialidades de Hollywood. Durante 20 minutos discutimos a atual fase dos grandes blockbusters, o cinema de Velho Oeste e seus estereótipos, Daniel Craig e até o jogo Red Dead Redemption. Divita-se!

Cowboys & Aliens

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Daniel Craig e Jon Favreau no set

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Como você vê o mercado dos blockbusters hoje em dia?

Parece que muitos dos filmes atuais refazem algo que já foi feito, talvez com uma pequena diferença. Essa é a natureza de Hollywood na atualidade - o DVD está desaparecendo aos poucos, há muito furto digital e não dá pra contar com nada além dos cinemas para fazer dinheiro. Para isso, os estúdios hollywoodianos tem que fazer filmes cada vez maiores. Conforme o custo das produções fica maior, eles [os estúdios] tendem a assumir riscos cada vez menores, e é por isso que esse ano está repleto de continuações, remakes e filmes de super-heróis. Não há nada original porque eles colocam seus empregos em risco quando investem em algo muito diferente.

Cowboys & Aliens me pareceu bem original, além de ser uma oportunidade de focar nos atores - coisa que muitos dos filmes com efeitos especiais não fazem. Eles contratam atores novos só para valorizar o figurino, as máscaras e os efeitos visuais. Mas um filme de cowboys foca principalmente nos atores. E acho que fazer um filme 2D com grandes astros do cinema e um conceito como o de Cowboys & Aliens é bem original e diferente. Essa foi a ideia principal e o grande desafio era fazer algo divertido mas que também tivesse emoção, animação, realidade.

Você acha que Hollywood vai conseguir superar isso? Fazer filmes mais arriscados?

Não acho que isso vá acontecer. Acho que esses filmes arriscados e projetos diferentes serão lançados nos canais de TV pagos. É só ver Mad Men, Game of Thrones... É assim que você tem filmes mais ousados e para maiores de idade. Os filmes tem que ser aptos a todos os públicos, senão a produção não rende dinheiro. De vez em quando surge uma coisinha ou outra, como por exemplo 300, mas na maioria das vezes o filme tem que ser uma experiência abrangente, ou então você acaba ficando com um orçamento bem menor.

Você tem que ser realista sobre aquilo que vou fazer e o que esperar como resultado. Se você tem a intenção de usar a tecnologia e efeitos especiais disponíveis hoje em dia, tem que haver uma certeza de que aquilo será atraente para todos os públicos. Acho que Cowboys & Aliens é o exemplo da tentativa de ser original dentro desses parâmetros. Sou bem realista quanto ao orçamento que tenho disponível. Se fosse fazer uma comédia, faria algo na TV aberta ou paga.

Como você resistiu a tentação de gravar em 3D?

Não sei se você lembra, mas quando estávamos fazendo esse filme, parecia que todos as grandes produções como essa seriam lançadas em 3D. Eliminou o furto digital e também permitiu que os estúdios cobrassem ingressos mais caros. Então naquela época, parecia que o 3D seria o novo formato para todos os filmes. Os grandes estúdios diziam que todo filme tinha que sair no formato e é isso que vemos hoje em dia - primeiros filmes de franquias que não eram em 3D tiveram suas continuações lançadas no formato. Fizemos os filmes do Homem de Ferro em 2D e agora todos os outros filmes da Marvel são em 3D. Assim como Harry Potter, Piratas do Caribe... Então era uma época em que a pressão de se fazer um filme desses era bem grande. Mas quando um filme em 3D vai ser lançado, há duas opções: ou tudo é rodado digitalmente já no formato, ou se converte um filme que foi rodado em película. Eu não queria converter. Se fosse trabalhar com 3D, queria que o filme fosse todo rodado no formato. Sou um grande fã de 3D, mas acho que aquilo tem que ser parte da história. Tudo tem que ser considerado desde o início e, neste caso, tudo seria pensado depois. Nós até chegamos a filmar dois dias em 3D, o formato é bem divertido, mas senti que queria rodar um filme anamórfico em 2D. Queria as cores, queria toda a beleza da paisagem e queria que a audiência sentisse como se estivesse assistindo a um filme clássico de faroeste, não uma reinvenção. Queria deixar que a introdução dos aliens fosse o quesito a diferenciar o filme, não o formato.

