HQ/Livros

Notícia

Aqui Dentro

Black Hole, Batman/Planetary, Brat Pack, Tiros na Noite, Guy Gardner, Lanterna Verde e Rex Mundi

A cozinha
13.12.2007
00h00
Atualizada em
29.06.2018
02h32
Atualizada em 29.06.2018 às 02h32

Na coluna irmã da LÁ FORA, o Omelete mergulha nas bancas e livrarias para comentar os principais lançamentos recentes. Nesta edição: Black Hole - Volume 1, Planetary/Batman - Noite na Terra, Brat Pack, Mavel Max - Tiros na Noite, Lanterna Verde Renascimento, Guy Garder - O Pacificador e Rex Mundi.

Black Hole - Volume 1
Por Érico Borgo

A Seattle dos anos 90 foi palco do movimento grunge, que mudou o rock´n´roll. A mesma cidade foi escolhida pelo quadrinista Charles Burns para sediar sua obra-prima, Black Hole. A atmosfera não poderia ser mais pertinente. A angústia jovem, personificada por Kurt Cobain, é sentida a cada página da graphic novel, e Burns dá a ela uma dimensão inexplorada pelo grunge.

Dividida no Brasil em dois volumes - o primeiro, Iniciação à Biologia acaba de ser lançado pela Conrad -, a história fala de um vírus que se espalha por adolescentes. Numa primeira leitura é fácil confundi-la com uma metáfora para a AIDS ou outras doenças venéreas. Mas Burns vai além. Uma análise mais metódica revela que a doença é social - é mais o tabu do sexo que suas eventuais conseqüências.

Na HQ, o sexo significa horror, mutações e isolamento, o que acaba funcionando em diversos níveis. É uma história de amadurecimento pré-liberação sexual, pré-AIDS, mas que faz todo o sentido situada nos anos 1970 ou hoje. Muda apenas o ponto-de-vista. Se levada para os já longínquos anos 1990, ela reflete exatamente o que a sociedade e a mídia ensinaram (ou tentaram ensinar, pelo menos) a toda uma geração: sexo é perigoso.

Genial também na forma, a HQ costura momentos de puro cotidiano de draminha adolescente com cenas de pesadelo. O pesado nanquim das páginas - que rendeu a Burns prêmios diversos - registra quadros de maneira desconcertante, com uma iluminação ora assustadora, ora terna; repleta de imagens de duplo significado e explorando assombrosas inovações de layout (em alguns momentos parece que os próprios personagens conseguem enxergar a estrutura em que estão inseridos, noutros ele dá um novo sentido à técnica cinematográfica do campo/contracampo). Mais impressionante ainda é que foram 10 anos para concluir a HQ e o estilo do autor é constante do início ao fim.

Black Hole já tem até roteiro para a adaptação cinematográfica - escrito por ninguém menos que Neil Gaiman e Roger Avary, a mesma dupla que colaborou em A Lenda de Beowulf. Difícil vai ser digerir as perturbadoras imagens de Burns na tela grande. Na HQ já é suficientemente desconfortável. Black Hole exige um bom estado de espírito - ou você corre o risco de ser sugado...

(Black Hole) Conrad Editora. Formato: 16 x 23 cm. 184 páginas (PB). R$ 34,90

Planetary/Batman - Noite na Terra
Por Érico Borgo

Este é possivelmente o primeiro crossover entre heróis e universos que aprecio desde que comecei a ler quadrinhos. E olha que já faz algum tempo...

É fácil entender os motivos, porém. Primeiro, Warren Ellis dificilmente erra. Ele às vezes escreve uma ou outra obra menor, mas nunca algo descartável. E crossovers geralmente são mesmo pra ler e jogar fora. Segundo... John Cassaday simplesmente não erra. O traço do sujeito continua um dos mais empolgantes das HQs. Terceiro, Planetary é um dos mais incríveis conceitos dos quadrinhos contemporâneos. É ágil, inteligente, cheio de estilo e misterioso.

Quer mais motivos para correr às bancas e comprar a edição? Se você já leu Planetary alguma vez sabe que um dos pontos mais legais da série é como ela vê o universo da cultura pop e o homenageia. Pois é justamente o que Noite na Terra faz com o Batman. Na história, Jakita Wagner, o Baterista e Elijah Snow partem para investigar um assassino responsável por mortes bizarras no Beco do Crime, em Gotham City. Mas esta não é a Gotham do Batman... pelo menos não até que o culpado pelos crimes, um poderoso e descontrolado manipulador de campos de energia, faça com que o trio seja jogado em outras dimensões - todas elas habitadas por alguma versão do Cavaleiro das Trevas.

Assim, tributos a Neil Adams, Bob Kane, Dick Giordano, Jerry Robinson e Frank Miller, entre outros, surgem a cada página - e metade da diversão é justamente identificar todas estas homenagens ao herói e seus criadores.

Se você gosta do Batman, é imperdível. Se você gosta de Planetary é imperdível. Se você não conhece nem um, nem outro, ainda há tempo - e este é o local ideal pra começar.

