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Lá Fora

Batman R.I.P. e Watching the Watchmen

Érico Assis
23.11.2008
21h00
Atualizada em
29.06.2018
02h31
Atualizada em 29.06.2018 às 02h31
BATMAN: R.I.P.

Watching the Watchmen

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Lá Fora

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Batman RIP

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Leitores do Omelete estão perguntando que diabos é essa tal de "Batman: R.I.P.", a história rolando nas bat-séries dos EUA e que promete tirar Bruce Wayne de circulação. A Lá Fora, então, encarou o desafio de explicar a bizarra bat-saga.

É um desafio mesmo. "R.I.P." é, até agora, a bat-história mais estranha de Grant Morrison, que demanda um cérebro atento para montar o quebra-cabeças e um certo conhecimento (que o Google, bem usado, resolve) sobre histórias obscuras do bat-passado. Em alguns pontos, ela é tão complicada quanto os trabalhos mais herméticos de Morrison, como The Filth.

Em suma, é o seguinte (contém SPOILERS): anos atrás, Bruce Wayne esteve envolvido em um projeto secreto para criar Bat-substitutos. O psiquiatra Simon Hurt implantou uma sugestão pós-hipnótica na cabeça do herói - quando ele ouvisse a frase "Zur En Arrh", ficaria mentalmente incapacitado - e o fez esquecer desta aventura.

Agora, Hurt juntou-se a um grupo de vilões de última categoria para formar o grupo Mão Negra, com o plano definitivo para derrotar Batman. Ouvindo "Zur En Arrh" - que é referência a uma bat-história dos anos 50 na qual ele ganhava superpoderes -, Bruce Wayne "desliga" a personalidade Batman. Porém, preparado, o herói já tinha uma outra identidade para assumir caso fosse atacado mentalmente: o Batman de Zur-En-Arrh, com um terrível uniforme vermelho e amarelo sob o manto.

Resultado: Bruce Wayne está rondando as ruas de Gotham City, totalmente insano, ouvindo instruções do duendezinho Bat-Mirim e até conversando com os gárgulas nos prédios da cidade. Enquanto isso, Alfred está sendo torturado pelo Mão Negra (que tomou a Batcaverna), Asa Noturna está preso no Asilo Arkham e Robin tenta tudo ao seu alcance para resolver a situação.

Entendido? Não? Bom, ainda tem toda uma parte sobre o período de meditação a que Batman se submeteu em 52, que é importante para a nova história, bem como tudo que Morrison escreveu com o personagem nos últimos anos. Você vai ter que ler.

E prestar muita atenção: Morrison, como fez em Sete Soldados da Vitória, quer criar uma história que se mova rapidamente, sem tempo para explicações (meio confiante no poder da Internet, achando que os fãs vão juntar as peças juntos, conversando em fóruns - como acontece com Lost). Há detalhes importantes que são mostrados em um único quadro, às vezes somente com uma imagem. Não é o seu gibi feijão-com-arroz.

Prejudica bastante esta estratégia termos um péssimo desenhista: Tony Daniel, chamado às pressas para substituir Andy Kubert (lento demais para manter um ritmo mensal), e que combina estilos que às vezes lembram o Batman dos anos 30 e 40 e outras vezes os piores desenhistas de mangá que você conhece. Daniel foi recentemente anunciado como roteirista (!) de Battle for the Cowl, minissérie que começa a partir de março para decidir o Bat-futuro.

O último capítulo de "R.I.P." sai nos EUA na semana que vem, em Batman #681. Os fãs esperam que a edição ponha os pontos nos is quanto ao que está acontecendo - e ao que acontecerá.

O que se comenta entre os fãs é que, com histórias confusas como essa, Grant Morrison está deixando um certo mal estar na DC. Final Crisis, o evento DC do ano, que ele está escrevendo, sofre dos mesmos problemas e os fãs têm reclamado - o que fica pior quando o escritor atrasa a entrega dos roteiros e o andamento da saga planejada pelos editores. Segundo Rich Johnston, da coluna de boatos Lying in the Gutters, os planos de Morrison continuar com Batman em 2009 já podem ter sido cortados pelo editor-chefe da DC, Dan Didio.

