Trina Robbins, Kelly Sue DeConnick e Gail Simone

Créditos da imagem: CCXP/Divulgação, CCXP/Divulgação, Gail Simone/Reprodução

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Notícia

Três autoras e uma missão: mostrar que lugar de mulher é nas HQs

Convidadas da CCXP, Trina Robbins, Gail Simone e Kelly Sue DeConnick brigam há anos por espaço e melhores histórias para as mulheres

Natalia Engler e Nicolaos Garófalo
06.11.2020
13h40
Atualizada em
06.11.2020
21h30
Atualizada em 06.11.2020 às 21h30

Trina Robbins, Gail Simone e Kelly Sue DeConnick fazem parte de gerações diferentes e têm trajetórias bastante particulares, mas dividem a paixão por uma mesma causa: garantir que as mulheres tenham cada vez mais espaço nas pranchetas e nas páginas das histórias em quadrinhos. E as três falarão sobre suas carreiras e paixões em painéis da CCXP Worlds: A Journey of Hope, que acontece de 4 a 6 de dezembro.

Trina Robbins

Trina Robbins, a primeira mulher a desenhar a Mulher-Maravilha

Trina Robbins

Robbins pode ser considerada a santa padroeira das mulheres nas HQs: ela literalmente começou essa briga quando era tudo mato. Foi pioneira nos quadrinhos underground dos anos 1960, liderou uma revolta de personagens femininas na primeira revista de autoria totalmente feminina, foi a primeira mulher a desenhar a Mulher-Maravilha depois de 45 anos e, aos 82 anos, continua uma importante missão como historiadora das mulheres nos quadrinhos, recuperando o trabalho de artistas que acabaram esquecidas pela história.

Simone, 46, chamou a atenção da indústria com o site Women in Refrigerators [mulheres na geladeira] em que, com outras fãs de quadrinhos, discutia inúmeros exemplos do banalizado clichê de matar, estuprar, torturar ou ferir personagens femininas como forma de dar motivação para a jornada dos personagens masculinos. A veia crítica abriu as portas para uma carreira que levou Simone a escrever histórias de personagens como a Mulher-Maravilha, Batgirl, Aves de Rapina, Deadpool e Superman, entre outros, e ela continua a ser uma das principais vozes em defesa da diversidade nos quadrinhos.

Já DeConnick, 50, tem talvez o início mais curioso desse trio. Criada em diferentes bases militares norte-americanas ao longo de sua infância, a roteirista cresceu lendo gibis da Mulher-Maravilha, mas começou sua carreira escrevendo diálogos para modelos de revistas masculinas. A quadrinista também trabalhou como tradutora de mangás antes de começar a escrever quadrinhos, na metade dos anos 2000. Desde então, DeConnick se tornou um dos nomes mais importantes da nova geração da indústria, seja por suas elogiadas passagens em Capitã Marvel e Aquaman, ou por seus títulos autorais Pretty Deadly e Bitch Planet. E, além de sempre proclamar seu feminismo, em 2016 ela iniciou a campanha #VisibleWomen no Twitter, para mostrar que as mulheres estão fazendo quadrinhos e chamar atenção para seus trabalhos.

Mas mais que defenderem abertamente mais espaço e melhores representações para as mulheres nos quadrinhos, essas mulheres têm também ajudado a mudar a indústria por dentro, deixando suas marcas em personagens muito conhecidas e amadas.

Capa do jornal It Ain't me Babe, de Trina Robbins

No caso de Robbins, é até difícil escolher entre os incontáveis feitos que ela acumulou em uma carreira de mais de 50 anos, mas seu papel pioneiro talvez valha a nota. Depois de se envolver com a cena musical dos anos 1960, amiga de gente como o vocalista do The Doors Jim Morrison, ela começou a abrir caminho na cena dos quadrinhos undergrounds, onde era uma das poucas mulheres - e não muito bem vista por suas ideias feministas. 

