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Crônicas omeléticas: O Cavaleiro das Trevas e eu

Crônicas omeléticas: O Cavaleiro das Trevas e eu

Jotapê Martins
04.04.2002
00h00
Atualizada em
29.06.2018
02h32
Atualizada em 29.06.2018 às 02h32
Eu não me lembro bem da ordem dos acontecimentos, mas, em meados da década de 80, este humilde escrivinhador ainda era tradutor da Divisão Infanto-Juvenil da Editora Abril Ltda., mais precisamente da Redação de Quadrinhos Nacionais e Estrangeiros. Nem me passava pela cabeça, montar o Estúdio Artecomix (posteriormente Art & Comics e atual Mythos Editora) com Helcio de Carvalho. No entanto, muitas novidades já se faziam anunciar nas HQs. Editoras independentes, como a First, a Eclipse e outras, estavam descobrindo as vantagens de se trabalhar com vendas diretas e, pouco a pouco, introduziam o conceito de HQ de autor e respeito aos direitos destes - noções, até então, tidas como européias demais para o mercado americano. De forma vigorosa, injetava-se novo ânimo no meio e as HQs americanas começavam a apresentar significativas reviravoltas artísticas. Até mesmo as duas grandes estavam se dando conta dos novos ventos. Em 1984, a Marvel Comics lançou um ovo podre chamado Secret Wars, o Plan 9 From Outer Space dos quadrinhos. Apesar de abaixo da crítica, essa mini-série deixava claro que a editora pretendia partir pras cabeças. Era o início de uma década de crossovers. A DC não fez por menos e publicou, no ano seguinte, a até hoje definitiva Crisis on infinite Earths. No entanto, ainda faltava o agente catalisador, aquele algo mais destinado a virar de ponta cabeça o mercado de comics no mundo todo e servir como divisor de águas na história das HQs.

No final de 1985, comecinho de 1986, já se ouvia um zum-zum-zum interessante. Frank Miller, já famoso pela revista Daredevil da Marvel, havia sido contratado com ares de superstar pela DC Comics para realizar alguns projetos especiais. O primeiro fruto dessa investida foi Ronin em julho de 1983. Foram seis edições bimestrais num formato especial em que Miller teve liberdade total de criação, desde a proposta do tema até os recursos finais de acabamento gráfico. Na época, ele aproveitou a carta branca para experimentar várias tendências e técnicas de artistas e roteiristas que já faziam sua cabeça. Foi beber em fontes européias, sul-americanas e japonesas. O resultado foi bem recebido pelo público, mas estava longe da descarga de adrenalina que haviam sido seus quatro anos no Demolidor. Em todo caso, o homem estava apenas esquentando os motores, fazendo experimentos; em suma, preparando-se pro grande evento. E, na época, o grande evento seria... um projeto especial envolvendo Batman.

Aqui, no Brasil, na Redação de Quadrinhos Nacionais e Estrangeiros da Editora Abril Ltda., as notícias foram chegando aos poucos. Cada detalhe do projeto revelava-se a conta-gotas. Primeiro, achamos que Miller assumiria a revista mensal da personagem. Só depois ficou claro que se tratava de uma mini-série. Mesmo assim, ninguém poderia imaginar que graficamente a coisa seria tão diferente do convencional. Nós já havíamos cancelado nossa primeira série do Homem-Morcego, mas os boatos avivaram a idéia de um relançamento.

A notícia de Miller na DC Comics tinha uma importância estratégica para nós da redação. O universo dessa editora havia se integrado ao rol de publicações da Abril em 1984, mas, apesar de todos os nossos esforços, ainda continuava ofuscado pelo brilho da Marvel. Nossa primeira idéia, ao sabermos da novidade, foi a de usar as novas histórias abrindo uma segunda série em formatinho do herói. Como eu disse, não tínhamos a menor noção do que estava por vir. Além do mais, em 1985, qualquer outro formato estava fora de cogitação.