Era importante para você fazer um filme de faroeste de verdade? Porque todos os temas clássicos estão presentes - o vilão com a cicatriz, o anti-herói misterioso, as alianças frágeis...

Sim! O mais divertido do roteiro e o que queríamos reforçar conforme o desenvolvemos - e todos os atores também sentiam o mesmo - é o amor verdadeiro pelo gênero. Lembro que faroestes costumavam ser filmes grandiosos. Quando John Ford fazia um filme assim, ele era feito para concorrer ao Oscar, para conseguir subir na bilheteria e era a mesma coisa com os outros diretores e isso mantinha os estúdios. Então metade das produções daquela época eram faroestes, assim como na TV. Foi recentemente que o faroeste virou um filme artístico, de escala bem menor que é feito pelo amor ao gênero. Então fazer um filme nessa escala é algo bem raro hoje em dia. Ainda encontramos alguns bem menores que são muito bons, mas eles parecem ser baratos. Por este ser um filme que também aborda invasão alienígena, conseguimos fazer uma grande produção. O truque foi fazer com que ele não fosse uma piada, coisa que o que o título sugere. Queríamos que o título despertasse a curiosidade do público, mas quando as pessoas fossem assistir ao filme, sentissem como se fosse um faroeste convencional. Então usamos todos os arquétipos que você citou, tentamos usar todos as tramas convencionais e mantivemos a ação dentro do gênero. E como você disse, mesmo que olhe só para o lado de ficção científica do filme, dá pra notar as influências do faroeste.

Com a diferença que no faroeste o antagonista era o nativo...

Na Guerra Fria, eles diziam que a única maneira que a União Soviética e os EUA terminariam a guerra era se aliens invadíssem a Terra. E é verdade, assim que há uma ameaça maior, todos se unem para combatê-la. Acho que se o filme passa qualquer mensagem, é a de que as necessidades do grupo vem antes das individuais. Os heróis dão seu melhor - e as vezes até sua vida - para que uma sociedade e sua cultura possam continuar existindo. Acho que isso é um tema recorrente tanto nos filmes de faroeste como nos de invasão alienígena. Foi bem divertido encontrar a intersecção entre filmes de alienígena dos anos 80, 70, de quando eu estava crescendo, e os faroestes clássico. Descobrimos que há muitas coisas em comum entre os gêneros e os colocamos juntos, fazendo que esse efeito parecesse natural.

Por que você escolheu Daniel Craig?

Ele e Harrison Ford já tinham interpretado pistoleiros. Se você pensar na origem de James Bond, daquele tipo de personagem, suas raízes vêm dos antigos filmes de faroeste. Quando pararam de fazer faroestes, eles ainda mantiveram esse tipo de personagem. Han Solo é um pistoleiro, mas eles fizeram pequenos upgrades nele. Em Duro de Matar, Bruce Willis é o xerife. Então somos bem familiarizados com esse tipo de personagem e acho que o que foi divertido sobre a contratação de Daniel Craig é que foi meio inesperada, por ele ser britânico. Eu achei que só os estadunidenses quisessem interpretar cowboys em filmes, mas parece que todo mundo quer. Assim como os estadunidenses querem ser samurais, e essa é a fantasia. Daniel se parece com um pistoleiro - ele até se parece fisicamente com Steve McQueen, principalmente quando está usando um chapéu de cowboy. Ele também é bem quieto e poderoso - o fato de ter que escrever pouco diálogo e ele já conseguir convencer o público com seu rosto e corpo é incrível. Ele carrega a tradição do pistoleiro de Sergio Leone, quase que sobrenatural. Se você olhar para os personagens de Leone, os pistoleiros de Sete Homens e Um Destino e até mesmo o samurai de Os Sete Samurais - eles têm habilidades e instintos que são quase sobre-humanos. Então eles acabaram se tornando meio que figuras mágicas que mais tarde vieram a ser jedis, ninjas, guerreiros místicos e Daniel realmente conseguiu incorporar tudo isso. Claro que Harrison Ford é como o nosso John Wayne. Ele traz um certo tradicionalismo consigo. E assim como John Wayne em Rio Vermelho, no qual ele interpreta um personagem mais sombrio do que podíamos imaginar, acaba gerando um grande impacto. Ou quando ele esteve em Bravura Indômita (1969), no qual ele mostrou quem ele costumava ser. Clint Eastwood em Os Imperdoáveis também - você o vê matar pessoas há décadas, mas agora que ele tem problemas com moralidade, você sabe pelo que ele já passou, mesmo que não fique claro no filme. Até Robert Downey Jr. em Homem de Ferro, você já sabe qual é a história dele, então quando ele passa por uma tranformação emocional, isso acaba significando ainda mais do que significaria para um ator comum.

