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CCXP23 | Temáticas brasileiras se consolidam na produção nacional de HQs

Quadrinhos que comentam a realidade do País ajudam a entender melhor a diversidade de nossa sociedade

Omelete
6 min de leitura
03.12.2023, às 11H45
ATUALIZADA EM 03.12.2023, ÀS 14H45
ATUALIZADA EM 03.12.2023, ÀS 14H45

As HQs nacionais premiadas internacionalmente nos últimos anos (com mais destaque, os trabalhos de Marcelo D’Salete e Marcello Quintanilha) mostram recortes da vida cotidiana brasileira. Mas o fato é que, andando pelo Artists’ Valley da CCXP23, vê-se que esse “gênero”, se é que pode ser chamado assim, não existe por aspectos mercadológicos, somente para exportação: inúmeros artistas têm interesse genuíno em narrar diferentes aspectos de nossa vida, de nossas coisas, de nossa gente. A seguir, alguns recortes temáticos para se ficar de olho.

CRENÇAS

Ainda estigmatizadas e perseguidas por parte da população em pleno 2023, as religiões de matrizes africanas – traço tradicionalíssimo de nossa cultura – encontram nos gibis um local de respiro e florescimento. A série Orixás, criada por Alex Mir (L37), ganha seu oitavo álbum, O Monstro do Vale, com participação de Bruno Brunelli (C14), Laudo Ferreira (A25) e Marcel Bartholo (A24). “Quando li a primeira lenda da mitologia iorubá, falei ‘isso é quadrinho’. Realmente me apaixonei por aquilo e também pela ideia de dar representatividade para a pessoa da umbanda, do candomblé”, recorda Mir. “Pra mim, foi muito importante iniciar esse trabalho lá em 2007, 2008, porque era um público que necessitava dessas obras. Não faço só porque vende, mas porque gosto.”

O baiano Hugo Canuto (B21-22), com seu arrasa-quarteirão Contos dos Orixás, é outro a explorar o tema, fazendo uma releitura moderna do visual maior que a vida dos super-heróis desenhados por Jack Kirby. O Rei do Fogo, segundo álbum da série iniciada em 2019, mal foi lançado e está na segunda tiragem – a primeira parte da saga já chegou à quinta reimpressão, quase vinte mil exemplares vendidos. “É uma maneira de remar contra a maré e produzir conteúdos culturais que falem a partir do Brasil, alcançando um público de todas as vertentes, sejam leigos ou iniciados, e que sirvam como instrumento de educação, entretenimento e também para a mudança da percepção das pessoas”, reflete o autor.

HISTÓRIAS ESCONDIDAS

O futebol feminino no Brasil foi proibido por lei por quase quarenta anos. Com vontade de entender o que as mulheres apaixonadas pelo esporte faziam para burlar a cadeia naquele período, Lalo Sousa (L26) e a pesquisadora Lu Castro utilizam uma notícia real de jornal de 1979, a respeito de um campeonato jogado por trabalhadoras de boates no centro de São Paulo, para imaginar tal torneio em E a Boca do Luxo Entra em Campo. “Naquele ano, caiu a proibição, apesar de o futebol feminino não ser regulamentado. Então, digamos que, mesmo com a prática tendo deixado de lado a conotação criminal, ainda era ilegal”, explica Lalo. “É um pedaço importante de nossa trajetória: mulheres marginalizadas ocupando a várzea e usando seus corpos de outras formas. Elas amavam futebol, pois o brasileiro ama futebol, e elas também eram brasileiras.”