Hoje, o que eu estou dizendo pode parecer esquisito dada a enxurrada de especiais, mini-séries e coisas do gênero no formato americano. Até Rob Liefeld tem publicações luxuosas. Mas, na época, o tamanho 17 X 26 era puro devaneio. E gibis de Super-Heróis não tinham a bola toda que têm hoje. A idéia de Quadrinhos Adultos era motivo de riso. Para a Abril daqueles tempos - ainda que redatores como o Helcio discordassem - qualquer gibi era tratado de uma mesma maneira padronizada e homogênea. A filosofia vigente rezava que era coisa de criança ou pré-adolescente. Super-Heróis, quaisquer que fossem, deveriam ter o mesmo tratamento que a Turma da Mônica ou os quadrinhos Disney. Para se ter uma idéia, a mesma redação que gerenciava as publicações de Mônica, Hanna Barbera, Luluzinha e Gordo e o Magro era a que cuidava de publicar os Super-Heróis Marvel e DC. Evidentemente, editores como Hélcio, Kazu Kurita, Nilton Sperb e Décio Trujillo não comungavam dessa cartilha e tentavam diferenciar tais publicações das outras, mas, nas decisões de alto nível, eles jamais eram consultados.

Mas voltando à vaca quente... Com a chegada de mais informações, a empolgação de início começou a azedar e virou frustração. Pouco a pouco, fomos nos dando conta do que realmente seria o projeto de Miller para o Batman. Quatro edições de quarenta e oito páginas, num formato de luxo inédito que se chamaria Prestige, em papel de primeira qualidade, com todos os requintes gráficos que todo fã de quadrinho sempre sonhou, mas, até então, nunca tinha tido. A mesma carta branca de Ronin agora seria empregada para virar de cabeça para baixo o Cruzado de Capa. Paradoxalmente, a pompa e circunstância do lançamento que hoje deixaria qualquer editor HQ lambendo os beiços, para nós, da redação, foi como uma ducha de água fria. Claro que seria maravilhoso tamanho banquete de HQ, mas, diante das circunstâncias, jamais seria editado aqui. Não nas condições em que trabalhávamos. E, se na época, a Abril não publicasse, ninguém mais o faria. Não havia concorrência.

No entanto, o oba-oba em cima da publicação mudou todo o panorama. A obra de Miller, antes mesmo de ser lançada, começou a atrair a atenção de gente que nunca tinha lido gibi. Como um furacão, foi invadindo todas as mídias, ganhando páginas de jornais, sendo comentada na TV e na rádios. De uma hora pra outra, todo mundo falava do novo Batman. No meu entender, o que deixou claro que o projeto tinha caído nas graças da mídia foi a famosa entrevista de Miller à revista Rolling Stone. Muita gente da imprensa, que jamais olharia de relance para um gibi, começou, então, a se interessar por aquele Homem-Morcego "diferente" que a DC Comics estava prestes a lançar.

As capas nacionais de Cavaleiro das Trevas

Quando finalmente, a mini-série chegou à mão dos leitores, o resultado superou exponencialmente as expectativas. Eu me lembro do momento em que li a primeira edição. Como muitos outros privilegiados, a redação recebeu uma cópia xerox da arte-final antes da colorização de Lynn Varley. Estava em cima da mesa do Helcio, tinha acabado de chegar. Eu fiquei magnetizado. Comecei a ler ali mesmo e não consegui parar até chegar à última página. Lá estava a síntese de cinqüenta anos de Homem-Morcego com o toque pessoal de Frank Miller. A trama enxuta, a legião de coadjuvantes, cada um com sua história para contar, a Gotham City feita personagem, a televisão massificada como espelho da opinião pública, o viés político, o silêncio polêmico do Cavaleiro das Trevas, o Super-Homem definitivo, o mito reduzido a seus componentes básicos, enfim, tudo confirmava que Frank Miller havia encontrado a pedra filosofal do Batman, procurada, desde a década de 70 por roteiristas e desenhistas como Neal Adams, Dick Giordano, Denny O’Neil, Frank Robbins e Marshall Rogers. Todos esses tinham vislumbrado o Eldorado. Apenas Miller o encontrara. Era a maior história em quadrinhos que eu já havia lido. E o melhor de tudo: EU É QUE IA TRADUZIR.