Comente um pouco sobre a criação dos alienígenas, por favor.

Eu queria que os aliens fossem a versão monstruosa de um alien - não aquele ser alto, com olhos amendoados, cheio de tecnologia por ser uma raça mais evoluida. Queria que eles fossem geneticamente criados, brutais, com dentes e garras grandes, que pudessem assustar não só por causa da tecnologia, mas também fisicamente. Isso vem do meu gosto por filmes como O Predador e Alien - O Oitavo Passageiro. Steven Spielberg também esteve muito envolvido com o design dos aliens. Também há o fato de que não revelamos o aspecto físico da criatura por um bom tempo, e vamos mostrando aos poucos.

Esse filme é um pouco mais sério do que seus projetos anteriores. Você mesmo disse que se conteve para não adicionar tanta comédia. Por quê?

Com um título como Cowboys & Aliens, precisa-se tomar um cuidado muito maior com o humor. Além do fato de que eu queria fazer um faroeste, no qual se usa comédia de uma maneira bem diferente do que em filmes de ação. Há momentos muito sérios e depois há momentos de alívio cômico bem amplos. Até nos filmes mais sérios de John Ford, sempre há elementos cômicos, mas eles nunca interferiram com a realidade do conflito principal. Sempre ficavam de lado, a cargo dos personagens coadjuvantes. Queríamos que as situações tivessem humor, mas não queríamos que isso interferisse. Eu queria fazer com que as pessoas se assustassem, ficassem com medo e se emocionassem, mas as vezes o humor meio que impede isso. Mas eu acho que o filme acabou ficando bem engraçado. [risos]

Você acha que o game Red Dead Redemption ajudou a trazer o faroeste de volta pra uma nova geração que agora pode se interessar por um filme como Cowboys & Aliens?

Claro! Adolescentes estão jogando games que têm a mesma iluminação, música e trama de um filme do Leone e ficam empolgadas com a ação e com as situações que vieram dos faroestes. Sei que a geração dos meus filhos não foi exposta a esse gênero. Mas ao mesmo tempo, eu também não havia sido exposto a tramas diferentes quando vi Star Wars, mas aquilo já era muito familiar para meu pai, que assistia às séries daquele gênero. A mesma coisa com Indiana Jones. Há algo atemporal sobre esses personagens e essas história e continuamos a revisitá-las diversas vezes. O faroeste já está ressurgindo em filmes como Rango, o novo Bravura Indômita... e [Quentin] Tarantino também está fazendo um. Tomara que exista uma oportunidade para que esses filmes se deem bem comercialmente, porque assim os estúdios vão continuar os financiando. No final, não é o fato de que Hollywood não quer fazer faroestes, é que eles não rendem tanto quanto os outros. Então não há oportunidade.

Você imaginava que seria cotado para filmes tão grandiosos como esse?

Não, nunca imaginei isso. Pensei que minha atuação seria o carro principal da minha carreira, mas nunca cheguei a pensar que meus roteiros e direção seriam. Acho que as habilidades que vamos aprendendo quanto a trama e estando no set como ator adicionam muito, independente em que área do entretenimento você esteja. Os melhores responsáveis pelos grandes estúdios tem uma noção muito grande de roteiro - por exemplo [Steven] Spielberg, que está no comando da DreamWorks. O fato dele saber muito bem como contar uma história o transforma em um ótimo lider, mentor e uma pessoa que pode me apresentar desafios e me ajudar a melhorar como profissional. Contanto que você tenha pessoas que entendam a trama e os personagens em todos os processos de desenvolvimento de um filme, você terá um ótimo resultado.

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Cowboys & Aliens estreia no Brasil em 9 de setembro. Acesse a página abaixo para nosso conteúdo exclusivo.

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