No já clássico Beco do Rosário, Ana Luiza Koehler (L19-20) teceu um retrato social sobre a época da urbanização de Porto Alegre, nos anos 1920, retratando como a busca pelo desenvolvimento exclui os menos favorecidos. Agora, ela volta aos mesmos personagens para seguir sua investigação em Viaduto, da editora Veneta, que explica a história da construção do Viaduto Otávio Rocha, projeto responsável por mudar a cara da capital gaúcha para sempre. “Naquele momento, cerca de dez anos depois de Beco do Rosário, a cidade estava se verticalizando. Muitos dos incidentes desenhados realmente aconteceram, são frutos de pesquisa em jornais e revistas da época”, afirma Ana. “Não acho difícil costurar elementos históricos em tramas de ficção – aliás, eu adoro fazer (risos). Basta ficcionalizar esses fatos por meio de personagens que poderiam ter existido na época, imaginando como teriam vivido com base na experiência de pessoas reais.”

DETALHES DA VIDA URBANA

Em Dope 2, Edson Bortolotte (L36) segue com a série indicada ao Prêmio HQMIX na categoria Publicação Independente Seriada, contando como uma professora desempregada acaba por trilhar um caminho no mundo do crime. “É preciso informar aos leitores que existem outros tipos de histórias mais próximas de nossa realidade, com sentimentos mais pesados e sofrimentos mais palpáveis”, alerta o artista. “Nos meus quadrinhos, falo de gente periférica da metrópole, que tenta quebrar o molde de seu destino – só que, pelas situações do mundo, acabam caindo em outros moldes dos quais sempre tentaram fugir.”

Pedro Vó (L33) também se volta a vidas invisíveis: A Coleta trata da rotina de catadores de materiais reciclados, atividade essencial para a vida na cidade grande. O gibi (contemplado por edital do ProAc, do governo do Estado de São Paulo) compartilha com o leitor as dificuldades e conquistas de três profissionais, moradores da capital paulista. “No Brasil, os catadores são responsáveis por mais de 90% da reciclagem. Não é empresa, setor público ou ONG quem faz isso: é esse trabalho de formiguinha. Além disso, 70% dos trabalhadores na função são mulheres negras”, revela o quadrinista. “O que mais quero é conscientizar sobre o tema, mas sem um tom didático. É uma obra de jornalismo, porém eu diria que está também no campo da crônica, pois tem muita poesia que se sobrepõe à questão dos dados.”

PESSOAS

Das grandes personalidades nacionais vivas, o Padre Júlio Lancellotti virou estrela de HQ emPobrefobia – Vivências das Ruas com Padre Júlio Lancellotti, da editora Draco. Luiza Lemos (L09-10), Rogério Faria (F06), Lila Cruz (L34) e Raphael Salimena (J07) imaginaram personagens ficcionais baseados na realidade de pessoas em situação de rua. “Rogério passou meses acompanhando a roda de apoio psicológico que o Padre Lancellotti faz com essa população vulnerável, um trabalho que muita gente até mesmo desconhece”, explica Luiza Lemos. “Pelo que eu entendo do cristianismo, pois já fui de igreja cristã, Jesus cuidava das pessoas à margem da sociedade, andava com elas – o oposto do que muitos líderes religiosos populares pregam para seus fiéis hoje em dia . Então, o Padre Lancellotti tem uma importância enorme para a cultura da solidariedade e do amor em nossa sociedade.”

As obras jornalísticas de Pablito Aguiar (F11) direcionam o olhar do leitor para o brasileiro comum. Nesta CCXP, ele lança Conversas em Porto Alegre, livro que contém entrevistas com moradores da capital gaúcha (de porteiros a quilombolas e pescadores), realizadas ao longo de cinco anos, sempre focadas no aspecto miúdo do cotidiano. Em Marisqueiras, por sua vez, Aguiar foi até Salvador para conhecer a rotina de duas mulheres que vivem da cata de mariscos. “Vejo muita riqueza em ouvir as pessoas. Por isso, procuro preservar o modo como falam. De certa forma, o que faço é uma homenagem à vida delas”, pondera. “É um trabalho que me faz bem, já que me oferece muitas experiências, me enriquece como ser humano, e acredito que acabe fazendo bem também a essas pessoas, por valorizá-las por meio da arte.”

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