Foto de CCXP19

Créditos da imagem: Pérola Dutra/I Hate Flash/Divulgação

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Laerte e Rafael Coutinho falam sobre quadrinhos e política na CCXP19

Dupla foi destaque em painel na quinta-feira (5)

Érico Assis
06.12.2019
12h03

“Eu me sinto meio estrangeira nesse evento. Mas também me sinto familiarizada. Nessa grande profusão de produções que se vê aqui, eu sinto que funciona a linguagem da política.” Foi assim que Laerte, convidada da CCXP19 e uma das autoras mais importantes na história do quadrinho brasileiro, concluiu um raciocínio sobre a relação entre quadrinhos e política. Era o tema da Masterclass que ela e o filho, Rafael Coutinho, comandaram na quinta-feira (5), no auditório Prime.

Foi Rafael – autor de O Beijo Adolescente, Mensur, Cachalote e outros quadrinhos – quem começou o papo, comentando que, em primeiro lugar, é impossível separar quadrinhos de política. “Qualquer produção artística é um ato político. Eu acho até que não falar de política é um ato político”, comentou.

Laerte emendou dizendo que havia se preparado para a fala do dia lembrando de Fahrenheit 451, o filme de 1966 dirigido François Truffaut, baseado no livro de Ray Bradbury. A história é uma distopia, um futuro no qual as pessoas são proibidas de ler e todos os livros são queimados. Laerte comentou uma cena marcante: uma personagem lê um jornal que, dada a proibição das letras, só tem quadrinhos.

A cena tem dois significados para a autora. Primeiro, que é reflexo da época, em que se acreditava que os quadrinhos eram “despolitização”, que não promoviam pensamento crítico nem político e por isso não eram considerados “perigosos” como os livros. Laerte disse que o filme não teria uma cena assim se fosse filmado hoje. A segunda leitura da cena é que, na época, distopias como essas apareciam no cinema e na literatura como absurdos a que o mundo nunca ia chegar. “O futuro ia ser luminoso”, disse Laerte. “Mas, agora, estamos cada vez mais perto de viver essas distopias.”

“A história da produção de quadrinhos mostrou que muitas obras são altamente politizadas e altamente eficientes no sentido de provocar reflexões”, ela continuou. “Você tem discussões que são políticas inclusive em produções comerciais, com super-heróis, como é o caso de Coringa e Watchmen.”

Laerte lembrou que entre sua geração – onde incluiu Angeli, Glauco e Luiz Gê – o cartum e as charges eram mais atraentes aos desenhistas brasileiros por serem linguagem rápida e que muitas vezes tinha comentários que passavam batido pela censura durante a ditadura (1964-1985). Entre estes autores, o quadrinho só ganhou força como linguagem nos anos 1980, quando a ditadura estava acabando.

“Via-se o quadrinho, mesmo as tiras, como lugar para histórias de costumes. E como escapismo”, Laerte comentou. “Mas depois se encontrou um jeito de amalgamar a tradição da discussão política a essa linguagem escapista.” 

Foi aí que entrou o comentário sobre a CCXP em si: sobre sentir-se estrangeira no evento – que ela vê como um prolongamento e uma mistura das feiras de literatura e dos salões de cartunismo de décadas passadas – mas ao mesmo tempo ver uma troca importante no ambiente que reúne grandes produções de estúdios de cinema e a variedade de quadrinhos alternativos.

“Dou aulas e meus alunos pegam tiras ou quadrinhos e dizem: ‘viu esse meme?’”, contou Rafael Coutinho, que explicou que esta visão dos memes tem muito a ver com como se pode perceber política na CCXP. “Hoje se aceita que podemos discutir política através da indústria do entretenimento, das marcas. A militância acontece com Emicida e Karol Conka vestindo Nike e Adidas. Tem política nesse marketing e se aceita que isto é política, mesmo que venha do marketing.”

Rafael continuou: “O Artist’s Alley é reflexo da organização politizada do evento. Trazer mais minorias pro AA é política. Trazer jovens de periferia para o evento é política. Pode parecer um viés louco para se discutir política, mas é muito atual.”

Respondendo uma pergunta sobre representatividade nos quadrinhos e em outras mídias, Rafael disse que tem uma relação conflitante com a ideia: “A gente espera, hoje em dia, que as indústrias do entretenimento nos ‘representem’. Se pede coisas da Marvel, por exemplo, ela atende, e aí se agradece a ela como se fosse o estado. Por outro lado, sim, ter personagens negros, mulheres, gays etc. mais presentes muda o jogo na vida de uma criança que vem desses grupos e antes só via personagens homens brancos.”

Questionada se concorda com as declarações de Alan Moore contra o cinema de super-herói, Laerte respondeu que, apesar de achar Moore um gênio, não falaria igual a ele. “Para mim, fica claro que você pode produzir resultados com qualquer linguagem. Olha o que se fazia com novelas, da Rede Globo, na época do Dias Gomes, um trabalho de construção com boas reflexões democráticas dentro de um formato, a telenovela, que sempre foi visto como coisa escapista. A arte e o poder vêm de lugares surpreendentes.”

CCXP19 acontece de 5 a 8 de dezembro, no São Paulo Expo, com todos os ingressos esgotados. Acompanhe a cobertura do Omelete no siteTwitterFacebookInstagram e TikTok, além das lives no canal do YouTube.

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