CCXP23 | HQs em todos os formatos: música, calendário, baralho, boneco...

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Quadrinistas do Artists’ Valley usam criatividade em projetos gráficos que fogem do usual

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5 min de leitura
30.11.2023, às 18H10
ATUALIZADA EM 01.12.2023, ÀS 14H16
ATUALIZADA EM 01.12.2023, ÀS 14H16

Foi-se o tempo em que folhear um gibi era o bastante para lê-lo. A prova está no Artists’ Valley da CCXP23: passeando por entre as mesas dos quadrinistas, é possível encontrar HQs nos formatos mais inimagináveis.

Quer um bolo?

Cecília Marins (mesa K31), por exemplo, faz jornalismo em quadrinhos (já tendo falado em suas obras sobre prostituição no Centro de São Paulo e o mundo do BDSM) e resolveu montar o calendário Histórias do Coração. Ela literalmente colocou uma mesinha na Avenida Paulista e na Bienal de Quadrinhos de Curitiba, realizada em setembro deste ano, e ofereceu bolo de cenoura aos passantes – as pessoas não pagavam nada, desde que respondessem a uma pergunta: qual o dia mais feliz de sua vida? Doze histórias viraram desenho, uma para cada mês do ano. “Queria fazer algo para servir como presente, decorar a casa. A ideia era seguir esse caminho, de os participantes entrarem num mundo emocional, abrirem o coração”, explica.

De ponta cabeça

Quem também pega o formato livro e, literalmente, vira de cabeça pra baixo é Marília Marz (L24), Felipe Castilho (A29-30) e Tainan Rocha (A28) com Cara/Coroa. A turma conta duas histórias: em Cara, acompanha-se um entregador de aplicativo numa terra devastada; em Coroa, duas famílias vivendo em uma floresta na qual todos estão conectados por cordões. A jogada está na primeira trama começar na capa e a segunda, lá atrás, na quarta capa. Depois de ler uma, você precisa, literalmente, virar a HQ de cabeça pra baixo para ler a outra. “O conceito era justamente narrar enredos que seriam os dois lados da mesma moeda – a moeda sendo toda a situação da pandemia e da saúde pública”, revela Marília. “Então, esse formato acabou fazendo muito sentido, refletindo o conteúdo.”

HQs + Áudio

Leia o livro, ouça a música, assista ao filme. O conceito de obra de arte multimídia nunca fez tanto sentido no quadrinho nacional como com Desculpa o Áudio, de Camilo Solano (L07) – na verdade, é só trocar “filme” por “videoclipe” que a máxima fica perfeita para esse projeto. Já tem um tempo que o artista investe em uma carreira musical; aproximar suas paixões, portanto, era algo inevitável. “Primeiro, eu compus a música. Daí pensei em fazer um clipe, que evoluiu pra fazer um quadrinho para divulgar isso tudo, algo 3 em 1”, conta. No final da HQ, há um QR Code que leva o leitor ao videoclipe – dá para assisti-lo aqui. “Vamos ver se rola virar o ‘cantor das HQs’”, ri Camilo.

Segunda Guerra Mundial

Kash Fyre (A23), responsável por uma HQ no formato de maço de cigarros (cada cigarro é uma tira que precisa ser desenrolada), retorna com outra ideia graficamente ousada: reproduzir um diário de um soldado brasileiro que lutou na Segunda Guerra Mundial. “Tentei me colocar na posição desse personagem, pensando como eu me portaria no front”, comenta. “Eu talvez anotaria o que visse, desenharia fatos vividos. Ali teria sujeira, páginas rasgadas…”. O quadrinho, chamado Rabiscos de um Pracinha, no formato de um pequeno caderno de desenhos, conta com várias intervenções artísticas, incluindo tinta representando manchas de sangue e de terra e até um furo no meio do gibi, como se um tiro tivesse o atingido – tudo feito manualmente por Kash em cada exemplar. 

Gigantesco

Ao invés de pequenos desenhos, Orlandeli (B19-20) criou uma única imagem de 1,6 m de comprimento para narrar seu Lusco-Fusco. Como ele mesmo define, é um “fluxo gráfico ininterrupto”, que conecta imagens, palavras e sensações. “A ideia nasce da vontade de transformar uma emoção num objeto”, revela o autor. “Então, uni elementos como quadrinho, literatura e design, condensando tudo isso para fazer com que a pessoa crie uma afetividade por aquele objeto”. Essa página gigante vem dobradinha – e o leitor precisa abri-la, como uma sanfona, para vê-la em sua totalidade. “É como um pensamento que se conecta a outro, e depois se conecta a mais um, sem quebras, da mesma forma que nossa mente funciona.”

Baralho...

O quarteto Digo Freitas (C24), Rafael Marçal (C01-02), Wesley Samp (C01-02) e Grazi Diffonso deu sequência a um projeto lançado ano passado na própria CCXP, a série Quadrinhos do Baralho. O nome já entrega o conceito: são quadrinhos em cartas de baralho. Para ler as quatro histórias de faroeste, uma de cada autor, basta organizar as cartas de acordo com os naipes, na sequência numeral. “A equipe tinha uma parceria grande desde a época em que fazíamos um podcast juntos. E, na época, sempre discutimos qual seria um bom formato para um projeto físico”, comenta Digo Freitas. “Já tínhamos a Grazi experiência de fazer coletâneas em quadrinhos, então não foi difícil se organizar para montar as histórias.”

HQ ou Cartas?

Expandir o trabalho para outras mídias é o que também faz Gabriel Góes (J07) e o pessoal do selo independente Pé-de-Cabra. Na série Wunder Toy Comics™, que ganha seu terceiro volume, chamado Super Battle Monsters, são publicadas histórias de super-heróis inspiradas em – ou melhor, roubadas dos – clássicos do gênero, subvertendo o conceito básico de pessoas em colantes. “É meio que metade representando meu amor por super-heróis e metade meu ódio por esses personagens inseridos na sociedade de consumo”, analisa Goés. “Tento ficar dentro de um território no qual as pessoas reconhecem a coisa, mas ao mesmo tempo nunca viram aquilo”. As características desse tipo de história são apropriadas pelo autor, de forma a servir a outros propósitos, como o humor e a crítica social. Daí veio a vontade de fazer bonecos em vinil dos monstros presentes nas páginas, assim como criar um jogo de cartas espécie “Super Trunfo”. Para burlar o sistema, é preciso fazer parte dele.

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