(Planetary/Batman) Pixel Quadrinhos. 48 páginas. Formato 20,2 x 29 cm. R$ 11,90.

Brat Pack
Por Érico Borgo

Rick Veitch foi alvo de uma das maiores polêmicas criativas do quadrinhos quando foi despedido da série do Monstro do Pântano - na qual sucedia Alan Moore. O motivo da demissão foi sua insistência em colocar a criatura vegetal encontrando-se com Jesus Cristo, o que desagradou os editores da DC Comics.

Brat Pack, sua maior obra autoral, que chega finalmente ao Brasil, é a resposta do quadrinista a esse mundo empresarial da Nona Arte, que tolhe a criatividade em prol de uma fachada empresarial socialmente respeitosa. Tudo bem explodir um adolescente vestido com colante nas mãos do sádico Coringa... o que não pode é mexer em tabus - e todo mundo sabe que violência não é tabu nos Estados Unidos.

A história mistura bastidores da indústria e sua produção ficcional. Começa com uma votação radiofônica sobre o que os ouvintes querem - que os parceiros-mirins dos grandes heróis explodam ou fiquem vivos. Qualquer semelhança com a votação que a DC fez para a infame "morte de Jason Todd" não é mera coicidência. Aliás, isso me lembra de uma história curiosa... durante a Comic-Con 2007, um leitor ao microfone pediu reembolso aos editores da DC. "Eu votei pela morte dele e paguei por isso. Agora vocês o ressuscitaram. Quero meu dinheiro de volta". Justiça seja feita... e Brat Pack está aí pra isso. A HQ mostra como uma espécie de Liga da Justiça, depois de perder seus estúpidos parceiros-mirins para um super-vilão, o Doutor Blasfêmia, recrutam sadicamente novos jovens, treinando-os cruelmente para o combate ao crime.

A HQ é visivelmente irritada com a indústria. Irritada até demais. Em sua frenética vendetta, Veitch acaba parecendo demasiadamente ranheta. "Tiraram meu brinquedo? Vou mexer com os brinquedos deles" é a impressão que se tem da primeira à última página. Um gibi rancoroso, completamente esquecido da magia escapista que as histórias em quadrinhos de super-heróis ainda possuem. Coisa de fã que leva tudo isso a sério demais - e de profissional com o ego ferido. Felizmente, Veitch sabe, sim, contar uma história e, gostemos do tema ou não, ao menos ele o produz com enorme competência. Todos os personagens são absolutamente repulsivos - e até que é divertido ver o Menino Prodígio explodindo outra vez. Pelo menos este não vai voltar.

(Brat Pack) HQ Maniacs Editora. 184 páginas. Preto e branco. R$ 29,90.

Mavel Max 51 - Tiros na Noite
Por Érico Borgo

A idéia dessa série, que começou em novembro na revista Marvel Max, era promissora: o que aconteceria ao Universo Marvel se o assassinato do cientista que criou o soro do supersoldado acontecesse antes de Steve Roger recebê-lo. Assim, de cara, o mundo não teria o Capitão América - e os efeitos se espalhariam pelo planeta e a cronologia da Marvel como ondas causadas por uma pedra atirada num lago.

As primeiras páginas são excelentes e fazem jus à expectativa. O ótimo capista e ilustrador Tommy Lee Edwards dá um tom de seriedade à história que vai ao encontro das intenções quase "documentais" do escritor J. Michael Straczynski. O problema é que tudo desmorona logo na seqüência. O roteirista não tem qualquer problema em ajeitar a cronologia Marvel para encaixar suas idéias - o que sai totalmente da idéia básica da série - o efeito dominó. Um exemplo: Rogers sai arrasado do complexo militar, ainda franzino. Mas imediatamente é recrutado para outro projeto secreto - o Homem de Ferro. Sim, o vingador dourado aqui não tem concepção de Tony Stark, mas dos militares.

Straczynski assim joga contra sua própria idéia. Se era pra mostrar como uma bala muda o rumo da história, que não inventasse coisas absurdas e convenientes como essa, mas adequasse a história já registrada do Universo Marvel à sua própria. Do contrário, a trama não passa de mais um dos batidos "O Que Aconteceria Se...".

(Bullet Points) Editora Panini Comics. Formato: 17 x 26 cm. 100 páginas. R$ 6,90.

Guy Gardner - O Pacificador
Por Marcus Vinicius de Medeiros

Com texto e arte de Howard Chaykin, um dos mais renomados profissionais da indústria dos quadrinhos, o tão maltratado Lanterna Verde estaria voltando com força total nesta nova história, certo? Infelizmente, o equívoco não poderia ser maior. Por mais que seja talentoso, Chaykin errou feio a mão em sua tentativa de "salvar" Gardner, numa história que não emociona nem diverte. Fica apenas um desgosto de ver o personagem desperdiçado em mais uma trama inútil.

