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Gay Nerd | Amanda Sparks e a Floresta do Shade

Um jogo brasileiro para espantar o preconceito

Isaque Criscuolo
18.04.2016
10h51

Já falamos por aqui sobre representatividade LGBTI nos games e vimos que, embora seja pequena a representação de tais personagens, o cenário é promissor. A tendência é termos cada vez mais exemplos no mundo do entretenimento. E se eu te disser que existe uma drag queen brasileira produzindo jogos com temática LGBTI? Ela existe: Amanda Sparks, uma das integrantes do recém desfeito Trio Milano e uma das protagonistas do documentário Tupiniqueens, é a responsável pelo jogo Amanda Sparks and the Shade Forest, disponível para Android e iOS.

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Miss Sparks é obra de Henrique de Oliveira, a mente criativa por trás da AmandApps, empresa que licencia o game. "Faço jogos desde 2000/2001 em um programa muito específico. Ele não envolve programação, então não tenho que digitar códigos pois é uma interface gráfica que você arrasta as coisas. Era um programa que começou podre, não dava para fazer muita coisa, e foi ficando mais profissional. Hoje dá para fazer jogos para PC, Apple, Android...", conta Henrique aka Amanda. 

O jogo ganhou vida quando Henrique fez seu trabalho de conclusão do curso de pós-graduação em produção e desenvolvimento de games do Senac. "Antes do meu TCC, já pensava em fazer um jogo com uma heroína drag só por ser divertido e inédito, mas a ideia veio depois que a Amanda apareceu. Então comecei a fazer a pós-graduação e tinha que fazer um jogo. Pensei 'Ah, vou colocar essa ideia em prática, mas a drag serei eu'. Então eu fiz", diz. 

Portanto, migues, é um jogo sobre uma drag queen com uma drag heroína protagonista e produzido por uma drag cujo trabalho artístico está consolidado no cenário nacional. Coisa linda, nénom? Amanda Sparks and the Shade Forest é um game no estilo plataforma com elementos de roguelike (como define o Overloadr) e uma estética de pixelart. A narrativa bafônica é a seguinte: Amanda precisa salvar o povo de The Glam Queendom of Starlice da intolerância e preconceito dos The Hipocritics, tarefa que exige uma quest na Floresta do Shade.

Dentro da mata, você precisa pular obstáculos e derrotar monstrinhos com beijos e tapas, além de salvar cidadãos de Starlice. Se um dos monstros te pegar, sua pequena Amanda desmonta inteira e o jogo recomeça. Cair na água das fases também te faz desmontar, algo que rende boas risadas e diversão. Demorei para pegar o jeito e perdi muitas vezes, mas quando peguei o ritmo, passei das fases tranquilamente. Aliás, este é o processo de qualquer jogo, não é mesmo? Quanto mais jogamos, melhor o desempenho. ASSF (tomei a liberdade de fazer uma sigla com o nome, tá?) é um game simples, prático e viciante. A trilha sonora, a cereja do bolo assinada por Positronic, é animada e lembra jogos do Super Nintendo.

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A aventura de Amanda também é repleta de humor e boas sacadas, característica marcante da drag na vida real. Um dos objetivos do jogo é conseguir dinheiro para incrementar o visual e acessórios no Lounge, uma espécie de camarim/QG da heroína. Quanto mais dinheiro, mais perucas você pode comprar. As referências a RuPaul's Drag Race também estão presentes em vários momentos. Os vilões, ou chefões, são um espetáculo a parte para ilustrar a crítica aos opressores dos LGBTI.

São, no total, cinco chefões e o primeiro deles é o Bully Bull, um touro bombado que diz "vou te bater até você deixar de ser drag". O segundo chefe é um porco pastor, o Bigot Pig, que ataca com bíblias, mas de vez em quando recebe mensagens no Grindr - é quando ele recebe mensagens que você pode atacá-lo. O terceiro é uma gata bruxa que diz que ser drag não é natural. O quarto chefe é um galo ditador de um país inspirado na Rússia que ataca com helicópteros. Para vencê-lo, basta se desviar dos helicópteros e esperar ele baixar para abastecer, então você pode arrasar nos tapas e beijos. 

O último chefão usa capa e, quando derrotado pela primeira vez, revela sua verdadeira identidade: um look gótico suave com rabo de cavalo branco e espartilho. Depois, a poderosa se transforma numa DragãoQueen. É ou não é um lacre?

Por enquanto dá para jogar apenas em Android e iOS, como disse no início do texto, mas Henrique pretende lançar uma versão para PC com mais fases no estilo Mario, mundos e vilões. Já estou ansioso para conferir. 

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Além deste jogo, Henrique produziu muitos outros e fez sucesso com o FlapDragQueen, lançado um dia depois que o Flapbird, aquele joguinho impossível do passarinho pulando por obstáculos, foi retirado do ar por seu criador. Produzido em três dias, o jogo da AmandApps ganhou matéria em diversos jornais e contabilizou mais de 100 mil downloads. Táhn, queridan?!

Amanda Sparks and the Shade Forest é uma surpresa deliciosa, dessas coisas boas que o mercado nerd brasileiro tem oferecido ultimamente. A luta de Amanda é contra a intolerância e o preconceito e certamente uma ótima opção de entretenimento e reflexão para todos nós, além de um bom exemplo de representatividade LGBTI. Portanto, bora baixar e divulgar para apoiar os talentos tupiniquins?

Quem quiser acompanhar o trabalho de Amanda Sparks é só curtir sua página no Facebook ou acompanhar o DRAGeek, seu canal no YouTube com gameplays hilários. E quem for de São Paulo, confira também um show da Miss Sparks. Recomendo fortemente! 

Por hoje é só, minha gente! Um bayjo, um quayjo e até a próxima.

Adotamos a sigla LGBTI por ser a mais completa para se referir à diversidade de gênero e identidade sexual nos dias atuais. O T se refere a "TRANS" (travestis, transexuais e transgêneros) e o I a "Intersexual", pessoas com características de ambos os sexos e que podem se reconhecer como homem ou mulher, independente das características físicas. Esta definição é contribuição do leitor Vinícius.

*Gay Nerd é uma coluna quinzenal que mistura nerdices aos temas LGBTI


Isaque Criscuolo é editor do Imerso, nerd, adora um lipsync e acredita que menos é mais

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