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Banca de HQs | Invencível, O Legado de Júpiter e o super-herói revisionista

Da paródia cínica ao idealismo clássico: como a cultura pop enxerga seus heróis hoje?

Gabriel Avila
05.05.2021
20h27
Atualizada em
05.05.2021
21h40
Atualizada em 05.05.2021 às 21h40

Invencível tomou os fãs de super-heróis de assalto em um ano que apontava pelo sucesso da chegada do MCU ao streaming. Porém, ao contrário de WandaVision e Falcão e o Soldado Invernal, que no fim das contas seguem a cartilha dos heróis clássicos, a animação do Amazon Prime Video traz novos ingredientes para a mistura como a violência e uma certa dose de realidade em meio a invasões alienígenas e ataques de ciborgues. Por outro lado, o caráter sanguinolento da produção trouxe de volta o debate: agora os heróis precisam ser violentos para cair nas graças do público?

Com a explosão dos heróis no cinema e na TV, aos poucos essas produções passaram a render bilheterias cada vez maiores e ganhar reconhecimento da crítica em prêmios importantes como Oscar, BAFTA e prêmios de sindicatos. Na cultura pop há uma regra não-escrita de que a partir do momento que algo se torna popular, em breve vai receber respostas ou paródias. Nesse ponto é fácil lembrar de The Boys, série que em 2019 aproveitou essa popularização para dar o dedo aos super-heróis.

Mesmo não tendo sido a primeira produção a fazer isso - já que Watchmen ganhou um filme em 2009 e Kick-Ass chegou aos cinemas no ano seguinte -, The Boys elevou o patamar. Partindo do princípio de que qualquer pessoa agraciada com poderes estaria fadada a virar um babaca, a série distorce a cultura dos heróis com muito sangue e cinismo. Uma adaptação que faz bastante justiça ao quadrinho que se baseia.

Capa do primeiro volume da HQ de The Boys
Divulgação/Devir

A HQ de The Boys em 2006 e seu conteúdo foram tão polêmicos que levou a DC Comics - dona do selo WildStorm,onde o quadrinho era publicado - a cancelar o título em sua sexta edição. Continuada na concorrente Dynamite, a HQ durou mais de 70 edições (quase 100 se contarmos os derivados) com o único objetivo de sacanear a cultura dos super-heróis. Já consagrado na época, o roteirista Garth Ennis não estava propondo nenhum tipo de discussão ou reflexão sobre o papel de superseres entre nós. A ideia era claramente zoar os heróis - que o próprio escritor já havia declarado desprezo antes.

Quando essa história chegou ao Amazon Prime Video, a resposta foi instantânea. Como o próprio Ennis disse, os filmes de super-heróis fizeram o favor de “educar” o público sobre quem eram os personagens que estavam zoando ali. Mas o apelo de The Boys vai além da sátira, e satisfaz também pela sanguinolência, já que a série emprega uma violência tão absurda e criativa que é divertida de assistir. Talvez por isso tenham insistido que Invencível seria “o novo The Boys”, quando a animação não poderia ser mais oposta da jornada de Billy Bruto e seus amigos.

Invencível e a retomada do otimismo

Se Ennis queria rir dos heróis com The Boys, a missão de Robert Kirkman com Invencível era justamente o oposto. Em entrevista ao Omelete, o criador afirmou que começou a escrever essa história porque “queria celebrar o que torna eles legais”, porque “quando você tenta torná-los sérios demais, muito dramáticos ou tenta tirar os aspectos bobos dos super-heróis, você meio que perde um pouco da magia”.

Capa da versão deluxe norte-americana da HQ Invencível
Divulgação/Image

Em questão de tom, Invencível está mais próximo do idealismo que tornou personagens como Superman e Homem-Aranha símbolos de heroísmo. Toda a jornada de Mark Grayson em equilibrar sua “carreira heróica” com a vida de um adolescente, o desenvolvimento de seu altruísmo de quem se mete em brigas que não tem chance de vencer, tudo isso passa longe da aura revisionista que parece estar tomando conta das produções de herói.

