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Gay Nerd | Séries LGBTI brasileiras

Como produções independentes colaboram com a representatividade no audiovisual

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16.10.2015, às 19H13.

A polêmica do beijo LGBTI na televisão brasileira não se encerrou com o evento que foi Félix (Mateus Solano) e Niko (Thiago Fragoso) em Amor à Vida, novela de Walcyr Carrasco. O beijo, simples e tímido, marcou um momento disruptivo para a teledramaturgia em terras tupiniquins. Ainda assim, o preconceito continua latente enquanto a Globo tenta aumentar a representatividade de personagens LGBTI sem deixar de ser popular entre os mais conservadores.

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A última tentativa da emissora, numa novela das 9h, foi o casal lésbico Teresa e Estela, vividas por Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, em Babilônia. Embora houvesse futuro para as duas, com mais destaque dentro da trama, o casal foi deixado de lado por causa da reação negativa do público. É um exemplo de como uma audiência conservadora pode influenciar a trajetória de personagens interessantes e com potencial.

Entretanto, Verdades Secretas, novela das 11h que acabou há poucas semanas, também escrita por Walcyr Carrasco, conseguiu, em detrimento do horário em que ia ao ar, tratar de temas polêmicos com naturalidade ímpar. Visky (Rainer Cadete), a bicha fashionista, era afetada e estereotipada, mas descobriu novos territórios de sua sexualidade: se envolveu com Lourdeca (Dida Camero), uma mulher hétero. Outro personagem, Anthony (Reynaldo Gianecchini), um quase michê, protagonizou cenas exuberantes de fetiche gay. Em outros núcleos, fomos apresentados a um romance gay, embora tímido, e um beijo lésbico ao final da novela. Um samba de representatividade. Viva Walcyr Carrasco, beesha loosho!

Tudo isso para dizer que, embora o mainstream brasileiro tema falar dos LGBTI com menos estereótipos, estamos num cenário de mudança, aberturas de narrativas e um horizonte azul, bastante positivo. O outro lado deste horizonte são as séries independentes, geralmente divulgadas pela internet, que conseguem, apesar do orçamento curto e limitado, apresentar tramas mais complexas e personagens LGBTI mais humanos.

É bem verdade que é difícil saber da existência destas séries, pois acabam se tornando um produto de nicho, divulgadas somente em canais e meios LGBTI. Por isso precisamos conhecer um pouco mais este universo, divulgar pras amigues e, ainda por cima, ganhar ao acompanhar séries com representatividade das boas.

Um bom exemplo é a inédita Copan, websérie cuja primeira temporada terá dez episódios em formato de sitcom. São em média 10 minutos por episódio num ritmo clássico de TV: o semanal. A história conta a trajetória de cinco amigos no processo de descoberta da sexualidade, do amor e dos desafios da vida adulta. A série foi criada por Priscila Carla e roteirizada em conjunto com André Magalhães. No momento, somente dois episódios foram divulgados e a narrativa apresenta um ritmo leve e descontraído. A série, embora tenha ganhado edital do PROAC-SP, um programa de apoio cultural da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, enfrenta as dificuldades do baixo orçamento.

A criadora de Copan, Priscila Carla, diz que um dos grandes desafios de produzir uma série LGBTI independente no Brasil é fazer algo de qualidade com pouco orçamento. Além disso, existe a dificuldade em conseguir parcerias, pois muita gente ainda acha que série LGBTI só tem putaria e baixaria. Para piorar, os projetos do PROAC-SP para a nossa causa recebem verba muito menor do que os editais para outras produções, o que dificulta ainda mais a aventura. Em alguns casos, a galera investe dinheiro do próprio bolso e conta com a parceria dos amigos e grupos LGBTI para viabilizar o projeto. É um trabalho que depende de inúmeras pequenas colaborações para acontecer. Vamos fazer nossa parte e conferir o piloto no vídeo abaixo? LOL (LOTS OF LOVE).

Outra opção bacana é a série RED, que gira em torno da trama de Scarlet (Mel Béart) e Simone (Liz Malmo), duas atrizes lésbicas que se conhecem durante as filmagens de um curta. A história é um tanto metalinguística e conta com uma produção, também independente, de fazer brilhar os olhos. A série já tem duas temporadas, é escrita por Viv Schiller e Germana Belo, e foi indicada ao NYC Web Fest na categoria melhor websérie de língua estrangeira de 2014, além de estar concorrendo a melhor roteiro no Rio Web Fest. As duas temporadas já estão disponíveis no Vimeo e recomendo muito. Confere o piloto:

Vale a pena também conferir O Lar de Todas as Cores, série desenvolvida pelo Projeto Cais, que possui também outras produções, e retrata o período da ditadura militar nos anos 1980 em que ser gay era praticamente um crime. Além disso, eles falam de transexualidade, abuso sexual e poliamor. Corre e assiste, migx!

Por fim, recomendo uma série curtinha, apenas três episódios produzidos de forma independente e que deixou de ser produzida justamente por falta de orçamento: Retratos. A narrativa mostra a história de um gayroto com pais evangélicos e os desafios dessa vida loka. O segundo episódio mostra a descoberta de uma mocinha sobre sua homossexualidade. Vale assistir e torcer para, quem sabe, tenha uma continuação:

Existem muitas séries LGBTI independentes na internet a dentro, a maioria delas desconhecidas do grande público. Essas foram algumas das que tive contato e recomendo, mas gostaria de conhecer com vocês um pouco mais deste universo. O importante é perceber que existe uma galera produzindo coisa de qualidade com representatividade. Quando a gente encher o saco de não ser representado nas grandes séries, dá para assistir as independentes e sentir aquele gostinho de felicidade ao perceber que sim, há um mundo positivo e colorido a ser explorado (e que só cresce). E você, conhece alguma série independente LGBTI que vale a pena? Comente e conte pra gente.

Por hoje é só. Um bayjo e um quayjo.

Adotamos a sigla LGBTI por ser a mais completa para se referir à diversidade de gênero e identidade sexual nos dias atuais. O T se refere a "TRANS" (travestis, transexuais e transgêneros) e o I a "Intersexual", pessoas com características de ambos os sexos e que podem se reconhecer como homem ou mulher, independente das características físicas. Esta definição é contribuição do leitor Vinícius.

*Gay Nerd é uma coluna quinzenal que mistura nerdices aos temas LGBTI


Isaque Criscuolo é editor do Imerso, nerd, adora um lipsync e acredita que menos é mais

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