Guy Gardner tornou-se o Lanterna Verde que o público adorava odiar nas páginas da Liga da Justiça de Keith Giffen e J. M. De Matteis. Depois dessa fase, passou por tudo que é possível imaginar: Lanterna Amarelo, herói de armadura e alienígena de poderes e origens complicadíssimos (além de ter virado mulher numa história ainda mais infeliz...). O respeito ao personagem só veio mais tarde, quando a Tropa de Lanternas Verdes foi recriada por Dave Gibbons. O erro de Guy Gardner - O Pacificador é justamente tentar mesclar tudo o que ele já foi.

Numa trama que tem ligações com os eventos de Crise Infinita, reunindo as raças de Rann e Thanagar, Chaykin explora o Gardner machão e mulherengo, algo que o escritor sabe fazer bem. Mas tudo o que consegue é uma caricatura que não chega perto de nenhuma versão do personagem que teve sucesso, e ainda consegue destruir o hilário coadjuvante G´Nort. Nem parece o artista de American Flagg, O Sombra e tantos outros clássicos... O resultado é um saudosismo revisionista constrangedor ao extremo.

(Guy Gardner Collateral Damage) Editora Panini Comics. Formato: 17 x 26 cm. 100 páginas. R$ 6,90.

Lanterna Verde - Renascimento
Por Marcus Vinicius de Medeiros

A minissérie Lanterna Verde - Renascimento, assinada por Geoff Johns e Ethan Van Sciver, é reunida agora num belo encadernado com introdução de Brad Meltzer. A HQ trata da redenção do ex-piloto de testes Hal Jordan, que volta a assumir o anel energético, o uniforme e o posto de Lanterna Verde do setor espacial 2814 após ter caído em desgraça. Mais que tudo isso, Renascimento é uma saga sobre coragem, e o renascimento vai além do herói principal.

Quando a DC Comics enlouqueceu o desgastado Lanterna Verde na saga Crepúsculo Esmeralda, substituindo Hal pelo novato Kyle Rayner, matou uma fagulha intensa do idealismo e da beleza que residia numa revista em quadrinhos de super-herói tradicional, direta e cheia de aventura. Não que a versão anos 90 não tenha seu charme. Ela apenas deixou de lado o ideal do homem íntegro e destemido que encarava qualquer desafio sem pensar duas vezes. Foram necessários vários anos de espera até Geoff Johns, que também sempre demonstrou coragem em seus trabalhos, aparecesse para recuperar tais ideais.

A arte de Van Sciver é intensa, detalhista e meticulosa, dando novo fôlego aos personagens do Universo DC e intensificando o tom de ficção científica da saga espacial. Johns consegue mexer em todos os pontos da mitologia dos Lanternas Verdes, não apenas explicando a loucura de Hal Jordan como também detalhes quase insignificantes que permaneceram inexplorados por décadas.

(Green Lantern Rebirth) Editora Panini Comics. Formato americano. 180 páginas. R$ 22,90.

Rex Mundi - O Guardião do Templo
Por Marcus Vinicius de Medeiros

Tramas de mistério envolvendo conspirações religiosas e segredos da Igreja Católica já se tornaram muito mais que lugar-comum na esteira da explosão do romance O Código Da Vinci. O tema chega a ser tão explorado que a simples menção de uma graphic novel nesta linha possa gerar repulsa. E aqui é que o leitor cometeria uma grande injustiça: Rex Mundi: O Guardião do Templo, de Arvid Nelson (texto) e Erigj (arte) é uma revista em quadrinhos poderosa e envolvente, que vale o dinheiro investido. Em tempo: foi produzida antes do best seller de Dan Brown.

Em Rex Mundi, temos um mistério ambientado na Paris de 1933, numa realidade alternativa, com mudanças sutis e outras nem tanto, como o resultado da Guerra Civil dos EUA. Logo nas primeiras páginas fica evidente o clima de mistério e perigo, e logo depois, somos cativados pela cuidadosa composição de personagens, da própria cidade, das questões políticas e religiosas colocadas em destaque e, enfim, de toda a ambientação que dá vida ao texto numa arte detalhada e realista. Julian Sauniére é o médico que investiga o desaparecimento de documentos secretos da Igreja e estranhos assassinatos, certo de que o mundo pode não ser o mesmo após suas revelações.

A graphic novel tem o mérito de mesclar um espírito aventuresco de histórias clássicas de detetive com a sofisticação moderna de grandes produções literárias, resultando tanto numa leitura divertida quanto num foco para descobertas e reflexões. O fato de a trama se passar numa história alternativa deixa de lado pretensões de revelação sobre histórias secretas da humanidade, ao passo que os desenhos nos prendem à realidade. Numa abordagem cheia de sociedades secretas, intrigas políticas sinistras e homens de conduta questionável, acompanhamos o surgimento de um herói improvável e cativante. No ritmo certo, com domínio da linguagem seqüencial, a dupla de narradores de Rex Mundi acerta em todos os alvos.

(Rex Mundi) Devir. Formato: 16,5 cm X 24,0cm. 216 páginas (cor). R$ 48,50.