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Batman: White Knight | Da Frigideira

Minissérie exacerba a relação de Batman e Coringa de acordo com a polarização política do mundo hoje

Marcelo Hessel
05.10.2017
16h07
Atualizada em
29.06.2018
02h27
Atualizada em 29.06.2018 às 02h27

Como havia prometido, o desenhista Sean Gordon Murphy faz em Batman: White Knight uma atualização de temas do Batman a partir do que está na pauta do dia. Sua minissérie em oito partes, que Murphy também escreve, fala de justiça social e crises midiáticas e transporta para a rivalidade de Batman e Coringa a mesma polarização que hoje divide o debate político no mundo.

O Homem-Morcego e o seu nêmesis sempre formaram o melhor antagonismo dos quadrinhos porque representam conceitos opostos: a ordem versus a anarquia e, mesmo antes, a sisudez versus o riso. Nesta primeira edição de White Knight, que sai nesta semana nos EUA, Murphy estabelece a premissa da minissérie jogando tudo nessa polarização. Um longo flashback mostra um momento ruim de Batman, em que ele cede à violência depois de provocado pelo Coringa, para estabelecer uma trama em que o vigilante está preso no Arkham e é o palhaço quem se torna o milionário príncipe benfeitor de Gotham City.

Logo depois de retomar o diálogo consagrado, desgastado - com o Coringa instigando o Batman com o clichê do "você depende de mim para ser quem você é" - Murphy o areja no final, ao adaptar a fala do vilão ao discurso politicamente correto contra o vigilantismo e a violência policial de hoje. Murphy não fica pela metade do caminho e inclusive consuma essa ponte inserindo na ficção elementos pontuais dos EUA hoje (como quando Gordon diz que passou um ano limpando a polícia de Gotham de oficiais violentos que motivaram protestos sociais contra racismo).

A provocação de Murphy é a do cínico que assiste à erosão de instituições: a reclamação por legalismo da população é vista como condescendência aos bandidos, e o caso legal que o Coringa organiza para si processando a polícia é vista como as manobras dos advogados que transitam pelas curvas da lei. Esse cinismo não soa na HQ, automaticamente, como uma postura reativa do autor à correção política. Além de distorcer esse discurso para adequá-lo à vontade do Coringa (ou seja, para conscientemente vilanizar bandeiras de esquerda) ele também utiliza metacomentários da mídia para se descolar de uma postura reacionária que eventualmente colaria em si.

Esses metacomentários - dos analistas políticos e telejornalistas, que serve de coro para o que se desenrola na trama - são um elemento recorrente de histórias do Batman pelo menos desde que Frank Miller os consagrou em O Cavaleiro das Trevas. Dá pra notar que Murphy busca firmar sua visão pessoal no cânone oitentista porque em seguida ele aproveita o conceito de Alan Moore de A Piada Mortal de que o Coringa era um comediante fracassado antes de se transformar em vilão - ou seja, que é um personagem que acima de tudo, como diz o Batman, carece de atenção. Ao se filiar a essa linha interpretativa do Batman como uma figura política, muito forte em Miller e Moore, Murphy obviamente vai atrás de bases que justifiquem seu enfoque em White Knight.

Os desenhos continuam sendo uma atração à parte, e cabem muito bem ao flashback porque embora as figuras sejam bem definidas, os traços dinâmicos de Murphy se alongam nas cenas de ação, como se as linhas buscassem escapar dos contornos, parte de uma memória que se esvai. Rapidamente percebemos que essa memória tem para Batman um caráter de pesadelo, o que torna o desenho mais forte.

A surpresa é que Murphy mostra em White Knight #1 uma capacidade de escrever de uma forma pontual e ao mesmo tempo de desdobrar temas numa pluralidade de elementos. Ele é pontual especialmente nos julgamentos de valor (como o fato de Bullock dizer a Gordon que o comissário teria suspendido Batman por agressão se o Morcego usasse um distintivo, ou depois quando Gordon é acusado de incompetência pelo simples fato de a polícia precisar de Batman para defender a cidade).

E os temas se desdobram, particularmente, nas dicotomias de Coringa e Batman. De um lado, a mania, o ego, uma noção muito cristalina de individualismo e recompensa, que move o Coringa, e do outro a ilusão do bem público, o totalitarista que se enxerga como único responsável pelo mundo - uma interpretação de Batman que obviamente é exacerbada mas não deixa de ser verdadeira. É uma interpretação, de qualquer forma, que se presta bem a esse teatro polarizado que White Knight escolhe e começa a encenar.