Mas essas ideias foram o que a levaram ao jornal feminista It Ain't me Babe, onde encabeçou uma edição em quadrinhos totalmente escrita e desenhada por mulheres, a primeira do tipo, em 1970. A capa trazia a Mulher-Maravilha e outras personagens marcantes, como a Luluzinha, marchando contra as tramas clichês dos quadrinhos. Do lado de dentro, Supergirl mandava o Superman passear, Veronica largava Archie para ficar com Betty e Luluzinha respondia com um palavrão quando Carequinha lhe dizia que meninas não podiam entrar.

"Tenho muito orgulho de ter produzido a primeira revista em quadrinhos só com mulheres. E tenho muito orgulho da história que fiz para a primeira edição de Wimmen's Comix [1972]. Foi a primeira história em quadrinhos sobre uma lésbica assumida, era uma história sobre a minha roommate, Sandy", conta Robbins ao Omelete.

Alguns anos mais tarde, em 1986, ela voltaria a desenhar a Mulher-Maravilha, dessa vez nos quadrinhos oficiais da heroína, tornando-se a primeira mulher responsável pela arte das HQs de Diana, personagem que Robbins acompanhava desde criança. "Eu lia quadrinhos quando era pequena e os únicos que eu gostava eram os que tinham mulheres como protagonistas, não só as namoradas que eram salvas pelos super-heróis, mas que lutavam e pensavam. E a Mulher-Maravilha era tudo isso, claro. Ela era certamente uma das mais poderosas, uma amazona que vivia em uma ilha onde os meninos não eram permitidos. Eu achava isso muito poderoso, porque vivia em uma época em que as meninas não podiam fazer um monte de coisas", relembra.

Como não podia ser diferente, sua versão da Mulher-Maravilha retornou às origens feministas da personagem, que haviam se perdido com o tempo, recriando o estilo das histórias do criador da heroína, William Moulton Marston, um declarado defensor das mulheres já nos anos 1940. E Robbins é implacável com transformações que a personagem sofreu mais tarde, em especial o trabalho do brasileiro Mike Deodato Jr. nos anos 1990. "Me desculpe, mas é simplesmente uma pin-up horrivelmente hipersexualizada", diz, indignada.

Mas ela é otimista e acha que a indústria dos quadrinhos está se adaptando. "Demorou muito pra que a indústria de quadrinhos norte-americana entendesse que havia 52% da população que compraria quadrinhos se fizessem histórias que não insultassem as mulheres. Mas eles entenderam e têm produzido muito mais HQs voltadas tanto para homens quanto para mulheres. E temos muitas mulheres desenhando e escrevendo quadrinhos. E as mulheres que estão trabalhando com quadrinhos não vão parar. Elas pegaram embalo, são todas feministas e não vão parar o que estão fazendo", acredita.

Gail Simone posa com com cosplayers das Aves de Rapina

Uma dessas mulheres é certamente Gail Simone. Se Robbins foi responsável por fazer a Mulher-Maravilha retornar a suas origens feministas, Simone trouxe pela primeira vez, de forma mais prolongada, histórias da heroína contadas de um ponto de vista feminino. "Mesmo com esse legado feminista, muitas das suas histórias não partiam de uma perspectiva feminina. Eu queria mostrar como seria diferente se realmente estivéssemos vendo as coisas pelo seu ponto de vista, ou pelo ponto de vista de outras mulheres ou de alguém que não fosse o típico 'olhar masculino'", conta a autora.

Simone trouxe essa perspectiva para a forma como reimaginou o nascimento de Diana, por exemplo, no arco reunido com o título de O Círculo (2008). "Ela foi criada numa ilha só de mulheres. E como seria se mais ninguém pudesse ter filhos e Hippolyta tivesse um bebê? Que tipo de emoções isso traria pra ilha? Naquela época, eu era a única mulher escrevendo Mulher-Maravilha por mais tempo que já tinha dado à luz, então eu queria que fosse um pouco sombrio, e assustador, e trazer um pouco de angústia e conflito", relembra.