Enfim, é uma história aparentemente importante, mas que parece estar sofrendo com o período instável pelo qual a DC Comics está passando. O resultado positivo é que "R.I.P." vai desembocar em uma promissora bat-história escrita por Neil Gaiman, que sai em janeiro. Já a conversa sobre Batman ser substituído - o que aconteceu umas 80 vezes nos 70 anos do personagem - não estimula ninguém a continuar lendo Bat-gibis, estimula?

WATCHING THE WATCHMEN

O primeiro problema de Watching the Watchmen é que há uma presença invisível, mas palpável, rondando suas páginas. É Alan Moore, referenciado aqui e ali, mas ausente na produção do livro. Uma ausência bem pesada, considerando que é um documento sobre sua obra-prima.

Watching the Watchmen é daqueles livrões de arte grandes, pesados, caros, em capa dura e papel especial. Sua proposta: revelar o processo de criação de Watchmen, considerada o Cidadão Kane dos quadrinhos - a melhor HQ ("de super-heróis", alguns especificariam) já lançada. Como Moore não queria falar disso - é parte de sua campanha de boicote total a tudo que diga respeito à DC Comics e ao oba-oba em torno de Watchmen: O Filme -, sobrou para seu parceiro Dave Gibbons assumir o livro, publicado pela editora inglesa Titan Books.

O segundo problema é justamente Gibbons. Sempre tive a impressão de que o desenhista foi escolhido por ser um bom exemplo dos desenhistas de super-herói meia-boca dos anos 70 e 80. Moore precisava de um artista genérico justamente para criar uma obra que atacava os clichês dos quadrinhos de super-heróis genéricos.

Convenhamos: Gibbons é tecnicamente muito bom, mas nenhum grande destaque em arte ou criatividade.

Convenhamos 2: com os roteiros detalhadíssimos de Moore (às vezes quatro páginas escritas para descrever um único quadro de uma página da HQ), um desenhista tem que ser muito ruim para fazer feio.

Convenhamos 3: sempre tive um sonho de ver Watchmen desenhada por Brian Bolland, com um nível de detalhamento fantástico para uma história já cheia de detalhes significativos. Mas, poeticamente, não funcionaria: era preciso um desenhista médio, um "qualquer", para que Watchmen tivesse o impacto que tem sobre o gênero dos super-heróis.

Convenhamos 4: o caso de John Higgins e suas cores estrambólicas é o mesmo - ele e Gibbons foram "usados" por Moore.

(Nada disso são fatos, mas sim uma tese - que está aberta para discussão.)

O terceiro problema de Watching the Watchmen é, novamente, culpa de Gibbons: falta texto. Uma entrevista regular com Alan Moore é mais longa do que a quantidade de texto que Gibbons escreveu para as 250 páginas do seu livro. Ok, é um livro de arte, o foco são as imagens, mas eu tinha toda uma expectativa de comentários amplos e embasados sobre o processo de criação de uma obra complexíssima como Watchmen, que simplesmente não estão lá.

Há um capítulo do livro dedicado a cada uma das 12 edições originais da série - e em alguns destes Gibbons simplesmente não escreve nada. Apenas reproduz fotos de seus esboços originais, compara com a versão final e pronto. Cada cena de Watchmen é carregada de significados que você adoraria saber como foram construídos - e fica frustrado. Ou, mais uma vez, pensando como seria se Moore tivesse escrito o livro.

O quarto problema de Watching the Watchmen é que todo fã de Watchmen precisa dele. Por mais que faltem coisas, o relato de Gibbons insere você minimamente naquele ano e pouco em que ele passou desenhando a maior HQ de todos os tempos - sabendo que estava fazendo algo grande, mas sem noção das proporções que a obra tomaria.

E só não é fã de Watchmen quem ainda não leu. Portanto, comece a guardar a grana (ou escreva cartinhas para o Papai Noel, que também deve ser fã de Watchmen) e abra espaço na prateleira.