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Affonso Solano | O Batman é preto

“Enquanto homem, sou carne e osso, posso ser ignorado, destruído; mas como um símbolo? Como um símbolo posso ser incorruptível, duradouro.” – Bruce Wayne, Batman Begins

Affonso Solano
04.08.2015
12h35
Atualizada em
29.06.2018
02h32
Atualizada em 29.06.2018 às 02h32

Em 1989, um Affonsinho diferente deixava a sala do cinema. Ele havia dançado com o demônio sob a luz pálida do luar e sobrevivido, instigado pelo renascer de um velho herói nas mãos de Tim Burton. Uma vez no lar, a criança obedeceu à tradição do “assisti o filme e agora vou encená-lo com meus brinquedos” e correu para o quarto em poder do novo boneco.

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Havia algo errado, porém.

O Batman de plástico – ainda que refletisse a representação do longa-metragem – não parecia conversar completamente com a ideologia que o menino havia aprendido nos quadrinhos.

Determinado, Affonsinho buscou a sacola com os clássicos Comandos em Ação. Um rolo de fita isolante e um pequeno pano preto se juntaram ao projeto. Snake Eyes foi o escolhido para a transformação.

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Eu sou Batman”, disse o novo boneco.

Meu Batman de fita isolante foi o melhor Batman que já brinquei. Ele era a sombra assustadora que o filme de Tim Burton havia mostrado, mas agia como o ninja que os quadrinhos haviam estabelecido, se esgueirando entre os prédios de Gotham (meu quarto) como um enorme morcego do inferno.

Em 1992, Batman: The Animated Series chegou. Lá estava o ninja que o Cavaleiro das Trevas deveria ser, descendo sobre os criminosos do alto de galpões mal iluminados.

Mas ele era cinza.

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Amaldiçoado pela alma nerd dentro de mim, reclamei. Nos filmes, Batman era uma sombra assustadora e emblemática; porém DURA como uma estátua. Nas animações, ágil e furtivo; mas CINZA e AZUL como um velho pijama. Batman Beyond (ou “Batman do Futuro” no Brasil, como costumamos traduzir qualquer obra que se passe... bom, no futuro) parecia resolver a questão – ainda que não se tratasse do “verdadeiro” Batman.

E então Batman Begins aconteceu.

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Lá estava o Homem-Morcego em sua plenitude. O uniforme, a furtividade, a tecnologia, o mito. Como Frank Miller fizera em 1986, Christopher Nolan havia redefinido o parâmetro das adaptações do personagem dali em diante, aliando o fantástico ao realismo de forma cativante. As animações mudaram o tom. Os quadrinhos perderam um pouco a cor. A tendência refletiu também na indústria dos videogames e a série Arkham conquistou público e crítica, colocando os jogadores na pele do protetor de Gotham de forma nunca antes vista.

Mas o Batman não era preto.

Antes de prosseguir, acho importante salientar que adoro a série Arkham. Vejo-a como a melhor transcrição de um super-herói para o mundo dos videogames, superando-se nos quesitos mecânicos e artísticos a cada aventura. Minha angústia, entretanto, foca-se no fato de que o manto do morcego vem sendo convertido em uma armadura high-tech na mesma proporção. No recente (e excelente) Arkham Knight, por exemplo, a simbologia original quase desaparece sob o poderio tecnológico que as Empresas Wayne podem comprar, convertendo o fascinante mito original para algo cada vez mais... bélico. Tecnologia e ciência sempre estiveram presentes na estrutura do personagem, mas de forma a auxiliá-lo a se tornar o misterioso demônio temido pelos criminosos; não um homem-tanque capaz de explodi-los com um canhão de 60mm.

Sob essa perspectiva, talvez minha aparência favorita do personagem esteja realmente em Batman Begins; não no uniforme que Wayne e Fox elaboram ao longo do filme, mas na visão que Jonathan Crane (o Espantalho) tem do Homem-Morcego após inalar o próprio gás do medo. Algo que o diálogo entre Wayne e Henri Ducard/Ra's al Ghul expõe de maneira exemplar:

- Vocês são vigilantes – afirmou Bruce, acolhido pelas sombras da cela.

- Não, não, não – respondeu Henri. – Um vigilante é apenas um homem perdido na confusão de sua recompensa pessoal. Ele pode ser destruído ou... preso.

A figura de terno se agachou para encarar o prisioneiro de perto.

- Mas se decidir tornar-se mais do que um homem – prosseguiu. – , dedicar-se a um ideal e eles não forem capazes de impedi-lo... então se tornará algo completamente diferente.

- Como o que?

- Uma lenda, Sr. Wayne.

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