É por isso também que, apesar de vermos um ou outro herói matando ou cometendo adultério, esse não é o foco. A série não quer desconstruir ou pichar a imagem dos combatentes da justiça, principalmente porque quando o faz é para criar contrastes com os “verdadeiros heróis” da história. Algo que se mostra um enorme avanço em relação às histórias revisionistas que nos anos 2000 se empenharam em tornar HQs mainstream “adultas” ao adicionar cinismo e violência nas principais revistas das grandes editoras.

De acordo com o dicionário Michaelis, uma das definições de revisionismo é “atitude das pessoas que tendem a reavaliar antigos valores artísticos e culturais”. Talvez o quadrinista que tenha feito mais fama ao propor reavaliações nos heróis seja Mark Millar. Após estrear em projetos ao lado de Grant Morrison, o escritor escocês explodiu em HQs como The Authority e Os Supremos, a versão “sombria e cínica” dos Vingadores no Universo Ultimate.

Em comum, esses títulos tinham cenas de ação impactantes, uma narrativa pronta para ser levada aos cinemas e principalmente uma dose de cinismo e seriedade aos heróis. No fim do dia, seguem a estrutura de heróis combatendo vilões, mas agora os campeões são falhos e sujeitos a erros, vícios e um comportamento reprovável. Ainda assim, são pessoas em busca de justiça e de salvar o dia, superando suas falhas para deixar o mundo seguro.

Com o sucesso de público e crítica, essas histórias levaram Millar a dar o próximo passo e inaugurar o Millarworld, um selo de quadrinhos autorais que teve sua própria dose de heróis revisionistas em HQs como Kick-Ass, Superior e Nemesis. É curioso que, durante o desenvolvimento de seu próprio universo, Millar tenha ido além ao propor uma ótica revisionista de seu próprio revisionismo.

O “pós-revisionismo” de O Legado de Júpiter

Lançada em 2012, a HQ de O Legado de Júpiter parecia ser mais uma história sobre heróis falhos e cínicos que no fim do dia salvam o dia. Isso porque ela apresenta um grupo que ganha poderes na década de 1950 e avança no tempo para mostrar como os descendentes desses heróis foram consumidos pela indiferença ao ter todas as portas abertas graças ao nome de seus pais.

Capa de uma compilação das HQs O Legado de Júpiter
Divulgação/Image

Nos primeiros capítulos, o quadrinho tem toda a assinatura de uma história típica do Mark Millar: violência, cinismo, diálogos que se acham mais profundos do que realmente são e bastante choque. Porém, conforme a história progride, ela acaba tomando o caminho contrário e reencontra uma espécie de paixão pelo heroísmo.

Não que a HQ seja um retrocesso ou algo do tipo, já que não é como se a moral fosse “vamos todos voltar para a Era de Ouro com alegria e otimismo”. Mas sim um olhar crítico sobre essa onda de que heróis só vendem se forem violentos e cínicos. Há espaço para sangue e falhas nessas histórias, mas elas não precisam ser guiadas apenas por esse senso de que é preciso de violência e choque para validar o “lado adulto” dos quadrinhos.

O próprio Millar teve abusou desses recursos em histórias vazias que acabavam parecendo mais um grito juvenil em busca de validação - sim Nemesis, eu estou olhando para você. Com Legado de Júpiter surgiu a abertura para uma nova etapa dos heróis que casa as duas abordagens rumo a algo novo e esperançoso.

Ainda é cedo para saber se a série de Legado na Netflix vai atingir esse alvo, mas certamente será mais uma produção para colocar lenha nessa discussão sobre a “desconstrução dos heróis”. Debate esse que parece ter vida longa, especialmente por uma insistência em colocar na mesma caixinha produções tão diferentes entre si.

Sobre a coluna:

Banca de HQs é um projeto do Omelete criado por Gabriel AvilaNicolaos Garófalo Load Comics, com o objetivo de falar mais sobre o universo dos quadrinhos, desde os grandes clássicos, passando por artistas independentes e novidades desse meio. Após uma primeira temporada na Twitch, o Banca segue no Omelete com entrevistas, reportagens e análises semanais de tudo o que faz parte do universo dos quadrinhos.

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