Capa de O Cavaleiro das Trevas/DC Comics/Divulgação

Créditos da imagem: DC Comics/Divulgação

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Artigo

O Cavaleiro das Trevas e o fim do Batman humano

Ao salvar as vendas da DC da crise, Frank Miller criou para o Morcego uma premissa que duraria mais de 20 anos

Nicolaos Garófalo
03.10.2019
10h00
Atualizada em
03.10.2019
12h51
Atualizada em 03.10.2019 às 12h51

Praticamente incontestável, O Cavaleiro das Trevas, minissérie de Frank Miller lançada pela DC em 1986, é até hoje uma das histórias mais importantes da editora. Publicada em um período de crise econômica da empresa, a HQ reacendeu o interesse do público na revista de Bruce Wayne, que desde os anos 1960 lutava para encontrar um tom definitivo, alternando entre o ridículo e colorido visual da série de 1966 e histórias que envolviam ressurreições e viagens espaciais.

A chegada de O Cavaleiro das Trevas, assim como Ano Um, também de Miller, e Piada Mortal,de Alan Moore e Brian Bolland, mudou completamente o cenário do Batman na DC, devolvendo o herói a suas origens mais sombrias dos anos 1940. Celebrado até hoje, o trabalho de Miller deu espaço para a editora se reestabelecer no mercado, superando, finalmente, uma baixa histórica de vendas.

Recém-saído da Marvel – que, na época, vendia quase quatro vezes mais unidades que a rival - após anos escrevendo para Demolidor, o roteirista entregou uma graphic-novel crítica, ácida e com personagens cheios de nuances. Apesar de ser uma história do Batman, o quadrinista usa o mundo do herói para criticar a situação política e social dos Estados Unidos, assim como trazer, com o confronto entre o Homem-Morcego (com a ajuda do Arqueiro Verde) e o Superman, o velho debate sobre Homem x Divindade – e a quem essa “divindade” serve.

A grande consequência de O Cavaleiro das Trevas foi a criação de uma moda que perdurou por quase toda a década de 1990 na indústria: cada vez mais, editoras lançavam e redesenhavam seus heróis com designs mais sombrios e extremos, com histórias violentas – Aço, Deadpool, Carnificina e Devastadora são alguns exemplos. Mas, obviamente, a HQ do Batman foi que mais sofreu com a leitura rasa do sucesso da série de Miller.

Apesar de o Morcegão sempre ter sido caracterizado como o “Melhor Detetive do Mundo”, a vitória do personagem no confronto contra o Superman levou fãs e autores a criarem o argumento de que o protetor de Gotham pode derrotar qualquer inimigo, não importa o quão poderoso ele seja. Da publicação de O Cavaleiro das Trevas para o retorno de um Batman mais humano, Bruce Wayne foi devidamente derrotado apenas duas vezes.

Entre 1986 e 2008, foram lançados arcos históricos como O Longo Dia das Bruxas, Dark Victory, Terra de Ninguém e Silêncio, todos eles com o herói sendo colocado contra a parede, mas mostrando, mais uma vez, sua superioridade quase sobre-humana em relação aos inimigos e virando o jogo de última hora. O Cavaleiro das Trevas enfrentava exércitos, metahumanos, seres de outros planetas e sempre saía vitorioso, tirando um dos principais fatores que ligavam o personagem ao leitor: por trás de todo o luxo e riqueza, Bruce Wayne, como eles, é um humano. Sendo assim, ele deveria ser capaz de errar, perder o controle ou ser derrotado, mas isso raramente acontece.

Seus grandes planos para derrotar todo e qualquer adversário não só foram base para o arco Liga da Justiça: Torre de Babel, que mostrou Ra’s Al Ghul se apossando das técnicas desenvolvidas pelo Batman para derrotar todos os membros da Liga, como também virou meme recentemente sobre o herói estar sempre “bem preparado mesmo”.

A própria revista do Batman chegou a ensaiar um debate os limites do herói em Veneno, quando o Morcego decide usar uma fórmula que o ajude a superar seus limites após não conseguir resgatar uma criança. Embora o arco mostre uma falha do Cavaleiro das Trevas que leva ao uso excessivo da droga, fica claro que a morte que ocorre no começo da história foi apenas uma razão para que o roteirista Dennis O’Neil pudesse narrar um conto sobre o uso de substâncias ilícitas.

