Gus, protagonista de Sweet Tooth

Créditos da imagem: Divulgação/Vertigo

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Conheça Sweet Tooth, a HQ que mistura Mad Max com fábulas da Disney

Quadrinho de Jeff Lemire vai virar série na Netflix com produção de Robert Downey Jr.

Gabriel Avila
13.04.2020
19h25
Atualizada em
12.04.2021
22h30
Atualizada em 12.04.2021 às 22h30

Não é raro ter contato com obras que criam uma curiosa combinação entre gêneros aparentemente opostos, como Star Wars, que levou samurais para o espaço, e Bacurau, que trouxe o velho-oeste para o nordeste brasileiro. Nos quadrinhos, uma mistura inusitada aconteceu em Sweet Tooth, história que parece uma fábula da Disney ambientada no apocalíptico mundo de Mad Max. Prestes a virar uma série pela Netflix com produção de Robert Downey Jr., a HQ se tornou um dos mais cultuados títulos dos anos 2000 graças a um mergulho na natureza humana, que será ironicamente atual em um mundo pós-coronavírus.

Publicada pela Vertigo, o antigo selo adulto da DC Comics, Sweet Tooth se passa em um mundo tomado por uma inexplicável praga que mata boa parte da população. Simultâneo às mortes, começam a surgir crianças especiais, hibridas entre humanos e animais. Um deles é Gus, garoto de 9 anos com galhadas de cervo, que ficou escondido na mata até o falecimento de seu pai. Contrariando a maior regra estabelecida pelo seu velho, ele deixa a floresta após conhecer o Sr. Jepperd, um homem que o salva de uma emboscada armada por dois caçadores. Sozinho e sem saber se virar, o rapaz parte com seu novo amigo em busca da chamada Reserva, local supostamente criado para a proteção dos sobreviventes da praga.

Gus em Sweet Tooth
Divulgação/Vertigo

Não são necessárias muitas edições para que a HQ explique ao leitor que esse é um mundo totalmente hostil. Ao deixar a mata, Gus enfrenta perigos e ameaças que nem julgava serem possíveis graças à uma inocência própria de quem viveu totalmente à parte da sociedade. Em pouco tempo, o garoto tem contato com a morte, tanto por combate quanto por doença, e só consegue sobreviver por causa da presença de Jepperd. Antítese do garoto, o homem surge como uma espécie de “brucutu caladão” cujas únicas habilidades estão ligadas à sobrevivência, especialmente a violência.

Porém, o que poderia se tornar uma leitura sombria e fúnebre, se mostra um conto sobre a habilidade humana em se manter de pé em meio à tragédia. Se assim como Jepperd, os sobreviventes desse mundo vivem no limite e estão sempre propensos a cometer barbaridades, existem aqueles que, como Gus, acreditam que o amanhã pode ser melhor e estão dispostos a arriscar sua vida para que seja. Essa dualidade ganha ainda mais camadas conforme a história avança, já que ela dá espaço para perspectivas diversas. Nesse momento, a história deixa de lado qualquer comparação com obras como The Last of Us ou mesmo Logan - que vieram anos após a conclusão da HQ -, pois começa a passear por tramas e gêneros pouco esperados em uma história pós-apocalíptica.

Gus e Sr. Jepperd em Sweet Tooth

Gus e Sr. Jepperd de Sweet Tooth

Divulgação/Vertigo

Ao longo de 40 edições, o autor Jeff Lemire caminha por uma diversa gama de gêneros e estilos. A trama traz melancolia, ação, horror, e até um pouco de romance, costurando uma história que usa características de cada um desses estilos para manter a expectativa a respeito do destino desses personagens. Usando a jornada intimista de Gus como carro chefe, o quadrinho ainda constrói uma grandiosa mitologia que mistura lendas tribais e ficção científica. Combinação essa que deixa no ar perguntas respondidas pelo roteiro de forma esperta, fazendo com que pequenos eventos vividos pelo garoto-cervo e seus amigos tenham uma repercussão grandiosa nos rumos da humanidade.

O legado de Sweet Tooth

Misturando referências em uma história cuja base está no tênue equilíbrio entre desespero e esperança, com doses cavalares de adrenalina, Jeff Lemire ousou ainda na forma de ilustrar essa jornada. Responsável também pela arte da HQ, por diversos momentos o quadrinista conduziu sua história através de experimentalismo. De flashbacks que geram rimas visuais com o momento presente, a sequências oníricas de sonho profético e até mesmo edições inteiras montadas como livros infantis, o autor canadense criou uma jornada singular e inventiva. Um feito impressionante, considerando que essa foi a primeira HQ longa de sua carreira, que até então contava apenas com graphic novels e minisséries.

Capa de Sweet Tooth 18
Divulgação/Vertigo

Todas essas qualidades fizeram com que Sweet Tooth ganhasse fama como um dos melhores quadrinhos autorais já publicados pela Vertigo, casa de clássicos como Sandman e Hellblazer. O quadrinho catapultou Jeff Lemire, que depois assinou contratos de exclusividade com DC e Marvel. Atualmente trabalhando em praticamente todas as grandes editoras, o quadrinista se dedica tanto a grandes personagens, quanto aos projetos autorais.

A série de Sweet Tooth deve marcar sua estreia em outras mídias, algo que acontecerá em um momento em que a realidade ironicamente conversa com trama do quadrinho. Considerando que a produção ainda está em estágios iniciais, ela deve ser lançada daqui há alguns anos, quando o mundoterá superado uma pandemia global que, assim como na ficção, vitimou milhões de pessoas de maneira inexplicável. Integrando o zeitgeist dessa década que mal começou e já enfrenta uma grande catástrofe, é possível que a jornada de Gus sirva de inspiração para que não abandonemos as esperanças mesmo nos momentos mais difíceis.

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