Mas estou pondo o carro na frente dos Bois. Falta contar como se decidiu publicar Batman - o cavaleiro das trevas no Brasil. Para tanto, duas coisas garantiram as condições necessários. A primeira delas de caráter apenas cosmético. O Homem-Morcego de Frank Miller foi primeira página do recém-lançado Caderno 2 do Estado de São Paulo, merecendo grande destaque nas suas páginas internas. O design gráfico daquela edição acabou conferindo prêmios ao Estadão. O artigo, em meio a um amontoado de clippings, passou de mão em mão entre a diretoria da Abril. Aleluia! Estava virando questão de honra a publicação daquele material, mesmo que só pelo prestígio.

Outro fator que colaborou - este muito mais importante e decisivo - chamou-se Plano Cruzado. O ano de 1986 presenciou uma bolha de consumo como havia muito não se via no Brasil. As revistas deram saltos gigantescos de venda e todas as editoras se viram animadas a lançar mais títulos e aumentar tiragens. O projeto que parecia inviável no início do ano ganhava contornos mais factíveis.

Em início de 1987, chegava às bancas a primeira edição de Batman - o cavaleiro das trevas, a versão nacional de Batman: The Dark Knight Returns. Eu e Helcio de Carvalho tivemos o privilégio de traduzir a obra. Foi nosso último trabalho juntos como funcionários da Abril antes de montarmos o Artecomix. A apresentação gráfica do miolo não deixava nada a desejar ao original, mas a velha ordem acabou interferindo em outros aspectos. Em vez da lombada quadrada e da capa acartonada do formato prestige americano, tivemos lombada canoa e um papel de ótima qualidade, mas gramatura inferior. Todavia o que a redação de Quadrinhos Nacionais e Estrangeiros tentou mesmo evitar, sem sucesso, foi o emprego de outras capas novas que não as originais - consideradas "inadequadas" para as bancas brasileiras. Na época, e até alguns anos depois, havia, na editora, uma redação incumbida apenas de produzir as capas para todas as revistas da Divisão Infanto Juvenil. Os conceitos aplicados para uma capa de Bolinha e de Mickey eram os mesmos a serem observados para uma de Homem-Aranha. Daí, a profusão de capas de triste memória que povoaram as bancas durante anos.

Mas, entre mortos e feridos, Batman: O Cavaleiro das Trevas havia ganho as bancas de todo o país e as coisas jamais foram as mesmas.

De início, a resposta de vendas superou todas as expectativas. E não se tratou apenas de algo quantitativo, mas também qualitativo. Uma pesquisa realizada na época mostrou que universitários e profissionais liberais - leitores mais velhos do que os habituais fãs de quadrinhos - haviam devorado a publicação. Gente que nunca tinha lido HQs e outros que abandonaram os gibis aos 14 anos estavam extasiados com aquele material e queriam mais. Um nicho de mercado, até então ignorado, tornou-se evidente da noite para o dia.

Batman, o cavaleiro das trevas passou a ser exemplo citado para justificar a publicação de novos títulos voltados para um mercado mais maduro. Ele abriu portas para todas as publicações especiais da Abril desde então e indiretamente para todos os títulos de maior qualidade gráfica lançados por outras editoras.

Pouco tempo depois, veio Watchmen de Alan Moore e o conceito de publicações de luxo estava firmado no mercado de HQs do Brasil. A Abril chegou a ter uma redação só para Quadrinhos Adultos e, em 1990, a Globo - antiga Rio Gráfica Editora - sentiu-se estimulada a voltar ao mercado de HQs, lançando uma linha memorável de produtos luxuosos.

E, se hoje, podemos ler Do Inferno de Alan Moore, Último dia no Vietnã de Will Eisner, Sandman de Neil Gaiman e outros títulos de primeira linha em português, devemos isso a Frank Miller e a seu Cavaleiro das Trevas.