Nos anos seguintes, as derrotas de fato do Batman viriam apenas em A Queda do Morcego, arco histórico que introduziu Bane e forçou Bruce a ser substituído por Azrael como Batman – algo que Bruce já havia planejado caso fosse derrotado algum dia -, e Morte em Família, em que o herói não consegue evitar a morte de Jason Todd, o segundo Robin. Essa segunda derrota, aliás, é discutível: não só Miller havia “previsto” a morte de Todd dois anos antes em O Cavaleiro das Trevas, como a conclusão do arco foi resultado de uma polêmica votação dos fãs, que não gostavam da personalidade rebelde do novo Menino Prodígio.

Elogiada por todos os motivos certos, a graphic-novel de Miller seguia influenciando a indústria de maneiras questionáveis. Poucas histórias procuravam explorar seus personagens ou abordar assuntos relevantes de forma crítica, o importante era apenas vender. Modelo esse que foi ficando desgastado com o tempo.

Não só a virada do século trouxe (bons) filmes coloridos de super-herói para as massas, como os dois primeiros Homem-Aranha de Sam Raimi e os X-Men de Bryan Singer, animações como Liga da Justiça Sem Limites e Jovens Titãs renovaram o significado das propriedades de Marvel e DC. O Batman, porém, continuava sendo um problema. O bem-sucedido reboot Batman Begins, de Christopher Nolan, contrastava com as outras produções inspiradas em quadrinhos por seu retrato realista da campanha de Bruce Wayne contra o crime e o sucesso avassalador da sequência - também batizada de O Cavaleiro das Trevas - reforçou a impressão de que o herói só funcionaria sob uma visão sombria, especialmente depois da péssima recepção de crítica e público que Batman Eternamente e Batman & Robin, dirigidos por Joel Schumacher, tiveram ao completar a história iniciada nos sombrios e, até certo ponto, violentos Batman e Batman: O Retorno, de Tim Burton.

As reações às produções do Batman no cinema apenas reforçaram a opinião da DC sobre como seus roteiristas deveriam abordar o herói. Enquanto outros autores tinham passe livre para trazer histórias mais alegres para suas revistas, o Morcego seguia preso na premissa de O Cavaleiro das Trevas, tanto por conta dos fãs, que se acostumaram a vê-lo de uma certa forma, quanto pela editora, que temia uma queda de vendas semelhantes à época pré-Miller.

Foi apenas com a chegada do lendário Grant Morrison (Liga da Justiça, Novos X-Men e Grandes Astros: Superman) que o herói voltou a ser visto pelo que sempre foi: um ser humano. Autor do evento Crise Final, o roteirista tomou a decisão de matar o Batman, que se sacrificou em um esforço final para derrotar o vilão Darkseid. Com isso, Morrison garantiu duas coisas: não só Bruce não tinha um plano para escapar da morte, como um novo Batman precisaria surgir.

O autor então lançou, ao lado de Frank Quitely, Batman & Robin: Renascido, que colocava Dick Grayson, primeiro Robin e então Asa Noturna, no posto de Cavaleiro das Trevas e Damian Wayne como novo Menino Prodígio. A nova dupla dinâmica quebrou os paradigmas estabelecidos em 1986: criado por Ra’s e Talia Al Ghul e novato no trabalho de herói, Damian pensava como um assassino, mas competia intelectualmente com Bruce; Dick, por outro lado, sentia a pressão de vestir o uniforme permanentemente – pelo menos, era o que se imaginava - e errava de maneiras que seu mentor não costumava fazer. A união desses personagens levou o carisma e a popularidade do Asa Noturna para o Batman, que pela primeira vez em décadas viu o público se identificar com a essa versão mais jovem - e menos abastada - do Cavaleiro das Trevas.

A humanização do símbolo do Batman seguiu quando Scott Snyder assumiu o título em 2013, com Bruce já ressuscitado tentando lidar com a criação de seu filho e a reconciliação com Jason Todd, e chegou ao ápice com Tom King após o reboot Renascimento, em que o Batman finalmente tem a chance de conhecer a versão de seu pai apresentada em Ponto de Ignição, fica noivo da Mulher-Gato, é aprisionado em uma armadilha que o faz enxergar seus piores pesadelos e é, mais uma vez, quebrado humilhado por Bane, banido de sua cidade e privado de todos os luxos e riquezas que o afastavam da realidade dos leitores da revista.

Em todos os seus méritos para a história da biblioteca e da economia da DC, O Cavaleiro das Trevas é, sem dúvida, uma das histórias mais influentes, não só do Batman, mas de toda a editora. É necessário lembrar que o que atraiu Miller para escrever a revista do Batman foi sua humanidade, o fato de, mesmo fazendo parte da elite bilionária do mundo, ele ser um homem em meio de deuses, contando com sua inteligência e habilidades para se sobressair aos demais. Ironicamente, o próprio Miller criou um movimento que divinizou o herói, afastando o invencível Batman do Maior Detetive do Mundo apresentado em 1939.