Cena da HQ Mulher-Maravila: O Circulo

"Eu queria mostrar a humanidade e não pedir desculpas pela feminilidade. Sempre pensei: Sabe, temos essa única grande heroína. Os caras têm milhares de heróis, têm masculinidade pra todo lado. Vamos focar no fato de ela ser uma mulher e não vamos pedir desculpas por isso", ri.

E Diana não foi a única personagem super conhecida em que Simone tentou imprimir uma visão menos estereotipada. Ironicamente (ou não), a autora escreveu muitas histórias das Aves de Rapina com Barbara Gordon, a Batgirl, depois de ela se tornar a Oráculo - codinome que adota depois de ser alvejada pelo Coringa e ficar paraplégica em A Piada Mortal, um típico exemplo de "mulher na geladeira". Simone sempre achou importante incorporar a deficiência da personagem e só aceitou reabilitá-la quando essa decisão já não estava mais em suas mãos. 

Kelly Sue DeConnick, roteirista que transformou Carol Danvers em Capitã Marvel

"Ela é uma personagem incrível que tem uma deficiência, e eu adorava escrevê-la dessa maneira. E perder um personagem com deficiência era algo que não me parecia a melhor das ideias. Quando os Novos 52 iam acontecer, e Barbara Gordon se tornaria Batgirl de novo, eu querendo ou não, me perguntaram o que eu faria se eu fosse escrever. Respondi: 'acho que ela sair da cadeira de rodas tem que ser parte da história. Não podemos usar uma varinha mágica e fazer ela automaticamente se curar. Ela vai ter que trabalhar pra isso, vão ter questões pendentes, ela vai ter estresse pós-traumático e tudo isso, e ela vai ter que se esforçar pra ser a Batgirl de novo'. Mas ainda é muito difícil não termos a Oráculo. O Universo DC precisa de uma Oráculo, e espero que resolvam isso em algum momento", lamenta.

Assim como Simone, DeConnick também foi responsável por alterar os rumos de uma personagem clássica quando oficializou, nas páginas da Marvel, a transformação de Carol Danvers, que abandonou o manto de Ms. Marvel para assumir o posto de Capitã Marvel em 2012. Apesar de ser apontada como uma das principais responsáveis pelo crescimento do público feminino de quadrinhos por suas histórias em Capitã Marvel, Pretty Deadly e Bitch Planet, a roteirista admite que não esperava ter esse impacto na indústria. “Quando você escreve um gibi, escreve para uma pessoa, três no máximo”, conta. “Mas você está escrevendo principalmente para o ilustrador, é quase uma carta e é muito, muito pessoal”.

Politicamente ativa e conhecida por rejeitar a antiquada abordagem da “donzela em perigo” ou colocar mulheres na geladeira em suas histórias, DeConnick já foi alvo de leitores conservadores, que a acusaram de ser uma “feminista raivosa”. Embora tenha respondido da melhor maneira possível, entregando elogiados trabalhos, a roteirista diz entender a reação acalorada que segue uma grande mudança no status quo da indústria. “Há uma nostalgia associada a esses personagens ou as pessoas se identificam com esses personagens ao ponto de sentirem que são donos deles. E eu acho que isso é ótimo”, contou a quadrinista. “E se a interpretação de outra pessoa desse mesmo personagem for diferente, está tudo bem. Não torna a sua interpretação menos válida”. Para DeConnick, nenhuma mudança feita por nenhum autor pode afetar o que determinados personagens e histórias significam para os leitores.

Carol Denvers, a Ms. Marvel que se tornou Capitã Marvel

Apesar de ser uma grande defensora da representatividade nos quadrinhos, DeConnick rejeita a tese de que é necessário fazer parte de um grupo específico para escrever sobre personagens que também pertençam a ele. Escrevo personagens masculinos o tempo todo e não acho que eles sejam menos autênticos por eu nunca ter vivido como um homem, argumenta. Todo personagem que você escreve é como você imagina que é ver o mundo de outra perspectiva. Ainda assim, ela entende que existe a necessidade de dar voz a indivíduos que foram excluídos da indústria por gerações. É muito importante que as pessoas que foram marginalizadas e impedidas de contar suas histórias recebam apoio.

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