Danny Trejo e Carlos Valdes em The Flash/CW

Créditos da imagem: CW/Divulgação

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The Flash repete trama infame de HQs em episódio focado em Cisco

Série usa morte de personagem como estímulo para trama do cientista

Nicolaos Garófalo
06.11.2019
19h03
Atualizada em
06.11.2019
19h17
Atualizada em 06.11.2019 às 19h17

Em 1994, a revista Lanterna Verde #54 mostrou Kyle Rayner, então principal dono do manto na DC, descobrindo que sua namorada, Alexandra DeWitt, havia sido assassinada e colocada na geladeira pelo vilão Major Força. A história, escrita por Ron Marz, se tornou infame e reacendeu o debate sobre a representação de personagens femininas nas HQs, constantemente retratadas como vítimas de violência simplesmente para incentivar a trama de heróis masculinos, um artifício já utilizado em O Espetacular Homem-Aranha: A Noite em que Gwen Stacy Morreu, em 1973, e Batman: A Piada Mortal, de 1988. Em “Kiss Kiss Breach Breach”, quinto episódio da sexta temporada de The Flash, os roteiristas do Arrowverse simplesmente ignoraram o peso histórico do fridging – expressão criada pela roteirista Gail Simone em 1999 – e eliminaram uma querida personagem da série como incentivo à trama de Cisco (Carlos Valdes).

[Spoilers de “The Flash – Kiss Kiss Breach Breach” à frente]

Painel de Green Lantern 54/DC Comics
DC Comics/Reprodução

Embora a série tenha se adaptado extremamente bem à tensão emocional criada pela provável morte de Barry (Grant Gustin) no crossover Crise nas Infinitas Terras, “Kiss Kiss Breach Breach” erra a mão na maneira como esse tom mais pesado deve ser explorado. Aproveitando uma viagem do protagonista com Iris (Candice Patton), Cisco assume temporariamente a liderança do grupo em um momento tranquilo, pedindo que Ralph (Hartley Sawyer) e Nevasca (Danielle Panabaker) vigiem Hemoglobina/Ramsey Rosso (Sendhil Ramamurthy) enquanto ele passa um tempo com Kamila (Victoria Park). Quando o casal se prepara para dormir, Breacher (Danny Trejo) aparece no quarto de Cisco e informa que Cynthia/Cigana, ex-namorada do rapaz, foi assassinada.

Apesar de ainda contar com boas atuações de seu elenco, extremamente em sintonia com a essência de seus personagens, o episódio não permite nunca que a morte da caçadora de recompensas seja levada a sério. Mesmo em plena investigação, ao lado da cena do crime, Cisco tenta, duas vezes, dizer a Kamila que a ama, sendo interrompido por um investigador em uma tentativa desconfortável de alívio cômico. Ao longo do capítulo, a morte de Cigana serve apenas para que o cientista se prove como líder e namorado, em questionamentos vazios que são rapidamente descartados por sua nova e bela companheira, que o roteiro deixa sempre a postos para garantir que Cisco está fazendo a escolha certa.

Talvez a crítica pela pouca importância real dada à morte de Cynthia fosse menos alarmante se Nevasca, uma personagem historicamente mais explosiva que Cisco, não tivesse falhado em sua missão de vigiar Ramsey, indiretamente causando a morte de um homem inocente. Embora Hemoglobina seja o grande vilão deste início de temporada, suas ações são irrelevantes em “Kiss Kiss Breach Breach”, assim como a conversa entre Nash Wells (Tom Cavanagh) e Joe (Jesse L Martin).

Focado e conciso, o roteiro do episódio não deixa a desejar no quesito entretenimento, mas a criatividade mostrada no restante da temporada levanta a questão se o fridging de Cynthia era realmente necessário para a trama, que funcionaria muito melhor se Echo, vilão da semana e duplo interdimensional de Cisco, tivesse cometido uma série maior de crimes no multiverso sem necessariamente vitimar Cigana.

Mesmo não sendo um episódio ruim, “Kiss Kiss Breach Breach” cria uma marca negativa em The Flash pelo uso completamente desnecessário de “mulheres na geladeira”. As boas tiradas e o clima mais leve típicos da série apenas aumentam a sensação de que Cynthia teve um tratamento injusto por parte dos roteiristas e seu fim na série reacende um debate que, na realidade, nunca deixou de ser relevante na cultura pop.