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HQs de luto por Julius Schwartz

HQs de luto por Julius Schwartz

Pedro Hunter
16.02.2004
00h00
Atualizada em
29.06.2018
02h32
Atualizada em 29.06.2018 às 02h32

Ambush Bug

Faleceu no dia 8 de fevereiro, o veterano editor da DC Comics Julius Schwartz. Ele tinha 88 anos de idade.

Julius Schwartz foi um dos pioneiros da subcultura dos fanzines. Em 1932, criou em parceria com Mort Weisinger, seu amigo e também futuro editor da DC Comics, The time traveler, considerado primeiro fanzine de ficção científica da história.

Mais tarde, ainda em parceria com Weisinger, tornou-se agenciador de escritores de ficção científica. Nessa função, foi o responsável pela venda dos primeiros contos publicados de autores do calibre de Ray Bradbury e H. P. Lovecraft!

Isso seria o suficiente para colocar o seu nome na história da cultura de massas, mas Schwartz não parou por aí. Em 1944, com o declínio dos pulps de ficção científica devido à escassez de papel durante a Segunda Grande Guerra, foi trabalhar na DC Comics. De acordo com ele próprio, nunca lera antes uma HQ, tendo folheado a primeira a caminho da entrevista!

Schwartz, todavia, adaptou-se rápido à função (e às HQs, que se tornaram uma de suas paixões) e rápido virou um dos editores mais importantes da DC Comics. Alguns de seus primeiros lançamentos, na editora, vieram de sua experiência em ficção científica, séries como Mistery in space e Strange adventures.

Entretanto, a contribuição mais importante de Schwartz deu-se nos anos 50, quando teve a idéia de relançar alguns dos antigos super-heróis da DC do tempo da Segunda Guerra. O primeiro foi o Flash, que ressurgiu na revista Showcase 4 (outubro de 1956). Com o seu sucesso, seguiram-se reformulações do Lanterna Verde, da Sociedade da Justiça (agora como Liga da Justiça) e de várias outras personagens, com grande sucesso. Esse foi o início da Era de Prata das HQs americanas, que teve em Schwartz seu principal arquiteto. Convém lembrar que o sucesso da Liga da Justiça estimulou a Marvel Comics a criar sua própria superequipe, o Quarteto Fantástico, que seria a base de todos os seus títulos de sucesso...

Em 1964, Schwartz tornou-se também o editor das publicações do Batman. Imediatamente, promoveu uma reformulação que removeu da série os elementos sobrenaturais (alienígenas e afins) que tinham se tornado a muleta dos gibis nos anos 50 e devolveu o Homem-Morcego a seu ambiente natural: As ruas de Gotham City. Mais tarde, também editou os títulos durante a revolução promovida no personagem por Denny O’Neil e Neal Adams. Mesma dupla que Schwartz utilizaria na posterior reformulação do Lanterna Verde.

Enfim, em 1971, Julius Schwartz recebeu a honraria máxima para um editor da DC. Tornou-se o editor das revistas do Super-Homem, substituindo o amigo aposentado Mort Weisinger. Ele também capitaneou uma reformulação do herói e o editou até 1986, aposentando-se logo antes da reformulação deste feita por John Byrne. A última história que editou diretamente foi a célebre O que aconteceu ao Homem do Amanhã, epílogo do Super-Homem da Era de Prata assinado por Alan Moore e Curt Swan. Ele, então, recebeu o cargo simbólico de embaixador de boa-vontade da DC Comics, que manteve até sua morte.

Após a aposentadoria, publicou sua autobiografia Man of Two Worlds: My life in science fiction and comics (Homem de Dois Mundos: Minha vida na ficção científica e nos quadrinho).

Mais do que qualquer um dos editores contemporâneos da DC Comics, Julie, como era chamado pelos amigos, era adorado por praticamente todos aqueles com quem trabalhou. O melhor exemplo foi a singela homenagem que recebeu de seus colegas quando de seu 70º aniversário. A revista Superman 411 (setembro de 1985), editada e publicada à sua revelia, continha uma comovente história em que ele era o protagonista e contracenava com o próprio Super-Homem! Ao ver a homenagem, Schwartz, eterno profissional, teria comentado que estava preocupado com os leitores, que leriam uma trama diferente da prometida na edição anterior! A história, infelizmente, é inédita no Brasil.

Ele receberia uma homenagem diferente na edição especial Ambush Bug Nothing Special (setembro de 1992), escrita e desenhada por seu amigo Keith Giffen. Ambush Bug (jamais publicado no Brasil) era uma personagem humorística que o sempre insano Giffen utilizava para satirizar a DC Comics (e o Super-Homem em particular), habitualmente em séries editadas por Schwartz. Os outros funcionários da DC não morriam de amores pelo anti-herói e Giffen decidira não mais utilizá-lo, até que o próprio Schwartz foi até ele e o convenceu (e à DC Comics) a fazer mais uma aventura com o sujeito. No especial em questão, o próprio Julius Schwartz (que aparece como o antagonista de Ambush Bug) foi satirizado incessantemente (embora sem maldade) e o resultado foi uma das HQs mais hilárias da história da DC Comics e um monumento à esportividade de Schwartz (que adorou a brincadeira).

Descobridor de alguns dos maiores escritores da ficção científica, arquiteto da Era de Prata, um dos maiores editores da história das HQs e um grande ser humano. Todas essas qualidades mais do que justificam o status lendário que ele ostentava ainda em vida.

O mundo ficou mais pobre com a partida de Julius Schwartz.